Arquivos Mensais: dezembro \17\UTC 2018

Uma Base Nacional para formação docente que parece ser boa notícia!

No dia 13 de dezembro último, o Ministério da Educação informou que havia produzido a versão zero de um documento que deverá ser a nova referência conceitual para a formação docente em todo o Brasil: a Base Nacional Comum da Formação de Professores da Educação Básica. Este ppt aqui traz as informações básicas sobre o que o MEC está propondo.

O conteúdo dessa apresentação e as informações foram divulgadas pela Secretária de Educação Básica, Katia Smole e apontam para uma interessante e (aparentemente) positiva guinada na concepção dos cursos de Pedagogia no Brasil. Segundo o que foi informado, as etapas de elaboração do novo plano de formação docente partiriam de uma bibliografia internacional atualizada, algo óbvio, mas abandonado nas últimas décadas e que está mais do que na hora de ser revisto.

Pelo conteúdo já divulgado, parece que algumas referências mundiais ignoradas pelas escolas de formação docente serão finalmente colocadas em seus devidos lugares. Uma delas é o texto de Lee Shulman, “Knowledge and Teaching Foundations of the New Reform”, publicado na Harvard Educational Review, v. 57,n. 1, p. 1-22, em1987.

Com 30 anos de atraso em relação à publicação do texto do Prof. Lee Shulman (traduzido em 2014, por iniciativa da Profa. Paula Louzano e publicado pelo Cenpec), que representou um importante ponto de inflexão e reflexão a respeito do que os professores deveriam saber para poder ensinar com competência e profundidade a qualquer tipo de aluno. Esse texto foi e continua sendo uma importante referência técnica para formadores de docentes em países desenvolvidos. Finalmente nosso Ministério da Educação resolveu sair da caverna ideológica em que se meteu desde há muitos anos. 

Esse “esconderijo” ideológico intencionalmente escolhido por quem não quer se dar ao trabalho de ensinar alunos, em particular os mais pobres e vulneráveis, os quais dão muito mais trabalho, misturou-se ao populismo sindical que o os sucessivos dirigentes do MEC escolheram como linha de atuação. Nosso Ministério fartou-se de produzir políticas que gastam cada vez mais e não produzem nenhum avanço paupável. Entre outras publicações propositalmente banidas do cenário brasileiro pela falta de tradução e divulgação, estavam o já citado Lee Shulman e a várias vezes mencionada por mim, a Taxonomia de Bloom e suas revisões.

O que disse o Prof. Lee Shulmann em 1987 a respeito do tipo de conhecimento que os professores devem dominar, para que possam ensinar bem todos os tipos de alunos? Lógica que agora, aparentemente e, finalmente, o MEC resolve adotar para fazer a normativa de formação docente.

Categorias da base de conhecimento

Se o conhecimento do professor fosse organizado num manual, numa enciclopédia ou em algum outro formato de aglomeração de conhecimento, como seriam os títulos das categorias? No mínimo, deveriam incluir:

• conhecimento do conteúdo;

• conhecimento pedagógico geral, com especial referência aos princípios e estratégias mais abrangentes de gerenciamento e organização de sala de aula, que parecem transcender a matéria;

• conhecimento do currículo, particularmente dos materiais e programas que servem como “ferramentas do ofício” para os professores;

• conhecimento pedagógico do conteúdo, esse amálgama especial de conteúdo e pedagogia que é o terreno exclusivo dos professores, seu meio especial de compreensão profissional;

• conhecimento dos alunos e de suas características;

• conhecimento de contextos educacionais, desde o funcionamento dogrupo ou da sala de aula, passando pela gestão e financiamento dossistemas educacionais, até as características das comunidades e suasculturas; e

• conhecimento dos fins, propósitos e valores da educação e de sua base histórica e filosófica.

Esse texto é fundamental para qualquer pessoa, professor ou leigo, que queira compreender o que é realmente uma sala de aula competente, a partir da descrição que o artigo traz da atuação em sala de aula de uma professora de Língua Inglesa. Historicamente, a produção desse artigo é ainda um desdobramento da reação de acadêmicos e governos às conclusões pessimistas do Relatório Coleman. Essa reação levou ao nascimento do “movimento” das produções acadêmicas sobre escolas eficazes e eficácia escolar. Algo que estava sendo introduzido no Brasil ao final dos anos 1990 pelo Governo Fernando Henrique e Ministro Paulo Renato Souza e que foi não apenas abandonado, mas apelidado de (ohhhhh!) neoliberal pelos ativistas-sindicalistas que atuam na “academia” educacional, minando de vez qualquer possibilidade política de ser levado a sério pelos formuladores de política educacional no Brasil. Uma vergonha horrorosa que custou o apredizado de milhões de alunos!

Agora que terminei a minha tese, resolvi dar andamento a várias coisas que tive suspender pela dedicação à sua produção e à produção do currículo de Sobral. Uma delas é desenhar, junto com uma amiga super experiente no assunto, Márcia Sebastinani, que foi Pró-Reitora Acadêmica da Universidade Positivo, um curso “ideal” de Pedagogia, utilizando a bibliografia mais atualizada. Ficamos muito felizes com a coincidência de timing, por que nosso plano já era, à medida que nossa produção fosse ganhando forma, irmos publicando o que for feito, para que nossa contribuição possa ficar à disposição de quem desejar, inclusive do MEC…aguardem!

BNCC do ensino médio:

Temos uma reforma e um currículo para o Ensino Médio.  A reforma trouxe alguns avanços importantes para a etapa, como:

  • o aumento de 75% da carga horária para a etapa – de 2400 horas (8oo horas anuais x 3 anos) para 4200 horas (1400 horas anuais x 3 anos);
  • a obrigatoriedade de ensinar apenas duas disciplinas: Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Matemática, flexibilizando o ensino das demais;
  • abrir espaço para o ensino profissionalizante ou propedêudico, inclusive por meio de sistema de créditos obtidos no ensino superior, de acordo com o interesse dos alunos e das condições econômicas de cada região;

(além de outros para a educação básica como um todo – por exemplo, a obrigatoriedade do ensino da Língua Inglesa na segunda etapa do ensino fundamental e limites para alterações no currículo normatizado).

Entretanto, o currículo ficou devendo… Para o plano dar certo, era necessário um documento muito bem especificado, pelo menos para as disciplinas básicas: Língua Portuguesa e Inglesa, Matemática e Ciências – as STEMs, disciplinas consideradas como as mais importantes para o mundo atual e geralmente neglicenciadas pelos sistemas de ensino, em geral por causa da falta de bons professores de Ciências e de Matemática e de infraestrutura de ensino. Absolutamente não, como se quer fazer crer, pelo desinteresse dos alunos!

Exemplos de documentos bem elaborados não faltam, Portugal, Ontário, Hong Kong, Reino Unido… nesses observa-se estrutura lógica, obviamente, por disciplinas, com desdobramento de competências e habilidades suficientes para se perceber o que deve ser aprendido pelos alunos, em uma linguagem lógica e clara, sem licenças “poéticas” para palavras de ordem pseudo politicamente corretas. E, claro, com muita ambição, porque governo sério não é doido de fazer tábula rasa da cabeça de sua força de trabalho e de seus constituintes em uma democracia. Governo sério. Não é o nosso caso.

Partimos para inventar uma grande jabuticaba, que mistura áreas de conhecimento, ao invés de tratar o currículo como todo mundo faz: por disciplina e com especificação do que deve ser aprendido e avaliado, com progressão clara. Ao invés, fizemos uma sopa rala e esquisita que, para mim, tem como característica esconder duas facetas do nosso cenário educacional:

  1. a ignorância e a preguiça de quem formulou ou currículo, tanto no desenho da estrutura, quando no desdobramento das competências e habilidades a serem aprendidas pelos alunos. Basta consultar os documentos curriculares de países desenvolvidos para ver que trata-se de um texto com estrutura própria, cuja produção exige muita dedicação ao detalhe e conhecimento profundo das DISCIPLINAS (!!!!), para que elas possam ser desdobradas de maneira lógica de forma a, posteriormente, facilitar o planejamento pedagógico pelos professores e equipes técnicas, além de criar uma base sólida e transparente sobre a qual se monta um sistema de avaliações de alunos e de todos os demais componentes (professores, materiais didáticos, estrutura de ensino e bibliotecas, por exemplo).
  2. exatamente por permitir que os alunos aprendam mais, a partir de um sistema lógico de ensino/monitoramento, não fazer um documento competente deixa espaço para que os interesses obscuros floresçam como cogumelos, como sempre floresceram, criando o ambiente tóxico que gera a atual situação insustentável de desempenho educacional vergonhoso. Editoras, escolas de formação docente, vendedores de soluções perebas e caras, secretários de educação charlatanísticos e ongs que gravitam em torno do MEC para alardear um suposto domínio das políticas públicas, respiram aliviados quando o MEC, com a sua ajuda (!!!) produz um documento incompetente.

Está claro que NÃO HÁ INTERESSE em fazer com que os alunos aprendam mais. As elites ainda se viram como podem e mandam seus filhos para escolas com currículos estrangeiros e mil atividades complementares para se manterem diferenciadas da turba ignara que exploram sem dó. Mas o País paga e continuará pagando um custo humano e estratégico incalculável para manter o povo na mais absoluta ignorância de conteúdos e na brutal incapacidade intelectual para processar informações e perceber lógicas dentro das diferentes linguagens. Isso não ocorre por acaso e minha única contribuição aqui pode ser: REVOGEM ESSE LIXO!  Façam um convênio com HK, Ontário, que contam com documentos currículares super bem feitos e simplesmente traduzam-nos para o Português. Chega de enrolação!

Vamos aos exemplos para que se compreenda que não há reforma possível, tem que por abaixo e trocar por outro.

Aqui estão os links:

http://www.edu.gov.on.ca/eng/curriculum/secondary/math.html

https://www.edb.gov.hk/attachment/en/curriculum-development/renewal/ME/ME_KLACG_Supp_S4-6_Eng_2017.pdf

Aqui os exemplos – um de cada disciplina. Lingua Portuguesa comparado com o de Língua Inglesa em Ontário.

Grade 11 – OVERALL EXPECTATIONS – By the end of this course, students will:

1. Reading for Meaning: read and demonstrate an understanding of a variety of literary, informational, and graphic texts, using a range of strategies to construct meaning;

2. Understanding Form and Style: recognize a variety of text forms, text features, and stylistic elementsand demonstrate understanding of how they help communicate meaning;

3. Reading With Fluency: use knowledge of words and cueing systems to read fluently;

4. Reflecting on Skills and Strategies: reflect on and identify their strengths as readers, areas forimprovement, and the strategies they found most helpful before, during, and after reading.

Agora um exemplo de como essas competências gerais de leitura podem ser desdobradas em algo que é possível visualizar em sala de aula

Demonstrating Understanding of Content

1.3 identify the most important ideas and supporting details in texts, including increasingly complex or difficult texts (e.g., create a mindmap to illustrate character relationships in a novel; explain how the graphics in the text enhance the reader’s understanding of an article; create a concept map to represent the key ideas and supporting details in a persuasive essay Teacher prompt: “What details from the poem would you use to support your interpretation?”

Agora, como nós, os brazucas sabichões, escrevemos uma competência (leitora???) – aquele abraçamento geral de árvore que deixa todo mundo feliz porque sabe que no meio do caos vale qualquer coisa, qualquer aula:

5.1.1.LINGUAGENS E SUAS TECNOLOGIAS NO ENSINOMÉDIO: COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS E HABILIDADES 

COMPETÊNCIA ESPECÍFICA

Compreender o funcionamento das diferentes linguagens e práticas culturais (artísticas, corporais e verbais) e mobilizar esses conhecimentos na recepção e produção de discursos nos diferentescampos de atuação social e nas diversas mídias, para ampliar as formas de participação social, o entendimento e as possibilidades de explicação e interpretação crítica da realidade e para continuar aprendendo.

Não dá para misturar em uma competência curricular diferentes liguagens, pois cada uma conta com lógica distinta: não se aprende Língua Portuguesa da mesma forma que artes e música, por exemplo. Trata-se de linguagens diferentes, assim como  a Matemática.

Agora seguem as habilidades relacionadas a essa competência:

(EM13LGG101) Compreender e analisar processos de produção e circulação de discursos, nas diferenteslinguagens, para fazer escolhas fundamentadas em função de interesses pessoais e coletivos.

(EM13LGG102) Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nosdiscursos veiculados nas diferentes mídias, ampliando suas possibilidades de explicação, interpretação eintervenção crítica da/na realidade.

(EM13LGG103) Analisar o funcionamento das linguagens, para interpretar e produzir criticamentediscursos em textos de diversas semioses (visuais, verbais, sonoras, gestuais).

(EM13LGG104) Utilizar as diferentes linguagens, levando em conta seus funcionamentos, para acompreensão e produção de textos e discursos em diversos campos de atuação social.

(EM13LGG105) Analisar e experimentar diversos processos de remidiação de produçõesmultissemióticas, multimídia e transmídia, desenvolvendo diferentes modos de participação e intervenção social.

E na Matemática – estatística – vejam como uma habilidade bem básica está descrita no currículo de Ontário

1. solve problems involving one-variable data by collecting, organizing, analysing, and evaluating data;

2. determine and represent probability, and identify and interpret its applications.

By the end of this course, students will:

1.1 identify situations involving one-variable data (i.e., data about the frequency of a given occurrence), and design questionnaires (e.g.,for a store to determine which CDs to stock, for a radio station to choose which music to play) or experiments (e.g., counting, taking measurements) for gathering one-variable data, giving consideration to ethics, privacy, the need for honest responses, and possible sources of bias

Sample problem: One lane of a three-lane highway is being restricted to vehicles with at least two passengers to reduce traffic congestion. Design an experiment to collect one-variable data to decide whether traffic congestion is actually reduced.

E as habilidades equivalentes que encontrei na BNCC do EM:

(EM13MAT102) Analisar tabelas, gráficos e amostras de pesquisas estatísticas apresentadas emrelatórios divulgados por diferentes meios de comunicação, identificando, quando for o caso,inadequações que possam induzir a erros de interpretação, como escalas e amostras não apropriadas.

(EM13MAT202) Planejar e executar pesquisa amostral sobre questões relevantes, usando dadoscoletados diretamente ou em diferentes fontes, e comunicar os resultados por meio de relatóriocontendo gráficos e interpretação das medidas de tendência central e das medidas de dispersão(amplitude e desvio padrão), utilizando ou não recursos tecnológicos.