Autor Arquivo: Ilona Becskeházy

Itiuorquedi x magia negra da Estatística, uma fábula de suspense

Em um tempo longínquo, existiam dois reinos, separados por muitas e muitas léguas de distância um do outro. Um era verdejante, pequenino e próspero, cercado por outros reinos cheios de riquezas minerais, onde seus felizes súditos podiam trabalhar e até estudar. Seus habitantes tinham tanta sorte, que contavam até com uma grande lagoa mágica, da qual emanava vida e sabedoria.

O outro era árido, grande e pobre, além de isolado e bem no meio de um deserto. Água, ali, só com muita reza ou mágica. Até o rio que passava pelo reino era danado: praticamente secava no verão e inundava as ruas no inverno. Os reinos vizinhos eram igualmente pobres e desolados.

No reino pequeno, arborizado e abençoado, morava uma Maga muito querida, dotada de poderes mágicos que faziam todas as crianças aprenderem a ler e a escrever de forma misteriosa! Ela era a pessoa mais famosa daquele lugarzinho. Todos ali tinham muito orgulho dela e achavam o máximo ter o privilégio de tê-la como referência. Ler mesmo, livros e textos longos e complicados, assim como escrevê-los, a maior parte das crianças do reino pujante não conseguiam bem não. Mas como tudo no pedaço era muito lindo e harmônico, ninguém reclamava. Além disso, fotos e vídeos coloridos e animados garantiam que corria tudo bem nas escolas reais.

Já no reino grande, onde a vida era muito mais dura, com muita poeira e calor e sem lagoa mágica, os professores tinham que estudar e trabalhar muito para poder ensinar as crianças a ler e a escrever. Dizem que é porque os vídeos e as fotos que revelam alfabetização demoraram muito para chegar naquele lugar atrasado e, por causa disso, professores e alunos tinham que aprender na marra: com lápis, papel, livros e muito beábá, que era a palavra mágica que o malvado e ranzinza bruxo local mais sabia pronunciar.

A história é que ali, as crianças tinham sido encantadas por uns coronéis malvados e não aprendiam a ler e a escrever de jeito nenhum, um quadro desolador. Só que um dia, apareceu um rei que achou aquilo muito feio e encasquetou que ia quebrar esse feitiço desumano. Como ele nunca tinha ouvido falar na Maga Alfabetizadora, mandou buscar em um reino próximo um bruxo muito bravo, que garantia que era capaz de reverter aquele sortilégio. Ele usava umas expressões muitos esquisitas quando estava desencantando as crianças, soltava uns palavrões quando ouvia falar de bruxas da escola do itiuorquédi (ver temporada 1) porque, como era ignorante, não conhecia a fama da tal alfabetização para fotos e vídeos e, pasmem, botava os meninos para praticar ler e a escrever as coisas que as pessoas falam. Era de uma excentricidade que deixava muita gente nervosa. Ele também achava que as escolas deveriam ter livros e dicionários, como se os pequenos súditos fossem gente grande. Como o rei e toda a corte não tinham mais ninguém para lhes aconselhar, tiveram que ficar com essas soluções esdrúxulas mesmo.

Além de todas as maluquices, o feiticeiro tinha um problema muito sério: ele acreditada em um tipo de feitiçaria raríssimo, que poucos iniciados ousavam praticar – a Estatística – . Era um horror, testes e mais testes, com todas as crianças falando o que liam em microfones, alunos escrevendo noite e dia no papel…fotos e vídeos que é bom mesmo, nada! Tinha gente que previa que aquilo não ia dar certo e que as crianças iam perder a sua identidade brincalhona e iam começar a cuspir porcas e parafusos, quando o feitiço da Estatística realmente se instalasse e elas virassem robozinhos.

O fato é que muitos e muitos e muitos anos nessa maluquice de achar que criança pode ler e escrever como adulto não poderia dar certo mesmo. Finalmente, chegou ao reino esquisito do deserto um verdadeiro exército de pessoas armadas com câmeras modernas para fazer vídeos com pirralhos reais relatando sonhos vagos ou registrar singelas fotos de sorrisos. Agora, finalmente, dos alunos pobres daquele desgraçado local seriam curados da praga das provas e registros estatísticos, que é bem mais poderosa, apesar de ser classificada pelas bruxas do bem como Magia Negra. Não se sabe ainda o que vai ser deles, mas a feitiçaria do bem, que é sempre coisa de gente muito otimista, com certeza vai triunfar, porque suas poderosas palavras mágicas, “itiuorquédi e detixersrilililaiquedi” vão fazer efeito em breve.

Itiuorquédi – uma fábula sobre o combate ao analfabetismo escolar

Era uma vez um reino distante e vasto, com um poderoso mandatário. Ele tinha uma filha querida que era professora e que precisava de uma mãozinha para para seus projetos de educação. Como ele era muito poderoso, os chefes de guildas produtivas não tardaram a contribuir com a valorosa iniciativa real. No auge de sua fama, rapidamente conquistada por meio dos resultados de programas educativos que ajudaram o reino longínquo e imaginário a se livrar da praga do analfabetismo escolar (e absolutamente não pelas verbas publicitárias das tais guildas), a princesinha benemerente declarou para especialistas estrangeiros, de que forma ela se certificava de que suas intervenções eram eficazes: itiuorquédi, detixersrilililaiquedi. Essas eram as palavras mágicas que revelavam, em inglês, o segredo da causalidade que justificava a existência de programas aleatórios para resolver o problema sistemático do analfabetismo escolar do tal reino.

Mas havia um probleminha. O feitiço não funcionava quando as crianças faziam provas. A alfabetização aparecia apenas em fotos em que elas estavam sorrindo e mostrando desenhos, ou em vídeos em que contavam seus sonhos para o futuro. Era muito esquisito, mas quando tinham que ler e escrever textos, o feitiço se quebrava e elas voltavam a ser analfabetas.

As amigas da princesinha não se importavam com isso, o que contava é que as palavras mágicas “itiuorquédi e detixersrilililaiquedi” quando faladas, com convicção – em qualquer idioma – , eram muito poderosas: faziam qualquer pessoa de bom coração ver crianças alfabetizadas e felizes.

Só que algumas crianças, as que não apareciam em fotos ou vídeos de programas educacionais vagos, aprendiam realmente a ler e conseguiam fazer provas com sucesso. É verdade que elas eram bem poucas, mas, mesmo assim, a existência delas fazia com que muita gente, em muitos reinos diferentes, acreditasse que o feitiço de alfabetização era realmente poderoso e permanente.

A explicação para isso é que a bruxa boa que desenhou o feitiço para fazer ações desconexas e desconectadas de “alfabetização” ensinarem alunos a ler e a escrever era meio biruta. O tal encantamento alfabetizatiço que ela inventou só funcionava quando mães, fonoaudiólogas, psicopedagogas e explicadoras em geral, usavam métodos secretos para ensinar alunos a ler a ponto de entender textos mais longos e a escrever idem. Esses métodos secretos eram realmente desconhecidos da maioria das pessoas. E ninguém gostava de falar neles, por que tinham sido atribuídos a povos formados por gente muito má, que costumava habitar lugares mais frios, nos quais se usava uma ciência obscura para avaliar intervenções, cujo nome as bruxinhas boas não podiam pronunciar, sob pena de imediatamente serem transformadas em pó – a Estatística.

A verdade é que a bondosa princesa fazia parte de uma famosa escola de bruxinhas fofas, mega engajadas no combate mundial ao analfabetismo escolar. Elas eram muito poderosas e gostavam de morar em reinos com clima quente e úmido de um planeta plano imaginário, no qual a tal da ciência não pronunciável, a Estatística, não tinha muita vez. As ilustrações da época mostram que elas podiam ser facilmente reconhecidas porque usavam roupas largas, que enfeitavam com colares feitos de sementes mágicas e coloridas. Elas falavam uma língua cheia de códigos que só elas entendiam, para que seu segredo da alfabetização mágica – a que não pode ser revelada por provas, mas que aparece em fotos e vídeos – nunca fosse revelado.

Esta primeira temporada da fábula itiuorquédi termina aqui. Aguardem as próximas, nas quais, possivelmente, a fórmula mágica da alfabetização que só aparece em fotos e vídeos, talvez seja finalmente trazida à luz.

Sugestões que valem para qualquer Ministro da Educação do Brasil

Com o cai não cai do Ministro Velez, espetáculo dispensável que somos obrigados a assistir perplexos por meio da hiper realidade que as conexões online criam, vou dar a minha contribuição para o debate público sobre o que acho que deveriam ser as prioridades educacionais de qualquer governo, durante a próxima década. Não se trata apenas de mirar no atual Governo Federal, mas de declarar a minha opinião sobre o que deveria ser feito pela União para ajudar estados e municípios a cumprir, EM REGIME DE COLABORAÇÃO, cada uma de suas funções educacionais, de acordo com o artigo 211 da nossa Constituição Federal.

Título VIII – Da Ordem Social Capítulo III Da Educação, da Cultura e do Desporto Seção I Da Educação

Art. 211. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino.

§ 1º A União organizará o sistema federal de ensino e o dos Territórios, financiará as instituições de ensino públicas federais e exercerá, em matéria educacional, função redistributiva e supletiva, de forma a garantir equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios.

§ 2º Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil.

§ 3º Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e médio.

§ 4º Na organização de seus sistemas de ensino, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios definirão formas de colaboração, de modo a assegurar a universalização do ensino obrigatório.

§ 5º A educação básica pública atenderá prioritariamente ao ensino regular.

Como vemos, não é responsabilidade do Governo Federal operar escolas de educação básica. Então não faz sentido argumentativo, dentro da desejável honestidade intelectual, relacionar o governo federal com a péssima estrutura das escolas das redes subnacionais ou com o pífio aprendizado dos alunos. Embora haja a rede Pedro II que “sobrou” de um processo histórico e o investimento na desvinculação dos antigos Cefets em Institutos Federais de Educação Profissional, Científica e Tecnológica que lhes conferiu um status próximo ao das universidades federais, melhorando a carreira de seus docentes durante do Governo Federal do PT, o Governo Federal é apenas indutor de qualidade e eficácia.

E o que o Governo Federal pode fazer para ajudar os alunos brasileiros de educação básica, como sua ÚNICA e EXCLUSIVA preocupação moral, técnica e financeira? (Sim, eu acho que as universidades federais devem começar a pensar em outros modelos de “autonomia” financeira que dependam menos do governo e mais de sua própria competência!)

O DECRETO Nº 9.465, DE 2 DE JANEIRO DE 2019, que apresentou a anova estrutura do Ministério deu uma ideia do que foi planejado para a pasta, só que sua materialização depende de se combinar com o grande russo que é o Ministro da Educação, quando ele se dispuser a trabalhar de forma objetiva, mesmo que, para isso, seja preciso fazer ainda algumas substituições no Ministério. Acho o Decreto bom e objetivo e que deveria ser seguido à risca! O ME e suas duas grandes autarquias de gestão das políticas educacionais da educação básica, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) podem juntos, fazer muito pelos entes subnacionais: estados e municípios. INFELIZMENTE, o decreto acima não trouxe os detalhes de funcionamento desses importantes órgãos: o da grana (FNDE) e o das avaliações e dados objetivos (INEP).

Então, já fica a primeira sugestão: apresentar um plano de trabalho e de prioridades para alinhá-las à gestão estratégica do tal Ministério que todos DIZEM ser importante, mas que, na verdade, é tratado pela autoridades federais como um estorvo necessário, assim como o é em estados e municípios, uma vez que é fonte das maiores dores de cabeça de qualquer gestor, dadas as caraterísticas de seu tipo de operação.

NÚMERO 1 – Plano Nacional de Alfabetização: tomando como base o existente PNAIC (Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa), organizar todas as correções técnicas para a orientação dos docentes e afins, assim como apresentar materiais didáticos que finalmente incluam as recomendações mais atualizadas e fruto de consensos internacionais (valorizar a etapa fonológica e fonêmica, a construção estruturada de vocabulário e gosto pela leitura) do processo de alfabetização, que levam em conta as evidências sobre como se aprende a ler e a escrever e como se adquire fluência leitora. Esta, a fluência, deve ser O PRINCIPAL INDICADOR de proficiência dos alunos e de impacto de programas para a os primeiros anos do ensino fundamental. Existe técnica para fazer isso, pois textos e palavras devem ser escolhidos com base no que os alunos vão conseguindo ler aos poucos, mas a fluência deve ser acompanhada de perto TODOS OS DIAS pelos docentes e REGULARMENTE por coordenadores pedagógicos, diretores e secretários de educação, como é feito em Sobral e no Ceará (veja aqui o tipo detalhado de registro para para fazer isso).

Além disso, a alfabetização e a medida de fluência devem ser transformadas em mania nacional, com um plano de comunicação amplo e competente de disseminação de boas práticas em sala de aula e engajamento das famílias e organizações sociais no estímulo à formação de vocabulário e, principalmente, o desenvolvimento do gosto pela leitura que pode e deve ser estimulado para além da escola.

NÚMERO 2 – o FNDE deve ter como estratégia (como aliás, já foi anunciado por seu Presidente Carlos Alberto Decotelli da Silva) de fazer os repasses de forma melhor condicionada, com maior indução de boas práticas. Vários de seus programas são baseados na lógica de eficácia escolar, mas deveriam ser geridos de forma mais clara. É fundamental explicitar o que são as práticas de eficácia escolar, que também já viraram carne de vaca no mundo todo, menos aqui, porque o povo que usa disfarce de progressista para proteger interesses restritos conseguiu colar o termo “neoliberal” nesse tipo de iniciativa e aí transformá-lo em radiativo. Os componentes de eficácia escolar devem fazer parte de um amplo programa de comunicação e educação, não apenas para quem recebe os recursos, mas para a população em geral, de forma que se possa cobrar, de forma objetiva, a sua materialização nas escolas brasileiras.

E, por último, o mais complexo de explicar que é o papel do INEP. Até o advento da BNCC (e deve continuar pq os descritores contidos alí estão mal redigidos e especificados), os principais indutores dos currículos, por meio dos livros do PNLD eram os descritores da Prova Brasil e do ENEM. Uma grande contribuição que o órgão pode dar é refazer os descritores e melhorar a qualidade dos itens de prova, de maneira que a indução seja feita em um aumento de complexidade das questões, respeitando os conceitos formulados por Bloom (Taxonomia de objetivos de aprendizagem). A BNCC aponta nessa direção, mas como tanto a estrutura, quanto descrição das habilidades (sua qualidade como especificador do que deve ser aprendido) são muito frágeis, o INEP daria enorme contribuição se fizesse uma boa reforma aí.

Para 4 anos está bom demais, mas ainda é necessário, depois do que for feito acima, principalmente depois do movimento do INEP, fazer o seguinte: 1) adequar os livros didáticos, aumentando o nível de mobilização cognitiva que se exige dos alunos e expandindo o horizonte de informações e conteúdos disciplinares que apresentam para as salas de aula brasileiras; e 2) melhorar as diretrizes de formação docente (nisso eu e a Márcia Sebastiani já estamos trabalhando!)




O Ministro precisa melhorar seu ppt e fazer treino de raposão

Dia 27/3/19, o Ministro da Educação, Ricardo Velez, compareceu a uma reunião ordinária da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. A reunião foi convocada pelos deputados Dep. Aliel Machado do PSB do PR, Dep. Professora Rosa Neide do PT do MS, Dep. Raul Henry do MDB de PE, Dep. Paula Belmonte do PPS do DF, Dep. Diego Garcia do Podemos do PR. Ou seja, um convite organizado pelos deputados da oposição. Foram mais de 5 horas de uma sessão de perguntas e respostas na qual o Ministro se saiu muito mal.

O Ministro, que parece não ter-se dado conta da situação que o esperava, simplesmente não se preparou para o que tinha sido armado para ele, passando um enorme carão. Ele tinha sido muito bem tratado pelo Senado, que é bem mais favorável ao Governo Federal que a Câmara (mais plural e sem as responsabilidades diretas com os governos subnacionais, como são os senadores). Talvez tenha achado que seria tratado da mesma forma.

É importante compreendermos que, hoje, a população é muito mais bem informada do que até recentemente e que o nível de detalhamento e de transparência que se exige de governantes atualmente é muito maior que se exigia há pouquíssimo tempo atrás. Agora, as pessoas discutem política e a atuação dos Três Poderes em suas conversas no dia a dia. É preciso estar consciente disso, o que parece não ser o caso do Ministro.

Quando um candidato ao chefe do executivo entra em uma campanha, é obrigado por lei a publicar um plano de trabalho para cada área de interesse do estado. Em tempos passados, esses planos eram raramente respeitados, entretanto, na campanha eleitoral de 2018, os candidatos foram muito cobrados a detalhar sua plataforma. O Presidente Bolsonaro foi muito criticado por ter apresentado um plano de governo superficial, incluindo a parte de educação, que apenas apontava para mudanças nas prioridades de financiamento, questões de ideologia e alfabetização, sem apresentar detalhes.

Da mesma forma, os ministros até aqui raramente apresentavam um plano de trabalho para sua gestão. Nós temos agora dois ministros “estrela” que estão colocando muitas fichas em reformas de leis, Ministro da Economia (Paulo Guedes) e Ministro da Segurança (Sérgio Moro), que estão sendo minuciosamente debatidas. Fora isso, seus ministérios dão conta de inúmeras outras atividades e não consta que tenham apresentado um plano de trabalho para além do que devem estar combinando com suas próprias equipes.

Talvez, por causa disso, o Ministro Veléz tenha achado que não era necessário apresentar o seu plano, mas como disse o próprio Presidente Bolsonaro, O Ministério da Educação é o mais “difícil” da Esplanada. O Presidente não explicou porque acha que o MEC é “o mais difícil”, mas não é complexo de entender: uma das maiores bases de apoio ao PT vem dos professores universitários, principalmente. Boa parte da oposição mais aguerrida ao Presidente vem do setor de educação, então o Ministro Veléz vai ter que trabalhar dobrado.

Ele não entendeu que esse tipo de reunião raramente serve para esclarecer dúvidas. É, na verdade, um palco, para onde vão os deputados que querem jogar para a sua galera. Com o auxílio das redes sociais, é só falar bonito, ou brigar, ou ridicularizar o interlocutor, filmar e viralizar. A Deputada Tábata Amaral do PDT de São Paulo fez isso brilhantemente.

Então está claro que o Ministro da Educação do Presidente Bolsonaro vai ter se comportar como uma estrela no bom sentido, ser um Moro ou um Paulo Guedes, o que parece não combinar com a personalidade do Min. Ricardo Veléz.

Quem quer que seja o Ministro, precisa apresentar um plano de trabalho não de ruptura, mas de acerto de rumo de programas e ações que já existem. Aí dois dos assessores que ele levou consigo para a reunião apresentaram ideias interessantes, o Carlos Decotelli, Presidente do  FNDE e Alexandro Souza Secretário da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica.

Os vídeos deles podem ser vistos aqui:

https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/webcamara/videoArquivo?codSessao=76535#videoTitulo

https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/webcamara/videoArquivo?codSessao=76535#videoTitulo

O Governo Federal não atua na educação básica, a não ser como exceção, na rede Pedro II. Sua função na educação é regulamentar e operar parte do Ensino Superior. Para a educação básica sua função é distribuir recursos de forma voluntária ou vinculada a projetos e atividades para os quais o Ministério dita as regras. Padrões mínimos de construção e funcionamento de escolas, planejamento, execução e distribuição dos livros didáticos, programas de transporte escolar e recursos distribuídos diretamente para as escolas são exemplos da forma de atuar do Governo Federal na educação básica.  Essencialmente, o FNDE, que distribui recursos materiais com base em um rígido arcabouço de regras, tem o poder de pautar uma série de iniciativas de eficácia escolar e foi mais ou menos isso que seu atual presidente deixou transparecer em sua breve fala.

Entre as funções do Ministro está selecionar sua equipe e administrá-la para que trabalhe em harmonia, já que os programas são altamente interligados. Outra, é de representação. Embora tenha havido várias demissões nesse início de governo, o que pode até ser justificável em um período em que as equipes estão se afinando, o que causa muita aflição é a parte de representação política de seu cargo: o Ministro tem que saber como se comportar em cada situação que lhe é imposta pela posição que ora ocupa.

Além disso, há um clamor para que ele apresente seu plano de trabalho. Esperamos que ele consiga produzir, pelo menos, uma prestação de contas dos primeiros 100 dias de seu mandato.

A estrutura do “nosso” curso de Pedagogia

Como havia anunciado em um post anterior, eu e uma amiga super competente da área de formação docente, a Márcia Sebastiani, estamos montando um curso “ideal” de Pedagogia, para formar docentes para a educação infantil e ensino fundamental I. Estamos levando em consideração o fato de que a formação em Pedagogia é diferente da em Licenciatura em alguma disciplina específica e que o profissional Pedagogo pode atuar tanto na educação infantil, quanto na primeira etapa do ensino fundamental. Para além disso, não estamos considerando limites de recursos humanos ou materiais e é por isso que estamos chamando esse singelo projeto pessoal de “ideal”.

Nossa princial intenção é dar contribuições concretas e específicas para o atual e urgente debate sobre a qualidade e relevância da formação inicial de docentes, em particular os dessas duas etapas iniciais da educação escolar, que, em nossa percepção, devem ser absolutamente integradas. Ou seja, os principais conceitos, fundamentos teóricos e experiências práticas para preparar os docentes para atuar com alunos entre 4 e 10 anos devem ser coerentes entre si, integrados de uma etapa do desenvolvimento para a seguinte, para serem conhecidos e internalizados desde a formação inicial da graduação e não como pós-graduação. Mesmo que sejam muito bem vindas diversas formações adicionais específicas, que aprofundem e complementem os conteúdos e vivências essenciais apresentados nesta proposta, a realidade se impõe para que os professores egressos de cursos universitários estejam preparados para atuar de forma competente e eficaz em uma ampla gama de contextos educacionais.

Acreditamos que a formação básica de um docente que enfrenta o desafio de garantir boa parte do desenvolvimento integral de crianças entre (aproximadamente) 4 e 10 anos deva contemplar uma visão coerente de como a evolução cognitiva, emocional, acadêmica, social e física desse contingente de alunos pode se desenrolar. Embora não seja o que está inicialmente proposto no documento divulgado pelo Mec até agora, mas que ainda vai ser revisado, segundo o mesmo órgão, é nessa concepção alinhada entre as etapas em que acreditamos e que recomendaremos.

O desafio é preparar profissionais para ensinar alunos em nível de excelência e com equidade, em salas de aula de composição discente bastante diversas e cheias de dificuldades de ordem variada, que podem ser resumidos pelo bordão: a busca pela eficácia escolar em qualquer contexto.

Fizemos uma proposta de estrutura lógica que divulgamos e explicamos a seguir. A ideia é compartilhar toda a nossa linha de raciocínio, de forma a receber críticas e contribuições que não apenas possam melhor especificar os temas do debate mais amplo sobre formação docente, mas apromorem nossas proposições e aguçem o desejo difuso de se transformar o preparo de profissionais que cumprem uma função estratégica em nossa sociedade. Divulgaremos em nossos canais o que estamos pensando para quem quiser acompanhar, entender, contribuir e, eventualmente, até implementar o que estamos propondo.

A proposta de estrutura a seguir está baseada em dois conceitos principais formulados por dois autores muito famosos no ambiente educacional e de políticas de formação docente fora do Brasil, mas praticamente desconhecidos por aqui. Felizmente, alguns de seus artigos mais importantes foram traduzidos para o Protuguês e estão disposnívels online.

O primeiro é:

SHULMAN, Lee S. Conhecimento e ensino: fundamentos para a nova reforma. Cadernos Cenpec | Nova série, [S.l.], v. 4, n. 2, june 2015. ISSN 2237-9983. –Disponível em: <http://cadernos.cenpec.org.br/cadernos/index.php/cadernos/article/view/293>. Acesso em: 23 feb. 2019. doi:http://dx.doi.org/10.18676/cadernoscenpec.v4i2.293.

A principal formulação de Shulman em 1987 e ainda referência mundial na concepção da formação de docentes, é que eles devem dominar as seguintes categorias de conhecimentos (p.206):

• conhecimento do conteúdo;
• conhecimento pedagógico geral, com especial referência aos princípios e estratégias mais abrangentes de gerenciamento e organização de sala de aula, que parecem transcender a matéria;
• conhecimento do currículo, particularmente dos materiais e programas que servem como “ferramentas do ofício” para os professores;
• conhecimento pedagógico do conteúdo, esse amálgama especial de conteúdo e pedagogia que é o terreno exclusivo dos professores, seu meio especial de compreensão profissional;
• conhecimento dos alunos e de suas características;
• conhecimento de contextos educacionais, desde o funcionamento do grupo ou da sala de aula, passando pela gestão e financiamento dos sistemas educacionais, até as características das comunidades e suas culturas; e
• conhecimento dos fins, propósitos e valores da educação e de sua base histórica e filosófica.

E o segundo:

YOUNG, MICHAEL F. D., O futuro da educação em uma sociedade do conhecimento: o argumento radical em defesa de um currículo centrado em disciplinas. Revista Brasileira de Educação [en linea] 2011, 16 (Septiembre-Diciembre): [Fecha de consulta: 23 de febrero de 2019] –Disponible en:<http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=27520749005> ISSN 1413-2478

O argumento que selecionamos desse ícone da sociologia da educação, que diferenciou “conhecimento poderoso e conhecimento dos poderosos” e que se transformou em arauto da democratização desses conhecimentos por meio da educação escolar e de políticas curriculares competentes e por disciplinas é que:

Neste artigo, quero argumentar que, se vamos dar um sentido sério à importância da educação em uma sociedade do conhecimento, é necessário tornar a questão do conhecimento nossa preocupação central, e isso envolve o desenvolvimento de uma abordagem ao currículo baseada no conhecimento e na disciplina, e não baseada no aprendiz, como presume a ortodoxia atual. Além disso, eu argumentaria que essa é a opção “radical” − não, como afirmam alguns, a opção conservadora − desde que saibamos claramente o que significa, para nós, conhecimento. Uso a palavra “radical” aqui para me referir à questão chave que a maioria dos países enfrenta hoje: a persistência de desigualdades sociais na educação. Prefiro a palavra “radical” a alternativas como “progressista” e “crítica”. Enquanto a primeira tem uma associação próxima e, em minha opinião, infeliz com pedagogias centradas no aluno e com a ênfase no “aprender da experiência”, a segunda, embora faça parte de uma herança intelectual muito mais ampla, remontando a Kant e ao Iluminismo do século XVIII, tem sido relacionada, em estudos educacionais, à retórica oca do muito que passa por pedagogia crítica.

Assim, montamos a seguinte estrutura de disciplinas a serem agrupadas por blocos, os quais apresentamos a seguir:

1.Conhecimento sobre a lógica curricular de cada disciplina; 2.Conhecimento didático-pedagógico; 3.Conhecimento sobre os alunos e suas características; 4.Conhecimento institucional e 5.Conhecimento e estruturação pessoal e profissional

1.Conhecimento sobre a lógica curricular de cada disciplina – a base do curso será a compreensão da lógica das principais disciplinas do currículo de educação infantil e ensino fundamental I, em uma perspectiva do que se pratica em países desenvolvidos, reconhecendo também, o caráter compensatório para uma formação escolar muito provavelmente deficiente nas disciplinas de Língua Portuguesa, Matemática, Língua Inglesa, Ciências, História e Geografia. Utilizaremos as melhores referências curriculares em termos de estrutura, linguagem, detalhamento e progressão, além de fazer uma releitura da BNCC brasileira, de forma a explorar as sinergias ou antagonismos com os de Ontário, Hong Kong, Reino Unido, Portugal, Finlândia, Common Core e International Baccalaureate, principalmente;

2.Conhecimento didático-pedagógico – refere-se ao domínio dos processos de instrução e do manejo dos ambientes de aprendizagem, com vistas a garantir o ensino de cada uma das disciplinas e áreas de conhecimento, a partir do currículo, mas já em uma lógica interdisciplinar de planejamento e execução das atividades didatico-pedagógicas;

3.Conhecimento sobre os alunos e suas características – explicita a interrelação entre as diferentes opções didáticas e as condições individuais, socioculturais e contextuais dos alunos: identificar, estudar e explorar as possibilidades didáticas em relação às diferentes características de cada aluno na hora de aprender cada item do currículo;

4.Conhecimento institucional – sobre o funcionamento da escola, da rede e do arcabouço institucional e legal da educação no Brasil, Unidade da Federação, município e rede onde está inserido;

5.Conhecimento e estruturação pessoal e profissional – a partir da aquisição de uma sólida base teórica e cultural em relação às referências bibliográficas mais influentes no contexto brasileiro, latinoamericano e ocidental – textos gerais sobre filosofia, sociologia, história da educação e obras clássicas e contemporâneas (artes plásticas, literatura, música, cinema, etc) que formam um repertório mínimo para o exercício da profissão docente no âmbito da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I

O item 2 é, obviamente, o mais importante aos quais os demais se subordinam e lhe servem de base. Cada bloco deverá contribuir de forma diferente para que o de didática se fortaleça.

Comentários são bem-vindos!