Autor Arquivo: Ilona Becskeházy

Para não levar gato ao invés de lebre

Reportagem de capa do Jornal O Estado de S. Paulo deste domingo, 7/1/2018, aborda uma tendência que se consolida no mercado educacional brasileiro para a educação básica: a super segmentação dos nichos de clientela, para exploração máxima de cada perfil de renda. A reportagem da Jornalista Renata Cafardo mostra em maiores detalhes um desses nichos, que é o que visa captar a clientela de altíssima renda, disposta a pagar mais de R$5.000 por mês pela escola de cada um de seus filhos, gastos em geral acrescidos de outras despesas complementares como taxas de “luvas” não reembolsáveis e aulas extras.

Todas elas, sem exceção, jogam forte com recursos de marketing educacional que incluem sempre, pelo menos, os seguintes itens:

a) ensino da Língua Inglesa em paralelo com a Língua Portuguesa;

b) uso massivo de tecnologia desde o início da escolarização;

c) instalações modernas, com alto investimento em arquitetura e design;

d) nomes esdrúxulos de práticas educativas que constituem o seu “diferencial mercadológico”;

e) a contratação de professores, coordenadores e diretores de escolas tradicionais e famosas.

Mas, da mesma forma que somos frequentemente enganados por recursos de marketing de “sofisticação” como lojas lindas, de design arrojado (lojas âncora em shoppings, ou “flagship stores”, por exemplo), que, paradoxalmente, vendem produtos altamente industrializados e de massa, muitas vezes produzidos em condições desumanas inaceitáveis em países desenvolvidos, desde o século passado, podemos ser ludibriados por escolas.

Soa terrível, não? A escola, que é uma instituição ainda respeitada no Brasil, pelo menos como conceito, entrar na corrida para sugar o máximo de seu dinheiro, entregando muito pouco em troca é uma imagem incômoda. Tão incômoda como aquela sensação desagradável de ter sido feito de trouxa depois de pagar a conta em algum restaurante da moda, que junta recursos previsíveis como design minimalista (e barato) com garçons de ar blasé, que falam difícil e parecem saídos de agências de modelo, mas que não sabem servir à mesa sem errar seu pedido, com discrição e gentileza.

Bem, ninguém está livre de passar por isso com a escola de seu filho. Não é que seja novidade: escolas privadas pseudo moderninhas também passem a mão na sua grana e ensinam muito pouco a seu filho,  a ponto de você descobri-lo cometendo erros crassos de ortografia e de construção de frases no 8º ano e pensar: onde foi que EU errei? A novidade é que agora essa competição pela sua suada renda disponível e pela sua desesperada propensão a gastar com educação para salvar seu filho do desemprego no futuro está sendo operada por empresas grandes, com grande potencial de consolidação de mercado (ou seja, comprar a concorrência sob o olhar complacente do CADE) e ações agressivas de marketing.

Diferentemente dos hambúrgueres, cuja qualidade hoje em dia qualquer brasileiro é capaz de julgar para fazer uma análise mínima de custo vs. benefício, educação escolar formal de qualidade é um produto praticamente desconhecido aqui no Brasil. Mesmo as famílias de altíssima renda, com raríssimas exceções, não têm ideia do que seja um ensino de qualidade a partir de um currículo acadêmico rigoroso. Os critérios networking + instalações são o que contam mais – a escola, na cabeça da maior parte das famílias, não se diferencia muito de um clube. Quanto mais caro e seletivo, melhor, e se for bonito, com boas instalações esportivas, tudo resolvido.

O que está acontecendo?

Empresas educacionais nacionais e estrangeiras, de conglomerados ou não, resolveram explorar o mercado de serviços educacionais brasileiro. Esse mercado educacional esteve, durante bastante tempo, praticamente restrito à produção editorial para livros didáticos vendidos no varejo ou para o gigantesco programa de distribuição de livros do governo federal (PNLD). Muitas dessas empresas entraram na área de serviços educacionais pela porta do ensino superior e agora exploram o vácuo deixado pela educação pública de péssima qualidade.

As famílias, desesperadas por vislumbrarem os empregos de seus filhos irem para o ralo por falta de uma educação de qualidade, topam pagar o máximo que sua renda permitir para salvar seus filhos de um futuro incerto. A questão é que o contexto brasileiro é muito propício para a enganação porque as famílias não têm a menor ideia do que significa uma educação de qualidade, o governo federal e os estaduais são, em geral, politicamente frágeis e tecnicamente despreparados para regular a qualidade e as empresas educacionais, ao contrário, são super competitivas e competentes: vão lhe tirar o máximo e vão lhe dar o mínimo…

Por quê?

O que faz a educação de qualidade é a combinação de itens muito caros como professores muito bem formados para dar aulas e monitorar o aprendizado dos alunos, um currículo detalhado e exigente e material de excelente qualidade, que faça os alunos trabalharem MUITO.

Nenhuma das empresas oferece isso, exatamente porque esses componentes custam caríssimo e obviamente diminuem suas margens de lucro! Do mesmo jeito que comemos 15 gramas de carne seca com abóbora no restaurante chique e pagamos preço de lagosta, podemos comprar o acesso a prédios lindos e Ipads, sem levar para casa os outros itens que realmente importam. A lagosta é mais rara de ser encontrada, pescada, transportada e conservada que o charque, mas se as firulas estiverem no lugar certo, nós pagamos charque a preço de lagosta. Da mesma forma, em particular no Brasil, professores bem preparados e material de alta qualidade quase não existem, portanto, são caríssimos. Por isso é comum o truque do jabá com jerimum a preço de Termidor: muitos alunos por professor, muita tecnologia idiotizante para não precisar investir em acervo físico e no uso realmente desafiante dos cérebros e do tempo dos alunos na escola.

Então como saber o que observar nas escolas caras, para não levar algo que não vai fazer com que seu filho seja realmente competitivo, mesmo que o preço seja caro:

1) número de alunos por turma: escola cara não pode ter mais que 10/15 alunos por turma na educação infantil, e 20 no fundamental, já com 2 professores na sala para garantir um ensino altamente individualizado, uma das características da educação de qualidade;

2) professores formados ou com alguma experiência séria (graduação, mestrado ou doutorado) em instituições de renome em países desenvolvidos;

3) tecnologia NÃO PODE SER O CENTRO DA EDUCAÇÃO, o foco é o desenvolvimento do cérebro do SEU FILHO e não o bolso das empresas criadoras de apps educacionais que em geral só deixam seu filho preguiçoso;

4) a arquitetura só ajuda se for para ter salas de aula amplas, que possibilitem aos professores circular entre os alunos enquanto eles trabalham, para observar e auxiliar seu aprendizado;

5) vá visitar a biblioteca real, de livros de papel e tinta: veja a variedade, quantidade, qualidade e a disponibilidade de títulos PARA CADA SÉRIE, começando pela educação infantil.

6) Por fim, o mais importante: o currículo. De onde foi que saíram os objetivos pedagógicos de cada ano, semestre, mês e aula? Quem controla, como esse currículo se compara com o da Inglaterra, França, Portugal e Alemanha? Em que ano seu filho vai aprender fração, estatística, vai fazer uma redação argumentativa do tipo da que cai no ENEM e na Fuvest? Como é feito o acompanhamento da produção escrita dos alunos?

Isso sim vai ajudá-lo a escolher a melhor escola que seu dinheiro pode pagar. Não tenha medo de perguntar, é seu direito como consumidor!

Normalmente, quando o resultado final de uma educação privada e cara não funciona, colocamos a culpa nos alunos, que são preguiçosos, malandros, o que pode até ser o caso. Ninguém pára para pensar que o problema pode estar na escola, e não na sua casa. Uma certa síndrome de vira-latas nos impede de ir lá e confrontar o super chef tatuado e uberizado, ou o Diretor de uma escola super cara. É o mesmo constrangimento que nos impede de ir à escola e pedir para que seu filho aprenda conceitualmente o Teorema de Pitágoras e a lista das preposições, ou que seja alfabetizado na idade certa. Cai mal, dá uma vergonha…SQN: é seu direito!

Habemus curriculum!

Finalmente, parece que o Brasil terá seu currículo nacional.

Embora a maioria dos estados brasileiros e mesmo alguns municípios já contem com o seu, para o bem da equidade (e da vergonha na cara governamental) temos que ter um documento normativo nacional que aponte o que os alunos brasileiros têm direito de aprender na escola em cada etapa.

A maior parte dos documentos já existentes brotou no jabuticabal educacional brasileiro: parte-se do que já se faz, mesmo que o sistema educacional brasileiro seja um dos  piores do mundo.

A bncc começou muito mal, mas sua versão final, a ser homologada pelo ministro da educação esta semana,  não é ruim. Pelo contrário, representa uma possibilidade concreta de criar condições políticas e operacionais para que a educação brasileira avance mais rapidamente E TAMBÉM na direção certa, que nos aproxima do nivel educacional dos alunos de países desenvolvidos.

Neste último fim de semana, estudei bastante apenas a disciplina de Língua  Portuguesa. Preferia um documento mais claro e objetivo, mais competente para ajudar os docentes no planejamento pedagógico do que e como ensinar. Mas, dada a largada, a chegada até que não está mal.

Hoje estou na maior correria, não consigo detalhar muito minha análise.

Mas vamos começar pelo começo. Como ler o documento para poder entender o que está proposto la?

Vou dar uma dica para a alfabetização.

 Embora um grupo super qualificado de especialistas no assunto tenha publicado um documento com críticas detalhadas ao conteúdo específico de alfabetização que está na bncc, eu acho que a caixa preta foi aberta e o conceito de ciclo de alfabetização de três anos, exemplar exótico na nossa cultura educacional jaboticabenta, vai começar uma trajetória sem volta à cova. Está com os dias contados.

Para ler e entender o que está na bncc e formar uma opinião melhor informada sobre o tema, recomendo que leiam a V4 do nosso currículo nacional, quando homologado, APENAS depois de ler os seguintes documentos:

Relatório do Grupo de Trabalho da Câmara dos Deputados sobre Alfabetização Infantil, disponível no link abaixo:

https://www.google.com.br/url?sa=t&source=web&rct=j&url=http://bd.camara.gov.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/1924/grupo_alfabetizacao_infantil_educacao_cultura.pdf%3Fsequence%3D1&ved=2ahUKEwik0tbF4pPYAhULkJAKHfAIALEQFjAAegQIBxAB&usg=AOvVaw1rWJ3TOftBKePGbDDVYaOq

E a critica dos especialistas sobre o que está na bncc, que está no site do Instituto Alfa e Beto. O site estava em manutenção quando tentei puxar o link.

Boa leitura. Depois me contem…

Sobral, o posto Ipiranga do currículo brasileiro!

Aprovaram a BNCC e você acha que não ajuda a organizar o seu planejamento para Língua Portuguesa e Matemática? 

Dá uma olhada no de Sobral….

http://seducsobral.blogspot.com.br/p/curriculos-escolares.html?m=1

Lá tem alfabetização organizada para ser concluída na hora certa, tem as especificações detalhadas do fundamental II e tem a progressão das habilidades necessárias para aprender frações na mesma fase escolar que os alunos de países desenvolvidos.

Para quem está se sentindo perdido com o mapa borrado que a BNCC estabeleceu, não tenha duvida: o currículo de Sobral é o Posto Ipiranga da sua nova jornada rumo à educação de qualidade!


Uma BNCC a cara do Brasil . . . e muito diferente daquelas de países desenvolvidos

Duas notícias na semana passada mostram questões da política educacional absolutamente complementares: Sobral novamente no topo do IOEB e finalização turbulenta da BNCC.

A finalização da aprovação da BNCC está povoada de polêmicas. A razão para isso é que o processo foi conduzido à moda da jabuticaba. Ao invés de ser precedido por um profundo levantamento bibliográfico que mostrasse quais as práticas curriculares de países desenvolvidos (aqueles de renda alta, industrializados e democráticos, que uma parte considerável da população brasileira quer ser um dia*), seguido pela apresentação dos objetivos curriculares (sim, M-E-T-A-S de aprendizagem, ou seja, onde a sociedade crê que TODOS, minimamente, devem chegar a cada etapa escolar) para as disciplinas âncora (sim, as mais importantes: Língua Portuguesa e Matemática, sem as quais não se compreende as demais) para só então partir para apresentar um documento para consulta pública, o Brasil optou por um caminho próprio, desconectado com o mundo desenvolvido e, obviamente, errado. Enquanto as autoridades educacionais de países realmente preocupados com a evolução da educação que oferece à sua população conduzem, quando o fazem, consultas pública responsáveis, em cima de aspectos bem específicos do documento, nós jogamos para a galera e pedimos para quem justamente não recebeu formação suficiente para educar seus alunos dizer como terá que ser feito quando se resolver acordar para o problema.

* Todos os países desenvolvidos cumprem esta etapa. Uns copiam dos outros e ninguém tem vergonha de declarar isso, pelo contrário, a validação política vem justamente de mostrar que o governo está fazendo um esforço de aproximar as expectativas locais daquelas de países com melhor desempenho no Pisa.

O processo de construção da BNCC é a cara do Brasil: zero compromisso com a cultura acadêmica, com a excelência educacional – principalmente a pública – e um desejo bem forte de manter os pobres “no seu lugar”. Imagine se é possível no Brasil uma concertação para que todas as pessoas de 4 a 17 anos, independente de sua origem social, aprendam aproximadamente a mesma coisa. . . o Brasil deixava de ser o Brasil!

Nasce, então, o protótipo de um documento que deveria regular todo o funcionamento do setor educacional brasileiro. Da formação docente às editoras, do funcionamento das escolas à seleção de professores. É óbvio que um documento realmente sério seria incômodo demais para nossa sociedade conservadora, hierárquica e direcionada para benefícios de curto prazo.

Vamos recordar que o início do processo de construção da BNCC foi conduzido pelo Ministério da Educação de um governo populista, com ampla base de apoio dos sindicatos e dos intelectuais orgânicos da academia educacional, que não têm o menor compromisso com a educação em si, mas sim com a derrubada do capitalismo e outras conquistas que imaginam ser mais vantajosas. Para eles, determinar que todos os brasileiros, em particular os mais pobres, possam aprender o suficiente para pensar por si mesmos é uma possibilidade perturbadora. Não há fórmula melhor para melar o processo de cara que construí-lo supostamente “de baixo para cima” em um contexto no qual não só não se conhecem as referências internacionais de qualidade (incluindo Cuba –  :o), mas onde também não se lê em inglês, para poder passar a estudar a produção intelectual sobre o tema no mundo.

Por outro lado, o lado empresarial da sociedade, que não pode deixar de manter relações amigáveis com o governo que estiver no poder, formou um grupo de turismo e eventos educacionais para não incomodar ninguém. Obviamente, não foi capaz de produzir sequer um contraponto de peso às barbaridades que foram sendo construídas nas diferentes versões da tal “base”, nome eufemístico adequado a um país que não consegue se comprometer com a educação de excelência, muito menos para os mais pobres. Temos agora a frágil BNCC, apontando para a direção certa de uma educação  escolar com patamares mais ambiciosos de aprendizado, mas muito mal escrita e sem progressão clara dos objetivos pedagógicos. Em um país que não conta nem com tradição nem com conhecimentos mínimos sobre como fazer planejamento pedagógico, seria fundamental que um documento inovador fosse mais robusto, como o de Sobral. Mas, como estamos no Brasil, melhor ficar com um pássaro na mão, que é a versão 3 da BNCC, do que não ter sequer um parâmetro novo para impulsionar mudanças nas avaliações padronizadas nacionais, que vão ser, com sorte, mas, infelizmente, o único motor possível de indução de melhorias nas expectativas de aprendizagem para os alunos brasileiros.

Vou me ater a apresentar dados para a análise do leitor apenas para dois pontos correlatos: a concepção dos objetivos pedagógicos para educação infantil e o processo de alfabetização que ocorre AINDA nesta etapa em países onde a educação é realmente levada a sério. Para facilitar o entendimento do leitor vou me concentrar em apresentar detalhes de apenas dois países, Reino Unido e França, mas coloco aqui também o link para outras referência que usamos na construção do novo currículo de Sobral.

Portugal, ensino pré-escolar e  básico:

http://www.dge.mec.pt/ocepe/node/46

http://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Basico/Metas/Portugues/pmcpeb_julho_2015.pdf

Estados Unidos, Kindergarten:

http://www.corestandards.org/ELA-Literacy/RL/K/

Ontário, educação infantil e primária:

https://www.ontario.ca/document/kindergarten-program-2016?_ga=2.110672647.385251240.1512994170-815847004.1511854163

http://www.edu.gov.on.ca/eng/curriculum/elementary/grades.html

França – escola maternal – vou deixar no original para que cada um dê a interpretação que quiser. O Google Translator dá conta de ajudar quem não domina o(s) idioma(s). O que quero mostrar é que, na França, de onde parecem partir algumas das inspirações de quem ataca a BNCC, não se tem dúvida quanto a garantir que os alunos aprendam, desde a escola maternal, a se expressar com consciência sobre as regras da língua, a consciência fonética, o princípio alfabético e a decodificação*!!! Desde os 4 anos!!!. Os grifos são meus.

* Este palavrão mitológico é regra nos países desenvolvidos. Aqui é visto como um pecado original da educação: vejam este trecho que está abaixo “il faut que les enfants se détachent du sens des mots”. Isso quer dizer “é necessário que as crianças se distanciem do sentido das palavras”. Entendido?? A descrição completa da decodificação está na segunda citação.

O link é este aqui: http://www.education.gouv.fr/pid25535/bulletin_officiel.html?cid_bo=86940

1. Mobiliser le langage dans toutes ses dimensions

Le mot « langage » désigne un ensemble d’activités mises en œuvre par un individu lorsqu’il parle, écoute, réfléchit, essaie de comprendre et, progressivement, lit et écrit. L’école maternelle permet à tous les enfants de mettre en œuvre ces activités en mobilisant simultanément les deux composantes du langage :

‐ le langage oral : utilisé dans les interactions, en production et en réception, il permet aux enfants de communiquer, de comprendre, d’apprendre et de réfléchir. C’est le moyen de découvrir les caractéristiques de la langue française et d’écouter d’autres langues parlées.

‐ le langage écrit : présenté aux enfants progressivement jusqu’à ce qu’ils commencent à l’utiliser, il les habitue à une forme de communication dont ils découvriront les spécificités et le rôle pour garder trace, réfléchir, anticiper, s’adresser à un destinataire absent. Il prépare les enfants à l’apprentissage de l’écrire-lire au cycle 2.

[…]

Commencer à réfléchir sur la langue et acquérir une conscience phonologique

Dès leur plus jeune âge, les enfants sont intéressés par la langue ou les langues qu’ils entendent. Ils font spontanément et sans en avoir conscience des tentatives pour en reproduire les sons, les formes et les structures afin d’entrer en communication avec leur entourage. C’est à partir de trois-quatre ans qu’ils peuvent prendre du recul et avoir conscience des efforts à faire pour maîtriser une langue et accomplir ces efforts intentionnellement. On peut alors centrer leur attention sur le vocabulaire, sur la syntaxe et sur les unités sonores de la langue française dont la reconnaissance sera indispensable pour apprendre à maîtriser le fonctionnement de l’écriture du français.

L’acquisition et le développement de la conscience phonologique

Pour pouvoir lire et écrire, les enfants devront réaliser deux grandes acquisitions : identifier les unités sonores que l’on emploie lorsqu’on parle français (conscience phonologique) et comprendre que l’écriture du français est un code au moyen duquel on transcrit des sons (principe alphabétique).

Lorsqu’ils apprennent à parler, les enfants reproduisent les mots qu’ils ont entendus et donc les sons de la langue qu’on leur parle. S’il leur arrive de jouer avec les sons, cela se fait de manière aléatoire. À l’école maternelle, ils apprennent à manipuler volontairement les sons, à les identifier à l’oreille donc à les dissocier d’autres sons, à repérer des ressemblances et des différences. Pour pouvoir s’intéresser aux syllabes et aux phonèmes, il faut que les enfants se détachent du sens des mots.

L’unité la plus aisément perceptible est la syllabe. Une fois que les enfants sont capables d’identifier des syllabes communes à plusieurs mots, de les isoler, ils peuvent alors s’attacher à repérer des éléments plus petits qui entrent dans la composition des syllabes. Parce que les sons-voyelles sont plus aisés à percevoir que les sons-consonnes et qu’ils constituent parfois des syllabes, c’est par eux qu’il convient de commencer sans vouloir faire identifier tous ceux qui existent en français et sans exclure de faire percevoir quelques sons-consonnes parmi les plus accessibles.

Pour développer la conscience phonologique, l’enseignant habitue les enfants à décomposer volontairement ce qu’ils entendent en syllabes orales : en utilisant le frappé d’une suite sonore, en « découpant » oralement des mots connus en syllabes, en repérant une syllabe identique dans des mots à deux syllabes, puis en intervertissant des syllabes, toujours sans support matériel, ni écrit ni imagé. Ces jeux phoniques peuvent être pratiqués en grand groupe, mais l’enseignant privilégie l’organisation en petits groupes pour des enfants qui participent peu ou avec difficulté en grand groupe. Dans le courant de la grande section, il consacre des séances courtes de manière régulière à ces jeux, en particulier avec les enfants pour lesquels il ne repère pas d’évolution dans les essais d’écriture. Pour ceux qui en sont capables, des activités similaires peuvent être amorcées sur des sons-voyelles – notamment ceux qui constituent une syllabe dans les mots fréquentés – et quelques sons-consonnes. Ces jeux et activités structurées sur les constituants sonores de la langue n’occupent qu’une part des activités langagières.

E agora, o processo de alfabetização no Reino Unido, que se dá desde a educação infantil também.

Foundation Stage – objetivos para alfabetização e escrita na Reception (4-5 anos):

Literacy
Reading: children read and understand simple sentences. They use phonic knowledge to decode regular words and read them aloud accurately. They also read some common irregular words. They demonstrate understanding when talking with others about what they have read.
Writing: children use their phonic knowledge to write words in ways which match their spoken sounds. They also write some irregular common words. They write simple sentences which can be read by themselves and others. Some words are spelt correctly and others are phonetically plausible.

Este trecho a seguir pode ser encontrado no link:

https://www.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/381344/Master_final_national_curriculum_28_Nov.pdf

During year 1, teachers should build on work from the Early Years Foundation Stage,
making sure that pupils can sound and blend unfamiliar printed words quickly and
accurately using the phonic knowledge and skills that they have already learnt. Teachers should also ensure that pupils continue to learn new grapheme-phoneme correspondences (GPCs) and revise and consolidate those learnt earlier. The understanding that the letter(s) on the page represent the sounds in spoken words should underpin pupils’ reading and spelling of all words. This includes common words containing unusual GPCs. The term ‘common exception words’ is used throughout the programmes of study for such words.
Alongside this knowledge of GPCs, pupils need to develop the skill of blending the sounds into words for reading and establish the habit of applying this skill whenever they encounter new words. This will be supported by practice in reading books consistent with their developing phonic knowledge and skill and their knowledge of common exception words. At the same time they will need to hear, share and discuss a wide range of high quality books to develop a love of reading and broaden their vocabulary.
Pupils should be helped to read words without overt sounding and blending after a few encounters. Those who are slow to develop this skill should have extra practice.
Pupils’ writing during year 1 will generally develop at a slower pace than their reading. This is because they need to encode the sounds they hear in words (spelling skills), develop the physical skill needed for handwriting, and learn how to organise their ideas in writing.
Pupils entering year 1 who have not yet met the early learning goals for literacy should continue to follow their school’s curriculum for the Early Years Foundation Stage to develop their word reading, spelling and language skills. However, these pupils should follow the year 1 programme of study in terms of the books they listen to and discuss, so that they develop their vocabulary and understanding of grammar, as well as their knowledge more generally across the curriculum. If they are still struggling to decode and spell, they need to be taught to do this urgently through a rigorous and systematic phonics programme so that they catch up rapidly.
Teachers should ensure that their teaching develops pupils’ oral vocabulary as well as their ability to understand and use a variety of grammatical structures, giving particular support to pupils whose oral language skills are insufficiently developed.

Usamos essas referências para elaborar o currículo de Sobral. Na hora de estabelecermos o processo de alfabetização, ficou claro que ele começa de forma consciente ainda na educação infantil, utilizando o método fônico. Este é um dos segredos do sucesso de Sobral, razão pela qual o Município está no topo de todas os levantamentos que levam em conta o aprendizado dos alunos. O Estado do Ceará, que vem adotando as mesmas práticas, segue o mesmo rumo. Quem quiser alcançar os mesmos resultados, precisa começar pelo mesmo lugar…

 

1984 chegou. O que fazer agora?

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair (1903-1950), escreveu seu famoso romance “1984” ao fim da Segunda Guerra. Trata-se da história de um governo autoritário que não só tudo supervisiona, mas que também é capaz de alterar a verdade para fazer com que os cidadãos se sintam à vontade em uma ditadura. O enredo parecia uma simples ficção científica inverossímil à época, mas hoje realmente chegamos à era da verdade virtual, que pode ou não coincidir com o que acontece na realidade, exatamente como é retratado no livro. Finalmente estamos percebendo o que o escritor vislumbrou há 70 anos: que a dependência da vida eletrônica e informatizada tem um lado obscuro, com impacto em todas as áreas de nossas vidas, inclusive na política.

A parte boa nós já aproveitamos no dia a dia e é a que chega mais fácil à nossa atenção.

Os brasileiros ainda estão mais deslumbrados com o piscar dos aparelhinhos e com as facilidade que eles trazem à vida de cada um, do que apavorados com a possibilidade de perderem, voluntariamente, sua liberdade de expressão e de pensamento. Mas já há muita gente no mundo refletindo sobre como lidar com os problemas criados pela existência da internet e dos dispositivos que conectam quase toda a humanidade a ela, minuto a minuto. O mais importante, que é o que gostaria de lembrar hoje, cada click, cada like conecta você, seus alunos e filhos, AOS CONTROLADORES da Internet. Eles são Facebook, Google e Amazon, principalmente, as multinacionais Big Brother da atualidade. Além delas, governos, o seu e o de outros países. O autor do blog que apresento a seguir, John Naughton, mostra na sua Tese #9 que as maiores empresas da internet ficam com tudo o que interessa e que não há espaço para concorrência no mundo dos algoritmos, uma vez que sua utilidade depende justamente do volume concentrado de dados para processamento. Sem a ajuda dos governos, o sistema todo não funciona…

Então, o que diz o blog, cuja leitura atenta recomendo fortemente?

95theses.com.uk é uma iniciativa muito interessante e instrutiva criada pelo Professor John Naughton professor e jornalista, que participa dos projetos Conspiração e Democracia (Conspiracy and Democracy) e Tecnologia e Democracia (Technology and Democracy) da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

Assim como Martinho Lutero criou, em 1517, sob a forma de panfletos, as 95 teses que viralizaram pelo mundo de então com a tecnologia inventada por Guthemberg, mudando o curso da história ocidental, o Prof. Naughton criou um blog com 95 teses sobre tecnologia explicando vários aspectos interessantes sobre o tema. Destaco 5 deles para uma primeira reflexão, principalmente relacionada à tecnologia para a educação:

Tese #6 – Os smartphones, além de ser divertidos, são um instrumento de vigilância e controle:

O smartphone é o exemplo mais vívido disponível de como a tecnologia pode ser – simultaneamente – tanto boa quanto ruim, habilitando e desabilitando, inspirando e desiludindo. As capacidades técnicas dos telefones modernos são formidáveis e a engenhosidade dos aplicativos que aproveitam esses recursos são muitas vezes impressionantes. Mas, ao mesmo tempo, os smartphones também são dispositivos de vigilância feitos pelo demônio – máquinas caça-niqueis de bolso, que usam chips de GPS para rastrear todos cada movimento, clique, deslize e agito. E alguns dos aplicativos que funcionam neles são dispositivos feitos sob medida para perseguição, bullying, assédio e roubo – ao ponto que os pais que fornecem smartphones a crianças pequenas deveriam ser processados por negligência.

Tese #8: seu filminho na Netflix contribui para o aquecimento global

No momento (2017), esse ecossistema digital absorve cerca de 7% do consumo mundial de eletricidade. Prevê-se que aumente para 12 por cento até 2020 e deverá crescer anualmente em cerca de 7 por cento até 2030 – o que é o dobro do crescimento antecipado do fornecimento de eletricidade no mesmo período.

[…]

O que podemos fazer para reduzir nossa pegada de carbono online? Reduzir o consumo de filmes on-demand é provavelmente a melhor aposta. O streaming de vídeo é um tremendo driver do uso da nuvem e do tráfego de dados. Ele representou 63% do tráfego global de internet em 2015, e deverá atingir 80% até 2020. Netflix sozinho já representa mais de um terço do tráfego de internet na América do Norte e está se expandindo em todo o mundo.

Tese #10: o modelo de negócios da internet é vender os dados que os usuários entregam de graça para as empresas e elas fazem isso com a ajuda dos governos

Sobre essa tese, leiam a entrevista da Presidente da IBM nas Páginas Amarelas da Veja desta semana (Veja 2557 de 22 de novembro de 2017). Leiam as respostas de Ginni Rometty às perguntas sobre a estratégia da IBM e sua interação com o Governo desde muito tempo.

“É assim que o Google ganha dinheiro. Os dados são coletados pelas corporações como um subproduto do que fazem. As empresas de telefonia fazem isso. As empresas de cartão de crédito o fazem. Os bancos o fazem. E o governo também quer esses dados ” [citando o especialista em segurança Bruce Schneier].

Onde o governo não pode coletar os dados em si, ele conta com as empresas. Às vezes, as empresas os dão de bom grado (embora menos assim desde as revelações de Edward Snowden em 2013). Às vezes elas resistem e precisam ser obrigadas por meios legais. O problema não é apenas que as empresas da Internet deviam cumprir a lei, mas que também precisam de cooperação governamental – por exemplo, afastar o que vêem como leis de proteção de dados excessivamente restritivas.

Tese #19: o técnico é político – as empresas controlam a sua vida e os seus pensamentos!

A ideia de que a indústria de tecnologia existe, de alguma forma, “fora” da sociedade sempre foi uma concepção mal elaborada, mesmo quando a indústria estava em sua infância. Afinal, [essa tecnologia] foi construída nos bastidores do enorme investimento público em tecnologia de defesa, design de chips, redes e pesquisas realizadas em laboratórios corporativos como Bell Labs ou consultorias como a BBN. Mas em uma era em que tornou-se óbvio que o Google e o Facebook, intencionalmente ou não, influenciaram políticas e eleições democráticas, [essa concepção equivocada sobre internet independete] é realmente delirante. Chegamos ao ponto em [que devemos reconhecer que] que quase todas as questões “tecnológicas” criadas pelas cinco empresas gigantes de tecnologia também são um problema político que exige respostas políticas e possivelmente legislativas.

Tese #20: o Facebook não é um espaço público, é uma plataforma controlada por uma multinacional americana

Os usuários da Internet parecem pensar que o Facebook e outras mídias sociais (por exemplo, o Twitter) são como o Speaker’s Corner de Londres – um espaço no Hyde Park de Londres, onde é permitido falar,  debater e discutir publicamente, no qual os oradores podem conversar sobre qualquer assunto, desde que a polícia considere que seus discursos não infringem nenhuma lei.

Na superfície, as plataformas de redes sociais podem parecer assim. Mas não são. Elas são POPS (Privately-Owned Public Spaces) – Espaços Públicos de Propriedade Privada. Os proprietários têm o poder de decidir o que é ou não é permitido, e seus algoritmos determinam quais tipos de fala se disseminam. As revelações sobre o papel do Facebook e do Google nas eleições presidenciais dos EUA de 2016 são chocantes, em parte porque eles mostram como as empresas não usaram esses poderes e, em vez disso, permitiram que suas plataformas fossem “manipuladas” por atores políticos. Então, em vez de imaginar que o Facebook seja um palanquinho de oradores on-line, imagine-o como um shopping center com guardas de segurança preguiçosos e incompetentes.

Bom, e o KIKO? O que este blog sobre política educacional tem a ver com isso?

Há muita gente querendo vender tecnologia para as escolas, principalmente para as escolas públicas, onde estão não só os grandes orçamentos de compras centralizadas pelos governos federal, estaduais e municipais, mas também os alunos e as famílias mais vulneráveis. A maior parte dessas empresas não quer ajudar as crianças a aprender mais, mas apenas ter acesso às bases de dados que esses milhões de consumidores do futuro podem gerar e como elas poderão conhecê-los para poder influenciá-los agora e sempre.

Eu imagino que em alguns anos, a tecnologia também será um instrumento de opressão dos mais vulneráveis e de exacerbação das desigualdades. Já vimos isso depois da Primavera Árabe: os governos controlam as empresas que controlam a internet e também já criam as suas próprias plataformas. Enquanto as pessoas com nível educacional econômico mais alto vão aprender a se proteger das empresas e governos mal intencionados na internet, as com menos informação e recursos tornar-se-ão presas fáceis. Não só entregando todas as suas informações de graça sem saber como serão usadas, mas sendo altamente influenciadas por eles, além de desaprender a fazer muitas coisas importantes com seus cérebros e corpo.

Assim, gostaria de sugerir dois itens para reflexão sobre internet nas escolas, públicas e privadas: o filme Wall-E (Disney, Pixar) que mostra um robozinho que salva a humanidade dessa armadilha de preguiça de fazer e de pensar, que é a internet, dispositivos e aplicativos, e o próprio livro de Orwell, “1984”. São reflexões profundas a respeito do uso da tecnologia contra os próprios seres humanos e são acessíveis aos jovens (se eles souberem ler e tiverem vocabulário). Há ainda “Black Mirror” e “13 Reasons Why”, mas esses estão na Netflix e consomem muita energia para termos acesso a eles!!