Arquivos Mensais: novembro \14\UTC 2016

Inovação (de verdade) em sala de aula

Faço referência ao artigo de Cláudio de Moura Castro na Veja desta semana, edição 2504. Infelizmente, a Veja não oferece o link aberto para esta coluna. Pelo menos, não ainda. Mas consegui o link para o experimento ao qual ele se refere na revista, que é o que gostaria de comentar em mais detalhe hoje aqui e na CBN.

O articulista, que além da larga experiência profissional com política educacional, é um estudioso muito rigoroso do assunto educação e também consultor estratégico do Grupo Positivo de Educação, o qual resolveu encarar a aclimatação de uma ótima ideia gringa: o projeto MET – Measures of Effective Teaching da Bill and Melinda Gates Foundation.

Antes de explicar do que se trata, é importante chamar atenção para o que eu (e algumas poucas pessoas com coragem para questionar “unanimidades”) chamo de fashion week das políticas educacionais – empresários e empreendedores filantrópicos e/ou comerciais que trazem para o Brasil as últimas novidades que o mercado americano (normalmente, mas não só) criou para a educação.

Exemplos: Charter Schools, ou “escolas independentes” que estão fora das regulamentações governamentais e, principalmente, selecionam professores não sindicalizados,  Teach for América ou programas ultra simplificados de formação docente para baratear o custoso processo de formação profissional, Khan Academy e outros programas de aulas ruins à distância para economizar na contratação de bons professores.

Há outros, mas esses são alguns dos “must have” dos descolados brasileiros que, como o “Homem que Falava Javanês” de Lima Barreto, se apresentam como bem informados sobre os segredos do sucesso da educação moderna “lá de fora”. A questão é que esses “must have” têm uma característica em comum: são apenas para os filhos dos outros. Dos pobres, em geral. Os fashionistas da educação brasileiros, ao contrário do que propõem para as redes públicas brasileiras, usam para os seus filhos e netos produtos tradicionais como escolas de verdade, professores bem formados e certificados fora do Brasil, em escolas estrangeiras e caras. A transposição indiscriminada desses modismos produzem inúmeras “vítimas da moda”, exatamente como no mercado de moda no qual alguns poucos se beneficiam de fazer gente simples e ignorante vestir o que não lhe cai bem.

Feita a digressão introdutória de porque eu resolvi falar desta “novidade” hoje, sigamos para ela – justamente porque não a considero uma tendência de moda passageira e baratinha, cópia tipo H&M de desfile de alta-costura, mas, ao contrário, uma iniciativa de sistematizar o que JÁ OCORRE em boas escolas, com professores de carne e osso interagindo com alunos. Aqueles professores que, no Brasil, só as pessoas muito afortunadas conseguem para seus filhos.

O legal é que o Grupo Positivo resolveu testá-la no Brasil, de forma responsável e metodológica, emitindo um relatório com seus primeiros achados. Cláudio de Moura Castro e a Reitora da Universidade Positivo, Márcia Sebastiani, são os autores do estudo que trouxe para o Brasil, sob o nome de Programa Descoberta, o original da Fundação Gates. Só para esclarecer, o Grupo Positivo é um conglomerado educacional formado por vários negócios, incluindo escolas, que participaram diretamente do projeto – além de escolas públicas da Rede Municipal de Ensino de Curitiba, onde está localizada a sede da empresa:

O Programa Descoberta é um serviço oferecido aos colégios e que tem como objetivo contribuir para o desenvolvimento profissional dos professores. Seu ponto de partida é a realização de uma pesquisa voltada à elaboração de diagnósticos do desempenho dos professores, analisando o que tem impacto no aprendizado e o que não tem. De posse destes resultados o programa passa para sua etapa de melhorar a atuação dos professores. Isto se faz por meio de feedbacks personalizados e que levam à oferta de capacitações, de acordo com as vulnerabilidades que a pesquisa identifica em cada professor.

A primeira parte dele, cujos resultados preliminares o paper divulgado no artigo apresenta, consiste da observação estruturada de aulas (ou seja, com protocolos conhecidos pelo observador e pelo observado), somada a uma pesquisa com os alunos dessas aulas sobre que aspectos delas mais os ajudam a aprender. Tem cara de Ovo de Colombo, não?

E o que essa ideia de aparência simples, mas de execução extremamente complexa, procura identificar na prática dos professores?

OS SETE Cs:

Os “7Cs” referem-se aos seguintes aspectos (do original em inglês): care, control, challenge, clarify, confer, captivate e consolidate. Abaixo, explicita-se o sentido de cada um deles:

CUIDAR (care) – professores que cuidam, desenvolvem relações de apoio aos alunos e se esforçam para cultivar um ambiente emocionalmente seguro onde todos se sentem respeitados e a aprendizagem é o foco central.

CONTROLAR (control) – professores que controlam suas salas de aula monitoram o comportamento dos alunos cuidadosamente, gerenciando e redirecionando aqueles que não estão envolvidos com as atividades. Promovem também as condições de sala de aula necessárias a uma aprendizagem ótima. Eles estabelecem rotinas eficazes e antecipam eventos que possam prejudicar o ensino.

DESAFIAR (challenge) – professores que desafiam, estão preocupados com rigor e persistência. Eles sempre impõem aos alunos altos padrões acadêmicos e comportamentais, bem como monitoram o seu esforço. Eles esperam e exigem que os alunos perseverem, mesmo quando o trabalho é difícil, mas oferecendo apoio quando necessário.

ESCLARECER (clarify) – professores que esclarecem, verificam com frequência a compreensão dos alunos, corrigem equívocos, explicam ideias e conceitos de diferentes maneiras, e fornecem feedback para que os alunos entendam como melhorar seu trabalho.

ENGAJAR (confer) – professores que engajam, buscam e valorizam os pontos de vista dos alunos. Eles oferecem oportunidades frequentes para os alunos compartilharem suas perspectivas, bem como as valorizam e as põem em prática na sala de aula. 

CATIVAR (captivate) – professores que cativam, fazem o ensino envolvente. As aulas são frequentemente instigantes e relevantes para os estudantes e, por isso, mantêm a atenção deles.

CONSOLIDAR (consolidate) – professores que consolidam, ajudam os alunos a organizar o conteúdo de modo a torná-lo mais fácil de lembrar e de raciocinar. Esses professores revisam e resumem o que foi aprendido ao final de cada aula, destacando as relações entre as ideias. Eles relacionam o conteúdo com o que já foi estudado em aulas anteriores ou em outros assuntos. 

O artigo completo vai bem mais longe que isso, explicando de forma resumida e bem objetiva, em português, o que foi feito. Recomendo fortemente a leitura. Mas a mensagem com a qual gostaria de encerrar meu post de hoje é a seguinte: a luta dos brasileiros de agora em diante é ter EM CADA SALA DE AULA do Brasil um professor com essas características.

ISSO É A TAL EDUCAÇÃO PADRÃO FIFA que as massas pediram nas ruas em 2013. O resto é enrolação!

Contribuições privadas para o setor público devem ser reguladas . . .

. . . E devem atender aos interesses da coletividade!

É lugar comum fazer afirmações “polianísticas” de que crise = oportunidade. Nos olhos dos outros, uma crise brava é sempre uma oportunidade para alguém, em geral não afetado por ela, ganhar alguma coisa … Mas, é possível que, dependendo do contexo, uma mexida em cenário caótico possa sim trazer um efeito benéfico, mesmo para quem foi atropelado por um evento negativo.

Vejamos.

A crise financeira em que está mergulhado o setor público brasileiro, o qual esbanjou-se na festa de criar oportunidades para o setor privado enriquecer ainda mais, concentrar renda ainda mais e desviar recursos da coletividade para bolsos exclusivos como nunca, talvez possa ajudar a modernizar um pouco as relações entre diferentes setores da sociedade.

Além de aprender a otimizar recursos realmente escassos, o setor público vai ter que aprender a mobilizar outros recursos disponíveis na sociedade. Neste caso, ao invés de pegar carona e surfar uma onda pública para poucos, o setor privado está sendo convidado a coçar o bolso e ajudar a polícia do Estado do Rio de Janeiro a continuar (e, quem sabe, até a melhorar!) os serviços policiais que oferece à população.

O Estado do Rio de Janeiro está entrando em colapso, mas parece que surgiu uma boa ideia que está sendo materializada de forma organizada e republicana. Se o que foi escrito no papel é mesmo o que vai acontecer no mundo real, nunca se sabe, mas o setor da educação bem que podia aprender um pouco com a iniciativa.

Trata-se do Edital de Chamada Pública – Programa Juntos com a Polícia (infelizmente não consigo inserir o link para leitura completa aqui porque o site da Imprensa do Estado requer cadastro individualizado). Inúmeras notícias sobre a iniciativa saíram na Imprensa:

http://www.valor.com.br/politica/4763603/policia-civil-do-estado-do-rio-recorre-doacoes-de-empresas

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/11/policia-civil-do-rio-lanca-edital-que-permite-doacoes-para-instituicao.html

http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2016-11-03/policia-civil-vai-pedir-doacao-a-empresarios-por-conta-da-crise-no-rio.html

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2016/11/02/sem-verba-ate-para-papel-policia-civil-do-rio-oficializa-vaquinha-em-edital.htm

RJ: sem dinheiro, Polícia Civil pede doações a empresários

Nosso ramo é outro, a educação. Nas escolas e secretarias municipais e estaduais do Brasil todo e, PRINCIPALMENTE, no Ministério da Educação, não faltam empresários e ongs oferecendo ajuda. Mas nem sempre, aliás, na maioria das vezes, a ajuda não vem na forma como regula o edital da Polícia Civil Estadual que:

a) credencia, de maneira transparente e equitativa, as empresas interessadas (neste caso apenas as empresas com fins de lucro) em ajudar, materialmente, um órgão público

b) limita a possibilidade de credenciamento às empresas que esteja em regularidade fiscal e em pleno funcionamento (deixa de fora “bandidos” querendo participar por meio de empresas-fantasma, por exemplo)

c) exige que as empresas descrevam o que vai ser doado no processo de credenciamento

d) prevê uma comissão que vai analisar as ofertas e cujo resultado será publicado em um sítio na internet

e) possibilita às empresas fazerem propaganda de si por meio apenas de folhetos distribuídos pelas delegacias (não há previsão para colar logos no sítio da Polícia Civil, por exemplo)

f) obriga o órgão público a prestar contas do uso dos recursos doados em até 60 dias do fim do edital

g) permite às empresas monitorar o uso da doação

h) PROÍBE qualquer tipo de contrapartida da Polícia Civil à empresa

Chamo atenção para essa iniciativa da Polícia do Rio de Janeiro porque as escolas brasileiras, assim como muitas secretarias da educação e até o MEC viraram um verdadeiro convescote de interessados em vender  produtos, ideias e agendas (intenções e modismos) ao setor educacional brasileiro.

Já testemunhei empresário que reformou a casa e despejou seus móveis velhos e biblioteca desatualizada em escola (quem quer hoje a Enciclopédia Barsa e Conhecer dos anos 1970??), ongs vendendo projetos e soluções sem a devida concorrência pública, programas inúteis e caríssimos como “Um Computador Por Aluno” e outras ideias de tecnologia vendidas como panaceia para o setor público. Uma farra. As escolas e setor educacional como um todo podem se beneficiar de parcerias com o setor privado, e até com pais de alunos e empresários? Óbvio que podem.

Entretanto, o que deve guiar esse tipo de associação público-privada é o bem comum, o interesse doa alunos, os princípios de equidade e de excelência. As empresas e ongs deveriam se apresentar ao setor educacional de forma transparente, regulada PELO SETOR público, e não o contrário. Muitas escolas e secretarias reclamam  da interferência externa, das prioridades invertidas, dos interesses escusos, mas são pressionadas por seus prefeitos e governadores a aceitar o que vem, sem que as prioridades sejam realmente atendidas, ou que o interesse coletivo dos alunos seja verdadeiramente contemplado. Há uma certa intimidação velada, pois alguns empresários são também doares de campanhas, há marcas muito fortes nas ongs: às vezes é difícil resistir. Mas a questão é que o ônus de prestar contas dos resultados e da lisura das ações é imputado APENAS ao gestor público – o setor privado não é obrigado a cumprir as mesmas restrições.

Está na hora de o setor público tomar as rédeas do processo de estabelecimento de “parcerias” como faz agora a Policia do Rio. Se vai dar certo ou não, o futuro dirá. Mas que o princípio de o estado controlar muito bem que RECEBE do setor privado está corretíssimo!