Arquivos Mensais: maio \15\UTC 2017

Aprendizado automatizado para facilitar a compreensão e habilidades cognitivas de alta ordem

Quem acompanha este Blog e o Boletim Missão Aluno na CBN sabe que eu critico muito como os educadores brasileiros, de uma maneira geral, lógico (há exceções),  porque eles acham que ensino para ser legal tem que ser solto, espontâneo. A questão é que essa abordagem “solta” tem amplo apoio das famílias e da imprensa. Ela é associada a adjetivos considerados positivos como ludicidade, espontaneidade, diversão na escola, modernidade.

Eu não acho, pelo contrário, discordo abertamente: acho que a atividade de ensino é técnica, para a qual é necessário preparo em ambiente universitário porque a evolução de sua prática depende da pesquisa científica séria e que o aprendizado só ocorre quando é conduzido por meio de atividades pedagógicas intencionalmente planejadas (ordem, progressão), desenhadas (o que o aluno faz e para que) e monitoradas (será que o aluno aprendeu o que eu queria ensinar?)

Eu estudo políticas educacionais, não métodos de ensino, mas de alguma forma, óbvio, esses assuntos estão relacionados. Há políticas que estimulam e facilitam métodos de ensino que funcionam, que já foram estudados, comprovados e melhorados em centros de estudo fora do Brasil (infelizmente nós aqui não acompanhamos essas pesquisas…o interesse está mais na Sociologia “combativa e denunciadora” da educação que na didática), e há políticas que estimulam o que (fora do Brasil já se sabe) não funciona. Normalmente essas políticas no Brasil são as mais populares entre as famílias (e eleitores, sem que sejam eficazes – o que faz delas, populistas)

Nos últimos dias, apenas por coincidência, tive conversas pessoais sobre educação, com amigos e pessoas da família, ou seja, a análise racional das políticas que faço profissionalmente se conectou com o meu emocional, pois estávamos falando sobre exemplos de abordagem pedagógica que funcionam para fazer os alunos aprenderem. Essa conexão é fundamental para manter o alinhamento moral entre o meu objeto de estudo e recomendações e meus interesses pessoais. O que desejo para pessoas com quem tenho conexões emocionais também desejo para as pessoas que não conheço, atendidas no setor público da educação. Infelizmente, a maior parte delas em contextos educacionais muito desfavoráveis em relação aos que estão as pessoas da minha família e relações sociais. Nesses contextos, o cuidado com a estruturação deve ser redobrado.

Mas as mudanças de políticas públicas nessa direção (da estruturação e planejamento) não são populares. Ao contrário.

Vou dar três exemplos de 3 pecados pedagógicos mortais que abundam no contexto brasileiro, pois há amplo respaldo das famílias em deixar correr solto – dá menos trabalho acompanhar a automação de alguns aprendizados. Então é melhor combinarmos que são formas antiguadas e superadas de fazer os alunos aprenderem. A pesquisa educacional e da psicologia cognitiva mostra justamente o contrário.

  1. DECODIFICAÇÃO – A palavra decodificar, ou seja, ler letra a letra, sílaba a sílaba, por partes, para depois conseguir ler uma palavra completa foi banida do ambiente educacional brasileiro. O que foi apenas um equívoco, uma moda passageira, rapidamente refutada pelas pesquisas – ler as palavras inteiras antes de aprender as letras e fonemas – aqui virou lei. Conhecer os fonemas, fazer a correspondência entre fonemas e grafemas (letras ou grupo delas) para depois passar a ler as palavras foi invertido.

Assim, não se alcança a fluência leitora, outro palavrão por aqui. A fluência não é perseguida pelos educadores, sua progressão não é medida e os alunos saem do sistema educacional sem entender o que leem porque não dominam essa fluência leitora. FLUÊNCIA É EXATAMENTE O QUE PERMITE A COMPREENSÃO DO TEXTO LIDO.

2. TABUADA – Aprender a tabuada de cor, para poder fazer conta de cabeça, é outro bicho Papão. A filha de uma amiga, que dá aula particular de recuperação para alunos das melhores escolas de São Paulo, me disse: os alunos vão mal em Matemática porque não sabem fazer as 4 operações de cor! O que ela diz é respaldado pelas pesquisas de como os alunos aprendem. Uma reportagem no jornal inglês The Guardian sobre o assunto traz várias sugestões sobre como motivar as crianças a decorar as tabuadas. Uma delas é o velho bic-bic para adivinhar o futuro das crianças transformado em advinhas de tabuada.

3. DECOREBAS EM GERAL – Decorar alguns conteúdos como poemas, trechos de obras, listas de verbos e dicas para reconhecer os “por + ques” também é super mal visto por educadores ditos modernos. Dou o exemplo da conjugação de verbos irregulares. É muito comum se conjugar errado o Subjuntivo, mesmo no presente, dos verbos irregulares. Por exemplo, por, medir, fazer.

que eu ponha, meça, faça etc.

Para este fim, decorar lista e a conjugação de verbos irregulares, dou uma mãozinha indicando o link:  https://www.conjugacao.com.br/verbos-irregulares-no-portugues/

O que pode dar errado com a BNCC se seguirmos os passos do estado de Nova Iorque nos EUA

Reportagem de Fábio Takahashi na Folha de São Paulo (Caderno Ilustríssima) de domingo, 7 de maio, faz um paralelo especulativo entre a implementação de um currículo único nos Estados Unidos a partir de 2010 e o que pode acontecer no Brasil a partir de 2019 com a obrigatoriedade de se adotar a BNCC nas escolas brasileiras.

O jornalista, que há anos cobre o setor de educação para o Jornal e está passando um período acadêmico na Universidade de Columbia, na cidade de Nova Iorque, estado de Nova Iorque, argumenta que os Estados Unidos, por ser um país federativo e com tamanho de população comparável ao brasileiro, seria uma base de comparação melhor que outros como Austrália, Cingapura e Portugal para se cogitar como seria no Brasil a implementação de uma base curricular única em nível nacional. Concordo em parte. Acho que estudar o desenho da implementação e os contextos de início do processo ajudam muito.

Ele está correto em trazer este argumento e em apontar em seu relato, que deve servir de alerta aos brasileiros, a identificação de setores ou aspectos cruciais para que a implementação dê ou não certo. Entretanto, eu acredito que o cenário doméstico é um pouco diferente e talvez tenhamos melhor sorte no processo de implementação. Não necessariamente nos resultados. Explico:

Takahashi aponta como questões principais para a análise de prognóstico, partindo do que está dificultando a implementação do currículo nacional nos EUA (principalmente em Nova Iorque, onde ele está): a formação de professores, o mercado editorial e as disputas políticas. É óbvio, como comentei inúmeras vezes no blog e no Missão Aluno da CBN que subir a barra dos parâmetros de aprendizado de alunos em um determinado território depende de um currículo que proponha metas mais ambiciosas – sem as metas ambiciosas explicitadas em uma normativa não se sai do lugar. Mas a a existência de um documento que apenas aponte para a direção certa, sem que haja profunda alteração na formação docente e na produção de materiais, para além de novos parâmetros de avaliação, não vai ajudar ninguém a aprender mais sozinho. O sistema precisa ser reprogramado em torno das metas mais ambiciosas. É isso que se espera que se faça no Brasil. É isso que está sendo feito em alguns estados americanos como a Califórnia, mas que não foi feito no Estado de Nova Iorque, que optou por ficar só com a primeira parte da equação.

Vamos então ao que pode sair diferente no Brasil, apenas se e somente se, houver uma conjunção de disposição política com competência técnica. O Governo Federal tem por atribuição constitucional para a educação básica apoiar material e tecnicamente os estados e municípios na elaboração de implementação de políticas educacionais eficientes, eficazes e de qualidade. Deveria fazer isso por meio do MEC, do INEP e do FNDE, mas tem tido uma atuação bem leniente, pelo menos durante os governos do PT, dada sua forte base sindicalista. Vamos lembrar do PNAIC – um montão de recursos mobilizados para alfabetizar alunos apenas aos 8 anos com parâmetros absolutamente desorganizados e ultrapassados. Ou seja, ainda não vimos de maneira clara os órgãos de nível federal realmente usarem sua capacidade de indução para fazer o Brasil dar os saltos qualidade que já poderia ter dado, pois escolheu jogar para a (sua) galera.

O MEC, agora sob nova gestão, pode lançar mão de mecanismos que estão sob a sua responsabilidade para induzir a qualidade. Esses mecanismos centralizados não estão disponíveis nos EUA e é por isso que declarei no terceiro parágrafo acima que não estamos necessariamente fadados a seguir os passos das experiências negativas de alguns estados dos EUA. O PNLD, as diretrizes nacionais de formação em Pedagogia e nas Licenciaturas, o Enade desses cursos, o concurso nacional de certificação docente (engavetado pelo ancien régime), as Provas Nacionais como ANA e Prova Brasil, além do Enem são exemplos de programa nacionais de caráter indutor de qualidade, mas subutilizados até aqui. A questão é que, como nos EUA, no Brasil há muita gente poderosa contra uma subida de barra substancial, poque ela custa caro, tira poder de subgrupos poderosos e dá muito mais trabalho para escolas e famílias.

Dou o exemplo de Portugal: o conjunto de políticas de indução de qualidade estava indo muito bem até o sindicato docente subir ao poder e começar a desmanchar tudo…

Assim, termino meu argumento de que apesar de não temos a sina traçada para copiar os EUA, o que vamos mesmo continuar a fazer é manter a malemolência brasileira, na qual grassam o populismo e a mediocridade de sempre e deixar a maioria das escolas do Brasil chafurdando no consenso e no tapinha nas costas. E que, como já ocorre, alguns exemplos vão ter imenso destaque. Esses exemplos serão os suspeitos de sempre: Sobral e Ceará, para começar. O que embasa essa hipótese está no começo do parágrafo anterior: é necessário haver a combinação de disposição política com competência técnica. Nenhuma das duas sobra por aqui.

A competência técnica garante que as metas curriculares serão detalhadas e transformadas em sequências pedagógicas, material de ensino em qualidade e disponibilidade compatível com elas, sistemas de avaliação condizente e na reformulação da formação dos professores.

Porque disposição política? Porque é preciso disposição política para dar espaço para a competência técnica e para fazer frente aos seguintes interesses:

As grandes editoras, que vão fazer corpo mole para investir na completa reformulação de suas coleções “cash cow” – produtos de baixa qualidade que vendem muito sem muito esforço ou inovação porque ornam com a mediocridade reinante nas escolas brasileiras.

Os sindicatos docentes, que vão fazer de tudo para barrar a especificação de metas mais ambiciosas para os profissionais. O foco da negociação tenderia a mudar, como aconteceu no Canadá.

Porque os acadêmicos que durante décadas se opuseram ao currículo vão resistir ao máximo para atualizar suas referências teóricas e desdizer suas teorias e referências anacrônicas para montar cursos de formação docente realmente atualizados, em linha com os de países desenvolvidos.

Sobral e Ceará deram as costas para essas forças e hoje alfabetizam a quase totalidade de seus alunos bem no início da escolarização. Sobral, para fugir do risco apontado por Fabio Takahashi com o exemplo do Estado de NY, nos EUA, que se embananou com as provas padronizadas, vai adotar como padrão a prova do Pisa. Pode ser que alguns municípios resolvam seguir esse exemplo, mas vão ter que enfrentar seus fantasmas sozinhos. Porque afirmo isso? Porque o MEC fez uma BNCC tímida, morna. Rompeu, sem dúvida nenhuma, com que tinha sido feito antes e foi na direção certa, mas o documento não é tão poderoso quanto o de Sobral, que foi fundo na especificação de metas muito ambiciosas. Mesmo sob nova gestão, faltou ou força política ou competência técnica ao MEC. Será que isso será revelado na implementação?

Na minha experiência posso testemunhar o seguinte: estamos fazendo a implementação do currículo de Sobral em três contextos diferentes. Em dois deles, Sobral no Ceará e Benevides, no Pará, estou observando de perto como essa combinação de vontade política e competência técnica são poderosos para realmente dar um salto de qualidade. Sobral produziu o documento curricular que realmente aproxima metas de aprendizagem das de países desenvolvidos. É um documento bem diferente do que o MEC apresentou. Benevides pegou o documento e produziu EM UM MÊS um conjunto de sequências pedagógicas completamente diferente do que vinha fazendo e já conseguiu fazer seus alunos aprenderem muito, apenas em um bimestre de aulas!!

Quem está financiando a implementação é o Instituto Natura. É a única ONG de grande porte no Brasil que permite que os projetos educacionais sejam desenhados pelos técnicos das secretarias de educação que apoia, sem impor suas próprias soluções. Esse seria o terceiro elemento do sucesso: coragem política de impor metas mais altas, deixar uma equipe tecnicamente motivada e competente fazer seu trabalho, com base em referências de qualidade e um pouquinho de recursos para movimentar o sistema…

Terceiro relatório do Pisa 2015 mostra a atitude dos alunos frente sua educação

Dia 19 de abril último a OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que criou e aplica o Pisa – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, divulgou o volume III do Relatório do Pisa 2015. Os dois primeiros saíram em dezembro de 2016 e tratavam do desempenho dos alunos nas áreas cobertas pelo teste: compreensão leitora, Matemática e Ciências, esta o foco do exame de 2015. Este volume mais recente organiza os dados obtidos nos questionários pessoais respondidos pelos estudantes e por seus pais e apresenta muitas informações interessantes.

Os questionários detalhados para os pais só foram aplicados em 18 países e não incluem o Brasil, mas há muito o que aprender com eles aqui também.

Neste feriado de 1º de maio gostaria de chamar atenção para dois aspectos da vida e da forma de pensar e agir dos estudantes relacionados à sua vida familiar, pois é em casa ou em família que a maioria dos estudantes brasileiros provavelmente vai passar o dia hoje:

Os pais responderema a vários conjuntos e perguntas, cuja tabulação mostra, por exemplo, a porcentagem de pais que relataram se envolver “todos os dias ou quase todos os dias” com seus filhos nas seguintes atividades :

  1. Discutir o quão bem seu filho está indo na escola
  2. Passar algum tempo apenas conversando com meu filho
  3. Comer <a refeição principal> com o meu filho ao redor de uma mesa

Os estudantes cujos pais reportaram fazer esses tipos de atividade com frequência estatisticamente maior apresentam notas mais altas no teste de Ciência do Pisa. O relatório especula qual seria a relação causal entre as duas coisas e a explicação seria que em famílias nas quais essas atividades são mais frequentes deve haver um ambiente mais propício aos pais mostrarem explicitamente seu apoio ao desenvolvimento escolar de seus filhos e também a criar um ambiente doméstico organizado e tranquilo para seus filhos estudarem. Não é difícil imaginar essa conexão: se uma família não consegue nem se organizar para fazer as refeições ao mesmo tempo, os alunos não devem ter muita assistência em atividades como seus estudos. A questão é que essa disponibilidade está bastante relacionada ao nível socioeconômico das famílias, o que não é difícil também de imaginar. Só que o nível socioeconômico não é um determinante da relação pais e estudantes e o relatório mostra isso – em alguma medida depende de um esforço da família.

O relatório mostra também que os estudantes com maior interação com suas famílias estão 3,4 menos propensos a se mostrar insatisfeitos com a sua vida em geral.

Um outro conjunto de perguntas para os pais levantou a interação desses com as escolas de seus filhos ao apresentar a o percentual de pais que relataram ter participado das seguintes atividades na escola de seus filhos no ano letivo anterior (ao do Pisa):

  1. Trocar ideias sobre o papel dos pais, apoio familiar ou o desenvolvimento da criança com o professor do meu filho
  2. Discutir o progresso do meu filho com um professor por iniciativa própria
  3. Falar sobre como apoiar a aprendizagem em casa e os trabalhos de casa com os professores do meu filho
  4. Discutir o comportamento do meu filho com um professor por minha própria iniciativa
  5. Participar de uma reunião programada ou de palestras para pais

Um gráfico particularmente interessante, na pg. 164 do relatório, mostra que os alunos que mais se beneficiam do interesse dos pais na sua vida escolar são os que teriam a pior performance, por estar em uma escola ruim, por exemplo. O relatório divide a performance dos alunos em 4 níveis de proficiência e os que tem mais pontos no teste de Ciências (cerca de 30 pontos) associados pela relação estatística do interesse dos pais em sua vida escolar são os 25% de desempenho mais baixo (último quartil).

Os pais reportam ainda que a principal razão para NÃO participarem da vida escolar de seus filhos é a dificuldade de ir até a escola, seja porque o horário das convocações escolares é incompatível com o seu horário de trabalho, por questões de transporte ou de não ter com quem deixar os outros filhos.

A lição do dia para as famílias é PASSEM MAIS TEMPO COM SEUS FILHOS e para os Governos é AJUDEM AS ESCOLAS E OS PAIS A ESTAREM JUNTOS MAIS FREQUENTEMENTE. Todos podem sair ganhando!