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Webinários (seminários na WWW) de qualidade para ficar realmente por dentro de temas educacionais atuais

Todos nós sabemos que na internet tem de tudo. A máxima “o papel aceita tudo” ganhou aparente sofisticação com os variados recursos que a informática permite. Agora é a internet que aceita tudo . . . Exatamente como ocorreu nas sucessivas revoluções intelectuais, políticas e de costumes causadas pela introdução de cada nova tecnologia, cá estamos nós mudando nossa forma de ver o mundo por ter contato com ideias e práticas de outras pessoas e contextos. Desta vez, diferentemente das demais como o rádio e a TV, de maneira muito mais interativa. Uma “verdadeira” realidade virtual.

Obviamente que não falta na internet, como não faltou nos demais canais de comunicação, muito lixo para emburrecer ou limitar nossa percepção de mundo. Como sempre, há muito mais conteúdo descartável do que oportunidades de aprender de verdade, abrir as idéias, conhecer nossos conceitos e contextos. O novo campo para expansão produção de conteúdo irrelevante e tacanho é a educação formal, escolar – aquele tipo de aprendizado que depende da frequência regular a um ambiente estruturado para se aprender habilidades e conteúdos que não se aprende “na rua”, ou “na internet” no sentido amplo.

A questão é que muita gente, principalmente em países subdesenvolvidos como o Brasil, nos quais a educação escolar ainda não está bem estruturada, o conteúdo de baixa qualidade concorre de verdade com o que interessa para fazer os estudantes aprenderem mais e os professores melhorarem suas práticas.

Hoje trago duas oportunidades interessantes para realmente se aprender por meio de conteúdos gratuitos divulgados eletronicamente. Ambos têm foco em políticas educacionais e gestão de redes escolares. Uma é gringa, produzida pela OCDE no âmbito do Pisa e outra é super local, produzida pela Secretaria da Educação de Sobral, no Ceará.

Os seminários via web, ou webinários sobre os achados do Pisa, estão disponíveis aqui:

http://www.oecd.org/pisa/webinars/

Os webinários do Pisa tratam de temas muito interessantes cuja análise aprofundada foi possibilitada pela iniciativa, que teve sua primeira avaliação aplicada em 2000. Desde então produzindo uma quantidade fenomenal de dados sobre políticas e práticas educacionais, além de da captação de informação sobre o perfil social dos alunos e de condições de ensino das escolas onde estudam. Por exemplo, há um recente sobre a educação na China explicando como o sistema chinês funciona.

Já os conteúdos da Seduc Sobral apresentam alguns eventos do dia a dia da Secretaria da Educação, mas também a nova documentação curricular do município, que está aqui:

http://sobral.ce.gov.br/site_novo/sec/educacao/#

Recomendo o II Seminário sobre a Experiência Educacional de Sobral (SEES) – 20 anos, cuja próxima edição será dias 30 e 31 de março, quinta e sexta desta semana. O conteúdo depois fica disponível no site e no canal do Youtube. Esses seminários ocorrem mensalmente e são uma solução que a Prefeitura de Sobral organizou para atender à demanda por visitas à sua rede municipal que emergiu com a divulgação dos dados do Ideb de 2015. Para situar, a cidade apresentou alto rendimento de seus alunos tanto no 5º ano quanto no 9º do ensino fundamental, com o melhor desempenho no Brasil para municípios de grande porte.

As inscrições para a edição de março podem ser feitas por este link:

https://doity.com.br/seminario-educacao-sobral

Além do interesse pelo conteúdo em si de cada iniciativa, Sobral e Pisa agora vão passar a ter muito mais em comum. Em maio será aplicada a prova do Pisa para todos os alunos de 15 anos (faixa em que se concentra a avaliação) matriculados na cidade, não importando se estão na rede municipal ou estadual. Essa avaliação externa e censitária do Pisa em um município brasileiro é inédita e é decorrência direta dos novos padrões curriculares que serão implementados na cidade a partir de 2018. A cidade vai fazer um diagnóstico do desempenho de seus alunos no Pisa porque com o novo currículo a Prova Brasil não será mais capaz de medir o conhecimento dos alunos dessa cidade do sertão nordestino. Agora eles vão buscar de verdade o padrão internacional estabelecido pelos países desenvolvidos.

Fica a dica…

Um currículo para guiar a busca por novos caminhos

Há anos estudando exemplos, referências e a fundamentação teórica de documentos curriculares de alguns países desenvolvidos e, com base neles, fazendo comparações com alguns dos currículos produzidos no Brasil, percebemos o longo caminho que boa parte dos educadores brasileiros ainda têm pela frente em termos de 1) compreender a importância desse potente instrumento de planejamento e gestão pedagógica e 2) aceitar materializar esse tipo de documento de planejamento em suas escolas a partir de um patamar bem mais lato de rigor acadêmico.

Alguns contextos no Brasil, ainda como exemplos de mais absoluta exceção, começaram a perceber a enorme contribuição que um documento curricular bem feito pode dar para a consolidação da qualidade da educação e começaram a trilhar novas rotas mais desafiadoras. São expectativas de aprendizagem apresentadas de forma mais clara e organizada, desdobradas de forma lógica e progressiva, que permitem a toda a equipe pedagógica de uma escola ou rede definir prioridades e mobilizar os recursos adequados para concretizá-las.

A cidade de Sobral, no interior do Ceará, mais uma vez sai na frente e está em fase de conclusão de suas propostas curriculares de Língua Portuguesa e de Matemática para todo o ensino fundamental local que já foi municipalizado. O Município, que tem a melhor rede pública de ensino do Brasil*, percebeu que com sua capacidade instalada (equipe, infraestrutura e recursos materiais) poderia ir bem mais longe do que já chegou e resolveu impor-se um novo patamar de desafios pedagógicos.

O documento de Matemática já está pronto e em validação final pela rede local. O de Língua Portuguesa está quase lá. Para que outros municípios possam conhecer o mais novo trabalho da equipe de Sobral e até se animar para seguir de perto seus próximos passos, passamos a publicar aqui e na CBN alguns componentes essenciais de sua estrutura.

Hoje apresentaremos a estrutura completa dos componentes de Língua Portuguesa (eixos, subeixos e expectativas) e um detalhamento para o eixo de ORALIDADE. Comentários e sugestões são bem vindos e podem ajudar Sobral a ter um documento ainda melhor.

A estrutura:

Nível de complexidade Eixos, Subeixos e Expectativas
EIXO 1 – Oralidade EIXO 2 – Leitura EIXO 3 – Escrita EIXO 4 – Gramática
Expectativas de introdução à lógica escolar acadêmica 1.1 Consciência fonêmica 2.1 Decodificação 3.1 Sistema de escrita 4.1 Lógica da Língua
1.1.1 Desenvolver a consciência fonêmica 2.1.1 Desenvolver a consciência alfabética

2.1.2 Decodificar

3.1.1 Desenvolver as habilidades motoras finas

3.1.2 Apropriar-se do sistema de escrita

4.1.1  Incorporar, de modo funcional, as regras fonéticas e fonológicas

4.1.2 Incorporar, de modo funcional, as regras morfológicas

Expectativas instrumentais de comunicação 1.2 Apresentação e colaboração discursiva 2.2 Desenvolvimento da fluência leitora 3.2 Registro e uso de informações 4.2 Apropriação da Língua
1.2.1 Respeitar as regras de cortesia e de interação

1.2.2 Realizar apresentações orais

2.2.1 Ler com fluência 3.2.1 Organizar registros e notas

3.2.2 Registrar informações coletadas em diferentes fontes

3.2.3 Produzir pesquisa

4.2.1 Grafar palavras corretamente

4.2.2 Apreender, de modo funcional, as regras e os mecanismos de estrutura e formação das palavras

4.2.3 Incorporar a classificação das palavras e suas funções linguísticas

4.2.4 Garantir a fluência, coerência e eficácia do texto, utilizando os sinais de pontuação

Expectativas de expressão, compreensão e de autoria textual 1.3 Expressão e Compreensão oral 2.3 Compreensão leitora 3.3 Produção textual 4.3 Construção e relação de sentido da língua
1.3.1 Expressar-se de maneira efetiva nas diferentes interações

1.3.2 Compreender textos orais

2.3.1 Identificar a situação de comunicação que deu origem ao texto

2.3.2 Compreender textos escritos

2.3.3 Analisar elementos e estruturas de diferentes tipos de texto

2.3.4 Comparar textos escritos

3.3.1 Planejar a escrita de acordo com a situação de comunicação

3.3.2 Redigir diferentes tipos de texto

3.3.3 Revisar e reescrever o texto

3.3.4 Editar o texto escrito

4.3.1 Assegurar a concordância verbal conjugando os verbos corretamente

4.3.2 Compreender enunciados, sua construção e a relação entre os seus termos

4.3.3 Inferir os diversos significados ou efeito de sentido do uso de palavras ou expressões

Explicando a estrutura:

Temos os 4 eixos usuais, presentes nas referências internacionais das quais partimos, e em algumas nacionais: Oralidade, Leitura, Escrita e Gramática. É importante ressaltar que até esta ordem segue uma lógica de progressão, neste momento da esquerda para a direita, pois primeiro se aprende a falar, depois a ler e em seguida a escrever respeitando as regras de cada língua.

Depois há uma dupla lógica de progressão que se dá na leitura do quadro anterior, agora no movimento de cima para baixo e que é dada:

a) pelos três níveis de progressão cognitiva que unem os 4 eixos (Oralidade, Leitura, Escrita e Gramática) por tipo de expectativa de aprendizagem que eles apresentam: Expectativas de introdução à lógica escolar acadêmica, Expectativas instrumentais de comunicação e Expectativas de expressão, compreensão e autoria textual;

b)pela ordem das expectativas de aprendizagem desdobradas a partir de cada subeixo, por exemplo, o subeixo 1.2 Apresentação e colaboração discursiva tem como expectativas: 1.2.1 Respeitar as regras de cortesia e de interação e 1.2.2 Realizar apresentações orais

Para compreender melhor como funciona a lógica do novo currículo que está sendo preparado pela equipe técnica de Sobral, com ajuda minha e da Paula Louzano, segue o eixo de Oralidade:

EIXO 1 – Oralidade
Subeixo 1.1: Consciência fonêmica
Expectativa de aprendizagem: 1.1.1 Desenvolver a consciência fonêmica
Subeixo 1.2: Apresentação e colaboração discursiva
Expectativas de aprendizagem: 1.2.1 Respeitar as regras de cortesia e de interação e 1.2.2 Realizar apresentações orais

Subeixo 1.3: Expressão e Compreensão oral
Expectativas de aprendizagem: 1.3.1 Expressar-se de maneira efetiva nas diferentes interações e 1.3.2 Compreender textos orais

Isso significa que, ao final do 9º ano o aluno deverá ser capaz de respeitar as regras de cortesia e de interação, realizar apresentações orais, expressar-se de maneira efetiva nas diferentes interações e compreender textos orais.

Em que nível e com que progressão essas expectativas serão desenvolvidas pelos alunos, sob a orientação e estímulo de seus professores, é o “recheio” do currículo de Sobral que se encontra neste momento em processo final de aprovação na rede.

Outras matérias e menções ao ensino de qualidade de Sobral:

Além do currículo, a Neurociência pode salvar o Brasil de seu destino educacional medíocre

Muitas vezes no nosso boletim Missão Aluno da CBN já dissemos o quanto é importante levar em conta as descobertas recentes das Neurociências na hora de desenhar programas educativos em geral e políticas públicas educacionais em particular. Ainda vemos muito pouca influência deste ramo das Ciências no setor educacional do Brasil, nas escolas de educação, nas escolas privadas (com raras exceções) e principalmente no desenho de currículo e de políticas públicas.

Também já apresentei minha leitura sobre a questão, que chega a ser simplória: o setor educacional brasileiro ainda não incorpora essas descobertas porque pouca gente do ramo lê em inglês e também porque não tem interesse em trocar as explicações e posições socio-políticas por outras mais científicas, cuja produção está fora da sua própria área de atuação profissional. Todos nós perdemos com isso.

Por isso, adiciono à minha luta por um currículo ambicioso, de padrão de país desenvolvido para todas as crianças brasileiras, a luta e a “militância” pela incorporação das descobertas e pela integração das áreas de Neurociências e de Educação, principalmente nas Escolas e Faculdades de Educação do Brasil inteiro.

O BID fez recentemente um breve resumo, mas daqui para a frente vou postar outras informações aqui porque, para algumas pessoas do setor da educação, principalmente quem é muito ligado às Faculdades de Educação, BID, Banco Mundial, Unesco, OCDE é tudo a mesma coisa: a institucionalização do capitalismo financeiro selvagem, portanto, não deveriam ser levados a sério.

O que disse o BID em seu blog – Blog do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) – La Educación de Calidad És Posible:

1. O desenvolvimento do cérebro na primeira infância e na adolescência é fundamental

2. O estresse crônico afeta o aprendizado

3. Atividades em sala de aula podem rapidamente provocar melhorias visíveis no desenvolvimento do cérebro.

Detalhando:

1. O desenvolvimento do cérebro na primeira infância e na adolescência é fundamental

O cérebro passa por um período de desenvolvimento e maturação que começa antes do nascimento da criança e continua até perto dos 24 anos. Durante a primeira infância e especialmente durante os primeiros três anos de vida de uma criança, o cérebro atinge um período de grande crescimento e desenvolvimento, com uma “plasticidade” muito maior que a do cérebro adulto. De fato, os pesquisadores do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade Harvard concluíram que “o desenvolvimento da estrutura do cérebro de uma criança constitui a base para sua aprendizagem, comportamento e saúde em geral”. Não é de estranhar, então, que experiências negativas em idades tenras da vida têm consequências a longo prazo, mesmo na idade adulta. Na adolescência, o cérebro também sofre alterações consideráveis. Respostas [cerebrais a situações] com alta carga emocional, por exemplo, são mais proeminentes na adolescência do que na infância ou na idade adulta.

[. . . ] Pais, parentes, cuidadores, professores e autoridades governamentais têm em suas mãos oportunidades de desempenhar papéis na definição das experiências-chave para o desenvolvimento cerebral.

2. O estresse crônico afeta o aprendizado

No campo da Neurociência é sabido que os ambientes de estresse crônico podem ter um efeito direto sobre o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Biomarcadores conectados à massa cinzenta e branca do cérebro, ou às funções do cérebro, podem fornecer pistas sobre os efeitos do estresse sobre os mais jovens. Estes efeitos quantitativos estão diretamente correlacionados com resultados psicológicos e educacionais. Por exemplo, a exposição crônica ao estresse pode levar [ao adolescente a dar] respostas emocionais extremas a um stress diário comum, o que afeta a sua segurança. Pode também afetar o desenvolvimento do córtex pré-frontal, que impacta a capacidade de auto-regulação, planejamento e função executiva.

Crianças e jovens que cresceram em comunidades de alto risco, que enfrentam muitas adversidades como a pobreza, a violência na comunidade e os serviços básicos limitados podem ser considerados como vivendo em condições de estresse crônico. Isso explica em parte por que os resultados de testes padronizados como o PISA em 2012 mostram que os estudantes pobres na América Latina estão dois anos de ensino atrás de seus pares de países de nível socioeconômico mais elevado, em Matemática, leitura e Ciências. Os conhecimentos da Neurociência podem nos ajudar a entender a como desenhar escolas e métodos de ensino para atender às necessidades desses alunos.

3. Atividades em sala de aula podem rapidamente provocar melhorias visíveis no desenvolvimento do cérebro.

Desenvolver atividades relevantes, provendo apoio adequado em contextos escolares positivos, podem resultar rapidamente em melhoras visíveis na estrutura do cérebro. Deve-se dar atenção para capacitar os professores para criar experiências e interações positivas que possam levar a essas melhorias, não só no desenvolvimento neurológico da criança ou jovem, mas também no seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional. Essas intervenções podem melhorar não só a aprendizagem em sala de aula, mas também o comportamento. Por exemplo, os professores podem implementar técnicas para melhorar a função executiva, enquanto outras escolas podem usar a meditação para ajudar a lidar com certos comportamentos.

Segundo o site “Edutopia” (para o qual o site do blog do BID nos direciona) as funções executivas, quando se desenvolvem completamente, levam a um jovem adulto a conseguir fazer o seguinte:

  • Administrar a estabilidade emocional,
  • Controlar impulsos
  • Planejar
  • Responder, de forma produtiva, aos feedback corretivos
  • Aprender com os erros
  • Persistir em situações negativas
  • Refletir cuidadosamente antes de tomar decisões e fazer escolhas

Em relação às funções executivas, o site apresenta as seguintes sugestões para ajudar os alunos a melhorar as funções executivas:

  1. Professor que modela a organização (da sala e a sua própria) e as discussões em sala de aula
  2. Professor fornece instruções claras
  3. Usar alunos para explicar como se faz ou como não se faz uma determinada atividade explicada pelo professor
  4. O professor checa a compreensão dos alunos durante as aulas
  5. Passagem gradual e controlada das responsabilidades (para os alunos
  6. Feedback

Para quem desejar, mais detalhes no original em inglês, mas vale a pena ler o post completo!!

1. Teacher Modeling and Discussion

Model your systems of organization (filing, recording progress, how you set up the classroom, etc.). Draw students’ attention to the organizational strategies that you use during instruction.

2. Clear Instructions

Initially, when providing organizational strategies, emphasize them both verbally and in writing. Give students clear instructions for procedures, projects, or class transitions as you model organizational structure.

3. Student Modeling

Assign selected students to model the procedures that you’ve described, such as the right way and the wrong way to organize their class groups during collaborative work time.

4. Checking for Understanding

Stop between segments of complex or multi-step instructions, allowing students to organize their thoughts and ask questions. Ask students to repeat back their understanding of the instructions so that they can respond to your feedback and reorganize appropriately.

5. Gradual Release of Responsibility

Throughout the year, plan a gradual decrease in the scaffolding that you provide for student organization of time and goals. For example, back away from giving them your timeline schedule for parts of a book report or project, let them plan and write their own timelines, and revise these as you help them monitor their progress.

6. Feedback

Observe student progress and setbacks and provide feedback with opportunities for them to revise their organizational systems.

Série sobre o impacto das mudanças curriculares nos EUA

Nesta segunda feira, no Boletim Missão Aluno da Rádio CBN, a Paula Louzando começou uma série de 4 programas sobre o impacto da implementação do novo currículo americano, conhecido como Common Core, ou Núcleo Comum, que traz para todos os estados da federação americana que aderirem ao documento o detalhamento das disciplinas de Língua Inglesa e de Matemática.

A perspectiva de análise da Paula é bem interessante porque ela não só é uma pesquisadora de alto nível no tema, quanto é mãe de dois alunos estudando na rede pública do Estado da Califórnia. O Estado resolveu aderir ao programa em profundidade* e as escolas estão passando por uma verdadeira revolução.

É sobre isso que ela vai contar neste e nos próximos 3 programas. Aproveite para conhecer melhor a iniciativa e saber porque achamos a BNCC apresentada pelo Governo Federal tão frágil e pobre, quando comparada a documentos de mesma finalidade em países desenvolvidos social e economicamente.

Nesse programa a Paula mencionou também a pesquisa e o livro da Prof. Jo Boler de Stanford sobre ensino da matemática. Este é o link: https://www.youcubed.org/

 

* Segundo o site do Common Core, “a implementação completa é definida no ano letivo em que o Estado da Federação espera que os profesores de educação infantil ao 12º ano incorporem os parâmetros [do currículo] em suas atividades pedagógicas em sala de aula nessas disciplinas”

 

Ponto de partida para discussão do currículo do ensino médio – documentação existente

A definição de uma base curricular nacional, em especial a do ensino médio, será um tema recorrente no próximo ano. Quais são os documentos que embasam a discussão? Qual o ponto de partida?

O currículo da educação básica no Brasil tem 3 fundamentos: legal, técnico e das matrizes de avaliação do ENEM. O fundamento legal é dado pelos seguintes documentos:

Constituição Federal, em seu artigo 210, cumpre com o objetivo de estabelecer um princípio de equidade ao dizer que “Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum” e pela

Lei de Diretrizes e Bases da Educação conhecida como LDB, em sua versão mais atual de 1996, que tem sido alvo de ataques de grupos organizados que vão inserindo penduricalhos à lei, sem levar em conta a hierarquia de prioridades que o tempo escolar escasso enseja. Em seus artigos 26 e 27 estabelece:

Os currículos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio devem ter base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos.   (Redação dada pela Lei nº 12.796, de 2013)

1º Os currículos a que se refere o caput devem abranger, obrigatoriamente, o estudo da língua portuguesa e da matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política, especialmente do Brasil.

3º A educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular obrigatório da educação básica, sendo sua prática facultativa ao aluno:(Redação dada pela Lei nº 10.793, de 1º.12.2003)

4º O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e européia.

5º Na parte diversificada do currículo será incluído, obrigatoriamente, a partir da quinta série, o ensino de pelo menos uma língua estrangeira moderna, cuja escolha ficará a cargo da comunidade escolar, dentro das possibilidades da instituição.

6o A música deverá ser conteúdo obrigatório, mas não exclusivo, do componente curricular de que trata o § 2deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.769, de 2008)

7o Os currículos do ensino fundamental e médio devem incluir os princípios da proteção e defesa civil e a educação ambiental de forma integrada aos conteúdos obrigatórios.    (Incluído pela Lei nº 12.608, de 2012)

8º A exibição de filmes de produção nacional constituirá componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica da escola, sendo a sua exibição obrigatória por, no mínimo, 2 (duas) horas mensais.(Incluído pela Lei nº 13.006, de 2014)

9Conteúdos relativos aos direitos humanos e à prevenção de todas as formas de violência contra a criança e o adolescente serão incluídos, como temas transversais, nos currículos escolares de que trata ocaput deste artigo, tendo como diretriz a Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), observada a produção e distribuição de material didático adequado. (Incluído pela Lei nº 13.010, de 2014)

Art. 26-A.  Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. (Redação dada pela Lei nº 11.645, de 2008).

  • 1o O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.(Redação dada pela Lei nº 11.645, de 2008).
  • 2o Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras.(Redação dada pela Lei nº 11.645, de 2008).

Art. 27. Os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as seguintes diretrizes:

I – a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática;

II – consideração das condições de escolaridade dos alunos em cada estabelecimento;

III – orientação para o trabalho;

IV – promoção do desporto educacional e apoio às práticas desportivas não-formais.

O componente técnico é dado pelo Ministério da Educação e pelo Conselho Nacional da Educação, detalhando na Resolução Nº 2, de 30 de Janeiro 2012, que define Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio e por toda documentação detalhada oficial fornecida quer pelo MEC, em nível federal, quer pelas secretarias de educação de estados e municípios. Os artigos 9º e 10º da Resolução nº 2 resumem os conteúdos obrigatórios:

Art. 9º A legislação nacional determina componentes obrigatórios que devem ser tratados em uma ou mais das áreas de conhecimento para compor o currículo:

Parágrafo único. Em termos operacionais, os componentes curriculares obrigatórios
decorrentes da LDB que integram as áreas de conhecimento são os referentes a:
I – Linguagens:
a) Língua Portuguesa;
b) Língua Materna, para populações indígenas;
c) Língua Estrangeira moderna;
d) Arte, em suas diferentes linguagens: cênicas, plásticas e, obrigatoriamente, a
musical;
e) Educação Física.
II – Matemática.
III – Ciências da Natureza:
a) Biologia;
b) Física;
c) Química.
IV – Ciências Humanas:
a) História;
b) Geografia;
c) Filosofia;
d) Sociologia

Art. 10. Em decorrência de legislação específica, são obrigatórios:
I – Língua Espanhola, de oferta obrigatória pelas unidades escolares, embora facultativa para o estudante (Lei nº 11.161/2005);
II – Com tratamento transversal e integradamente, permeando todo o currículo, no âmbito dos demais componentes curriculares:

  • educação alimentar e nutricional (Lei nº 11.947/2009, que dispõe sobre o atendimento da alimentação escolar e do Programa Dinheiro Direto na Escola aos alunos da Educação
    Básica);
  • processo de envelhecimento, respeito e valorização do idoso, de forma a eliminar o preconceito e a produzir conhecimentos sobre a matéria (Lei nº 10.741/2003, que dispõe sobre
    o Estatuto do Idoso);
  • Educação Ambiental (Lei nº 9.795/99, que dispõe sobre a Política Nacional de Educação Ambiental);
  • Educação para o Trânsito (Lei nº 9.503/97, que institui o Código de Trânsito Brasileiro);
  • Educação em Direitos Humanos (Decreto nº 7.037/2009, que institui o Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH 3).

Dos 3 componentes, o único que tem mais força no sentido que fazer todo o sistema educacional andar na direção de garantir conteúdos mínimos e, em alguma medida, equitativos, são as matrizes curriculares do ENEM. Isso acontece porque cada vez mais alunos saem do ensino médio querendo seguir para o ensino superior e têm que passar pelas provas do ENEM. Assim, se veem obrigados a aprender o conteúdo que cai na prova. As matrizes curriculares do ENEM também não são nada claras, mas aqui e ali se encontram parâmetros de onde se pode selecionar, de forma objetiva, conteúdos a serem ensinados aos alunos das escolas públicas. Nas escolas privadas, principalmente nas de elite, existe uma tradição do ensino de determinados conteúdos, como literatura e geometria, por exemplo. As famílias fazem pressão para que seus filhos se saiam bem nas provas para as universidades, mas também proporcionam atividades culturais e educativas a seus filhos, que complementam o que a escola deixa de ensinar. Vamos a 4 exemplos das habilidades previstas para o ENEM, dois de português e dois de matemática:

H15 – Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.

H23 – Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.

H20 – Interpretar gráfico cartesiano que represente relações entre grandezas.

H27 – Calcular medidas de tendência central ou de dispersão (ou seja, calcular média e desvio padrão) de um conjunto de dados expressos em uma tabela de freqüências de dados agrupados (não em classes) ou em gráficos.

Existe ainda um documento no site do MEC denominado Orientações Curriculares para o Ensino Médio, em três volumes e datado de 2006, que explica o que os alunos devem aprender no ensino médio. É um documento confuso, cheio de cacos ideológicos, que também não ajuda a um professor, coordenador pedagógico ou diretor de escola pública a selecionar conteúdos para seus alunos. Recomendo fortemente a leitura dos documentos completos, cujos links estão abaixo:

2006 – Orientações Curriculares para o Ensino Médio – preparadas pelo MEC

Volume 1 – Linguagem, Artes, Ed. Física:

http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/book_volume_01_internet.pdf

Volume 2  – Ciências da Natureza e Matemática:

http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/book_volume_02_internet.pdf

Volume 3: Ciências Humanas e suas Tecnologias

http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/book_volume_03_internet.pdf

2010: Diretrizes Curriculares para a Ed. Básica e EF de 9 anos

http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=14906&Itemid=866

2012: RESOLUÇÃO CNE/CEB Nº 2, DE 30 DE JANEIRO 2012 Define Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio

http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=17417&Itemid=866