Autor Arquivo: Ilona Becskeházy

Ouvinte atento achou uma edição traduzida da Taxonomia de Bloom para LP

Aqui vai o link para a Estante Virtual.

https://www.estantevirtual.com.br/livros/benjamin-s-bloom-e-outros/taxionomia-de-objetivos-educacionais-1-dominio-cognitivo/716357273

Procuramos exaustivamente por essa tradução durante a produção do currículo de Sobral e dei mais uma busca hj antes de escrever o post. Mas não surgiu em NENHUMA busca. Nada como ter uma audiência qualificada para melhorar o nosso conteúdo. Obrigada!

A Taxonomia de Bloom e a construção dos currículos

No dia 23 de março o Ministério da Educação anunciou a formação de um Comitê Nacional de Implementação da Base Nacional Comum Curricular será, formado por membros titulares do Ministério da Educação (MEC), do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime).

O Comitê terá as seguintes funções (Art. 3º) :

I – propor debates, eventos e ações relacionados com a implementação da BNCC pelas redes de ensino e escolas;

II – estipular definições, orientações e diretrizes para a condução das ações conjuntas do MEC, do Consed e da Undime, com vistas à implementação da BNCC; e

III – convidar especialistas para discutirem temas específicos relativos aos desafios da implementação da BNCC.

Que bom né? Mas bom mesmo será ver que a dinâmica de produção curricular no Brasil mudou. Acho difícil, mas torço. Não sabemos se a lógica vai mudar. Não mudando, não muda o produto final: os alunos brasileiros sempre perdem para seus colegas de países desenvolvidos.

O processo de construção da BNCC foi truncado desde o início. De um lado, tínhamos, desde a LDB, portanto, desde 1996, uma certa leniência para estabelecer padrões de ensino para o Brasil alinhados com padrões internacionais de países mais desenvolvidos. Isso, apesar de contarmos com a bússola Pisa desde 2000. Pelo menos, foram elaborados os Parâmetros Curriculares Nacionais, melhor que nada, mas acanhados e muito pouco claros. Durante todos esses anos, enquanto os países desenvolvidos estudavam e aprimoravam os mecanismos curriculares que compõem um documento curricular competente, tais como a clareza na escrita das habilidades, a melhor forma de estabelecer a progressão explícita do aprendizado e a incorporação das pesquisas sobre como os alunos aprendem na estrutura curricular, o Brasil fazia política rastaquera com o tema.

A elite econômica e intelectual brasileira, como sempre, deu sua inestimável contribuição para salvar manter os pobres (nesta questão, os não pobres também) na ignorância: de um lado, o grupo da elite ligado à iniciativa privada esmerou-se na arraigada prática de transformar uma necessidade de política de interesse público em interesses privados, acumulando milhas de companhias aéreas, palpitando nos enormes desafios das autoridades do governo sem botar dinheiro novo e substancial nosproblemas, organizando eventos cheios de tecnologias e compartilhando likes. De outro, a elite dos funcionários públicos de alto escalão, nesse caso representada pelos acadêmicos da educação, dedicaram-se a sabotar a existência do próprio documento. Como já não pegava bem posicionar-se contra um currículo nacional, uma vez que a maior parte dos estados já tinha o seu, resolveram sabotar o processo com tumultos ideológicos, brigas irrelevantes e argumentos toscos.

Assim, nasceu um documento com alguns méritos técnicos sim, mas celebrado publicamente apenas porque tinha sido fruto de ampla consulta. Como sabemos, só se pergunta algo para se saber o que ainda não se não se sabe: neste caso, era inútil perguntar para professores brasileiros como fazer um currículo. As consultas foram muito bem utilizadas para tumultuar o processo. Depois que o processo de produção ficou mais organizado e honesto, a equipe passou a consultar documentos de países desenvolvidos, além de algumas produções locais que, embora frágeis, iam na direção certa, a tal consulta pública virou apenas o que deveria ser: uma narrativa.

Um dos argumentos para sabotar a elaboração de um currículo nacional era o de que o currículo “amarra” os professores. Onde? com o quê? Para quê? A questão é que é a FALTA de um currículo bem estruturado amarra. Amarra muito. Tanto professores, quanto alunos, à ignorância e à incapacidade de compreender o mundo!

Uma das barbaridades que fizeram com a BNCC foi estabelecer o processo de alfabetização de maneira equivocada e atrapalhada. Outra, que contaminou todo o currículo, foi ter usado muito mal a forma de escrever as habilidades. É impossível montar um plano de estudos para uma rede ou escola a partir da BNCC. Daí a necessidade de um comitê para controlar a REESCRITA da BNCC no nível das redes estaduais e municipais.

Explicando.

Apesar de o MEC apresentar, na pg. 29 da BNCC, quais são os componentes para se elaborar uma habilidade = VERBO, COMPLEMENTO E MODIFICADOR (OU CONTEXTO), o próprio não seguiu essa fórmula:

As habilidades expressam as aprendizagens essenciais que devem
ser asseguradas aos alunos nos diferentes contextos escolares. Para
tanto, elas são descritas de acordo com uma determinada estrutura,
conforme ilustrado no exemplo a seguir, de História (EF06HI14).

Diferenciar escravidão, servidão e trabalho livre no mundo antigo.

Verbo(s) que explicita(m) o(s) processo(s) cognitivo(s) envolvido(s) na habilidade. Complemento do(s) verbo(s), que explicita o(s) objeto(s) de conhecimento mobilizado(s) na habilidade. Modificadores do(s) verbo(s) ou do complemento do(s) verbo(s), que explicitam o contexto e/ou uma maior especificação da aprendizagem esperada.

Assim, sabemos que, para Língua Portuguesa com certeza e, em parte para Matemática, a BNCC propõe um ensino mais ambiciosos para os alunos do Brasil até o 9º ano, mas não sabemos ainda como exatamente isso será feito em sala de aula.

O principal desafio para elaborar fazer um currículo competente é conseguir que todas as milhares de habilidades necessárias para compô-lo sigam a estrutura acima. Para tal, é preciso tempo para colocar a massa cinzenta de seus elaboradores para funcionar de maneira rigidamente disciplinada. O MEC não teve tempo, pois a equipe que se propôs a usar essa fórmula foi a que entrou com a mudança de comando no Governo Federal, que sabia que tinha pouquíssimo tempo para arrumar a casa.

Outro desafio é conhecer bem e utilizar os mecanismos curriculares. Para conhecê-los também é preciso tempo. Tempo de estudo árduo, para recuperar o que foi perdido nas últimas décadas, enquanto os docentes e gestores de países desenvolvidos conversavam entre si, faziam pesquisa educacional relevante, incorporada à sala de aula, aos currículos e aos rubrics.

Vou explicar um deles hoje: a Taxonomia de Bloom. A Taxonomia foi publicada em 1956 a partir de estudos de Psicometria por um grupo de pesquisadores das Universidades de Chigago e Michigan. Já basta para explicar porque os educadores brasileiros nunca se preocuparam em ler, traduzir ou estudar a fundo esse conjunto de obras seminal para a produção curricular e para os estudos de avaliação de aprendizagem, simplesmente a base de uma “nova” área da ciência da educação. Ora, era obra de porcos capitalistas, de imperialistas ianques que sempre estão à espreita para dominar as cabeças férteis dos brasileiros. É o típico argumento que eu classifico como cafonice educacional: muuuuito fora de moda…

Enquanto isso no Brasil, a referência para ensinar os alunos é Bourdieu e Paulo Freire. Cada povo tem a elite educacional a as referências bibliográficas que merece. Não proponho descartá-los sem lê-los. Proponho lê-los com atenção para poder colocá-los em seu devido lugar. Cada um escolhe onde as aplicar, desde que não seja no currículo.

Voltemos à Taxonomia. Vou ficar com a original. Para entender direitinho do que se trata, sem ter que ler o original, proponho este texto aqui:

FERRAZ, Ana Paula do Carmo Marcheti; BELHOT, Renato Vairo. Taxonomia de Bloom: revisão teórica e apresentação das adequações do instrumento para definição de objetivos instrucionais. Gest. Prod.,  São Carlos ,  v. 17, n. 2, p. 421-431,    2010 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-530X2010000200015&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  26  Mar.  2018.  http://dx.doi.org/10.1590/S0104-530X2010000200015.

Mas se quiserem ler o original, JAMAIS traduzido para o Português do Brasil, aqui vai a referência:

BLOOM, Benjamin Samuel et al, Taxonomy of educational objectives: the classification of educational goals Handbook I: Cognitive Domain, London: Longman, Green and Co., 1956.

Bloom e seus colegas propuseram seis níveis de aprendizado visível, ou mensurável que deveriam ajudar a estruturar currículos e atividades pedagógicas. São eles, na ordem do menos para o mais sofisticado:

  1. Conhecimento
  2. Compreensão
  3. Aplicação
  4. Análise
  5. Síntese
  6. Avaliação

Essa Taxonomia deve ser usada de acordo com o objetivo pedagógico e com o conceito inerente à disciplina que se quer trabalhar com o aluno. Em Matemática, a progressão se dá de forma diferente da que ocorre com compreensão textual, por exemplo. Em Matemática, a progressão segue muito o conteúdo em si. Por exemplo, para aprender fração, o aluno precisa conhecer os números, compreender o significado de quantidade e de categorias de coisas, objetos concretos, pois as operações Matemáticas se dão entre itens iguais. Não se divide laranjas por bananas. Em geral o aprendizado da Matemática na escola vai até o nível da aplicação, enquanto que, na compreensão textual, pode-se ir com o aluno até os níveis mais abstratos ou elevados de cognição, desde a educação infantil. É isso que forma um cidadão crítico, reflexivo e assim por diante.

Vejamos.

A história da Chapeuzinho vermelho que todos conhecemos, é trabalhada com as crianças desde a educação infantil. Vamos aplicar a Taxonomia de Bloom à história da Chapeuzinho:

  • Conhecimento – identificar a informação explícita no texto: qual a cor da capa da Chapeuzinho?
  • Compreensão – inferir informação não explícita no texto: o que a mãe da Chapeuzinho estava fazendo logo antes de chamar a filha para levar a cesta de piquenique para a avó?
  • Aplicação – identificar características sistemáticas de maldade de uma pessoa: como sabemos que uma pessoa é má como o Lobo Mau? Toda pessoa feia ou estranha é má? Todas as pessoas lindas e arrumadinhas são boas?
  • Análise – identificar e decompor a questão principal da história (uma menina que se expõe ao perigo porque não obedece à mãe), para recompô-la: reconte a história trocando a parte que a Chapeuzinho resolve acreditar no Lobo, ao invés de seguir o conselho da mãe, por um comportamento ou situação alternativa.
  • Síntese – elaborar uma nova proposta de solução para o caso da avó da Chapeuzinho que foi comida pelo Lobo: analisar a sequência de eventos e perceber o que pode ser mudado para que a avó não termine na barriga do Lobo Mau e o que fazer se tudo der errado, sem ter chamar o Caçador para matar o Lobo.
  • Avaliação – comparar a história da Chapeuzinho com outras como João e Maria e os Três Porquinhos: quais as soluções que se pode dar para se livrar para sempre de algo mau, sem ter que matar cada Lobo ou Bruxa?

O problema é que nossos professores e livros didáticos só trabalham os textos com os alunos até o nível 2, a partir de uma alfabetização muito precária, que não leva em conta os métodos mais eficazes utlizados no mundo todo. Assim, nunca chegaremos ao nível de aprendizado dos alunos de países desenvolvidos. Não porque não gastamos como eles, mas porque não fazemos as mesmas perguntas desafiadoras que seus professores fazem aos alunos…

 

“”Caça”” aos alunos que estão fora da escola com ajuda da tecnologia e do TCU

No dia 7/2 conversei no CBN Madrugada com a Andreia Ferreira, âncora do Programa, sobre educação (óbvio). O tema era um relatório do TCU sobre a universalização da Educação Infantil, de 16 de dezembro de 2017:

“Relatório de auditoria de Fiscalização de Orientação Centralizada (FOC) para avaliar, sob aspectos operacionais, ações governamentais relacionadas ao acesso à educação infantil (Meta 1 do Plano Nacional de Educação), com foco no Programa Nacional de Reestruturação e Aquisição de Equipamentos para a Rede Escolar Pública de Educação Infantil (Proinfância) e na transferência de recursos financeiros da União para os municípios e o Distrito Federal com a finalidade de prestar apoio financeiro à manutenção de novos estabelecimentos públicos de educação infantil (EI Manutenção).”

Eu resolvi falar novamente sobre o tema no Missão Aluno e trazer aqui para o blog, porque é um assunto de alta importância e as referências que trago aqui (o relatório do TCU e a inciativa do Instituto Tim) são muito importantes para os diretamente interessados no problema.

O relatório faz recomendações muito bem detalhadas e determina “que os Ministérios da Educação e do Desenvolvimento Social, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e a Casa Civil da Presidência da República encaminhem ao TCU, no prazo de 90 (noventa) dias, ou seja, até 16/3/2018, um plano de ação para implementação das recomendações, informando prazo e unidade responsável pela implementação de cada recomendação considerada conveniente e oportuna e justificativa para a não implementação de cada uma considerada não conveniente ou não oportuna.”

Assim, para quem trabalha nas Secretarias de Educação dos Municípios, a leitura do relatório é essencial. Mesmo quem está com a demanda atendida, a leitura do relatório permite uma visão bem clara e articulada do desenho da política de universalização da educação infantil. A Relatora, Ana Arraes, comenta inclusive que a expansão do atendimento deve levar em consideração as previsões de população para cada faixa etária e diz, textualmente:

Vive-se uma delicada situação fiscal nos estados e municípios. As dificuldades para construir e manter pré-escolas e creches é uma realidade que não pode ser desprezada. A tendência de diminuição da população na faixa etária da educação infantil, como os indicadores populacionais estão a indicar, também induzem a questionar se a construção desenfreada de unidades escolares seria a melhor solução.

Recomendando que a expansão possa ser feita em articulação com entidades de assistência social e afins, para que não se desperdice os parcos recursos públicos na construção de prédios que poderão tornar-se desnecessários ou superdimensionados em um futuro próximo.

A auditoria do TCU teve como foco a investigação sobre três processos principais envolvidos na universalização da educação infantil: (i) busca ativa [ por alunos que ainda não estão matriculados]; (ii) redução da diferença de acesso a creche entre as crianças mais pobres e mais ricas [o que reforça a necessidade do item anterior, dados que as crianças de famílias mais pobres e vulneráveis são as que têm maior probabilidade de ficar fora da escola]; e (iii) acompanhamento da frequência escolar das crianças beneficiárias de programas de transferência de renda [não basta matricular…].

Aí vemos como a situação dos municípios é desafiadora, para não dizer difícil mesmo. Além da enorme responsabilidade de prover os serviços de creche, educação infantil e pelo menos o fundamental até o 5º ano, não pode deixar ninguém de fora, tem que focar nas famílias mais pobres, que à vezes, por razões diversas, nem mandam seus filhos para a escola e lidar com todo o tipo de problema que gerir uma rede escolar gera.

Acho que precisamos ser mais solidários com Prefeitos de cidades pequenas e com menores recursos para fazer com que a educação das crianças seja vista realmente como um problema de todos, e não apenas do setor público, do chefe do Poder Executivo local.

Em relação a isso, encontrei no mesmo relatório uma solução muito interessante elaborada em conjunto pelo Instituto Tim e pela Unicef. Trata-se do site: Busca Ativa É um portal de conteúdos sobre busca ativa de alunos fora da escola, com muita informação útil e desenhos de soluções para ajudar as prefeituras a “caçar alunos” para levá-los, não à força, mas com força e com vontade para as escolas, todos os dias do ano.

O fluxo da Busca Ativa Escolar funciona assim:

  1. A plataforma mobiliza a rede de profissionais do setor público que atua em campo (assistentes sociais, agentes de saúde, conselheiros tutelares etc.). Esses profissionais identificam as crianças fora da escola e o motivo por que isso acontece, e registram esses alertas no sistema por meio de SMS, aplicativo ou da interface web.

  2. Cada caso é atribuído a um técnico, que vai a campo e faz uma pesquisa aprofundada sobre a criança e sua família.

  3. As informações coletadas são encaminhadas a grupos solucionadores – que atuam para resolver o problema que impede a criança de ir à escola – para que a criança seja (re)matriculada.

  4. Ela será acompanhada durante todo o ano letivo, para garantir sua permanência na sala de aula.

Para não levar gato ao invés de lebre

Reportagem de capa do Jornal O Estado de S. Paulo deste domingo, 7/1/2018, aborda uma tendência que se consolida no mercado educacional brasileiro para a educação básica: a super segmentação dos nichos de clientela, para exploração máxima de cada perfil de renda. A reportagem da Jornalista Renata Cafardo mostra em maiores detalhes um desses nichos, que é o que visa captar a clientela de altíssima renda, disposta a pagar mais de R$5.000 por mês pela escola de cada um de seus filhos, gastos em geral acrescidos de outras despesas complementares como taxas de “luvas” não reembolsáveis e aulas extras.

Todas elas, sem exceção, jogam forte com recursos de marketing educacional que incluem sempre, pelo menos, os seguintes itens:

a) ensino da Língua Inglesa em paralelo com a Língua Portuguesa;

b) uso massivo de tecnologia desde o início da escolarização;

c) instalações modernas, com alto investimento em arquitetura e design;

d) nomes esdrúxulos de práticas educativas que constituem o seu “diferencial mercadológico”;

e) a contratação de professores, coordenadores e diretores de escolas tradicionais e famosas.

Mas, da mesma forma que somos frequentemente enganados por recursos de marketing de “sofisticação” como lojas lindas, de design arrojado (lojas âncora em shoppings, ou “flagship stores”, por exemplo), que, paradoxalmente, vendem produtos altamente industrializados e de massa, muitas vezes produzidos em condições desumanas inaceitáveis em países desenvolvidos, desde o século passado, podemos ser ludibriados por escolas.

Soa terrível, não? A escola, que é uma instituição ainda respeitada no Brasil, pelo menos como conceito, entrar na corrida para sugar o máximo de seu dinheiro, entregando muito pouco em troca é uma imagem incômoda. Tão incômoda como aquela sensação desagradável de ter sido feito de trouxa depois de pagar a conta em algum restaurante da moda, que junta recursos previsíveis como design minimalista (e barato) com garçons de ar blasé, que falam difícil e parecem saídos de agências de modelo, mas que não sabem servir à mesa sem errar seu pedido, com discrição e gentileza.

Bem, ninguém está livre de passar por isso com a escola de seu filho. Não é que seja novidade: escolas privadas pseudo moderninhas também passem a mão na sua grana e ensinam muito pouco a seu filho,  a ponto de você descobri-lo cometendo erros crassos de ortografia e de construção de frases no 8º ano e pensar: onde foi que EU errei? A novidade é que agora essa competição pela sua suada renda disponível e pela sua desesperada propensão a gastar com educação para salvar seu filho do desemprego no futuro está sendo operada por empresas grandes, com grande potencial de consolidação de mercado (ou seja, comprar a concorrência sob o olhar complacente do CADE) e ações agressivas de marketing.

Diferentemente dos hambúrgueres, cuja qualidade hoje em dia qualquer brasileiro é capaz de julgar para fazer uma análise mínima de custo vs. benefício, educação escolar formal de qualidade é um produto praticamente desconhecido aqui no Brasil. Mesmo as famílias de altíssima renda, com raríssimas exceções, não têm ideia do que seja um ensino de qualidade a partir de um currículo acadêmico rigoroso. Os critérios networking + instalações são o que contam mais – a escola, na cabeça da maior parte das famílias, não se diferencia muito de um clube. Quanto mais caro e seletivo, melhor, e se for bonito, com boas instalações esportivas, tudo resolvido.

O que está acontecendo?

Empresas educacionais nacionais e estrangeiras, de conglomerados ou não, resolveram explorar o mercado de serviços educacionais brasileiro. Esse mercado educacional esteve, durante bastante tempo, praticamente restrito à produção editorial para livros didáticos vendidos no varejo ou para o gigantesco programa de distribuição de livros do governo federal (PNLD). Muitas dessas empresas entraram na área de serviços educacionais pela porta do ensino superior e agora exploram o vácuo deixado pela educação pública de péssima qualidade.

As famílias, desesperadas por vislumbrarem os empregos de seus filhos irem para o ralo por falta de uma educação de qualidade, topam pagar o máximo que sua renda permitir para salvar seus filhos de um futuro incerto. A questão é que o contexto brasileiro é muito propício para a enganação porque as famílias não têm a menor ideia do que significa uma educação de qualidade, o governo federal e os estaduais são, em geral, politicamente frágeis e tecnicamente despreparados para regular a qualidade e as empresas educacionais, ao contrário, são super competitivas e competentes: vão lhe tirar o máximo e vão lhe dar o mínimo…

Por quê?

O que faz a educação de qualidade é a combinação de itens muito caros como professores muito bem formados para dar aulas e monitorar o aprendizado dos alunos, um currículo detalhado e exigente e material de excelente qualidade, que faça os alunos trabalharem MUITO.

Nenhuma das empresas oferece isso, exatamente porque esses componentes custam caríssimo e obviamente diminuem suas margens de lucro! Do mesmo jeito que comemos 15 gramas de carne seca com abóbora no restaurante chique e pagamos preço de lagosta, podemos comprar o acesso a prédios lindos e Ipads, sem levar para casa os outros itens que realmente importam. A lagosta é mais rara de ser encontrada, pescada, transportada e conservada que o charque, mas se as firulas estiverem no lugar certo, nós pagamos charque a preço de lagosta. Da mesma forma, em particular no Brasil, professores bem preparados e material de alta qualidade quase não existem, portanto, são caríssimos. Por isso é comum o truque do jabá com jerimum a preço de Termidor: muitos alunos por professor, muita tecnologia idiotizante para não precisar investir em acervo físico e no uso realmente desafiante dos cérebros e do tempo dos alunos na escola.

Então como saber o que observar nas escolas caras, para não levar algo que não vai fazer com que seu filho seja realmente competitivo, mesmo que o preço seja caro:

1) número de alunos por turma: escola cara não pode ter mais que 10/15 alunos por turma na educação infantil, e 20 no fundamental, já com 2 professores na sala para garantir um ensino altamente individualizado, uma das características da educação de qualidade;

2) professores formados ou com alguma experiência séria (graduação, mestrado ou doutorado) em instituições de renome em países desenvolvidos;

3) tecnologia NÃO PODE SER O CENTRO DA EDUCAÇÃO, o foco é o desenvolvimento do cérebro do SEU FILHO e não o bolso das empresas criadoras de apps educacionais que em geral só deixam seu filho preguiçoso;

4) a arquitetura só ajuda se for para ter salas de aula amplas, que possibilitem aos professores circular entre os alunos enquanto eles trabalham, para observar e auxiliar seu aprendizado;

5) vá visitar a biblioteca real, de livros de papel e tinta: veja a variedade, quantidade, qualidade e a disponibilidade de títulos PARA CADA SÉRIE, começando pela educação infantil.

6) Por fim, o mais importante: o currículo. De onde foi que saíram os objetivos pedagógicos de cada ano, semestre, mês e aula? Quem controla, como esse currículo se compara com o da Inglaterra, França, Portugal e Alemanha? Em que ano seu filho vai aprender fração, estatística, vai fazer uma redação argumentativa do tipo da que cai no ENEM e na Fuvest? Como é feito o acompanhamento da produção escrita dos alunos?

Isso sim vai ajudá-lo a escolher a melhor escola que seu dinheiro pode pagar. Não tenha medo de perguntar, é seu direito como consumidor!

Normalmente, quando o resultado final de uma educação privada e cara não funciona, colocamos a culpa nos alunos, que são preguiçosos, malandros, o que pode até ser o caso. Ninguém pára para pensar que o problema pode estar na escola, e não na sua casa. Uma certa síndrome de vira-latas nos impede de ir lá e confrontar o super chef tatuado e uberizado, ou o Diretor de uma escola super cara. É o mesmo constrangimento que nos impede de ir à escola e pedir para que seu filho aprenda conceitualmente o Teorema de Pitágoras e a lista das preposições, ou que seja alfabetizado na idade certa. Cai mal, dá uma vergonha…SQN: é seu direito!

Habemus curriculum!

Finalmente, parece que o Brasil terá seu currículo nacional.

Embora a maioria dos estados brasileiros e mesmo alguns municípios já contem com o seu, para o bem da equidade (e da vergonha na cara governamental) temos que ter um documento normativo nacional que aponte o que os alunos brasileiros têm direito de aprender na escola em cada etapa.

A maior parte dos documentos já existentes brotou no jabuticabal educacional brasileiro: parte-se do que já se faz, mesmo que o sistema educacional brasileiro seja um dos  piores do mundo.

A bncc começou muito mal, mas sua versão final, a ser homologada pelo ministro da educação esta semana,  não é ruim. Pelo contrário, representa uma possibilidade concreta de criar condições políticas e operacionais para que a educação brasileira avance mais rapidamente E TAMBÉM na direção certa, que nos aproxima do nivel educacional dos alunos de países desenvolvidos.

Neste último fim de semana, estudei bastante apenas a disciplina de Língua  Portuguesa. Preferia um documento mais claro e objetivo, mais competente para ajudar os docentes no planejamento pedagógico do que e como ensinar. Mas, dada a largada, a chegada até que não está mal.

Hoje estou na maior correria, não consigo detalhar muito minha análise.

Mas vamos começar pelo começo. Como ler o documento para poder entender o que está proposto la?

Vou dar uma dica para a alfabetização.

 Embora um grupo super qualificado de especialistas no assunto tenha publicado um documento com críticas detalhadas ao conteúdo específico de alfabetização que está na bncc, eu acho que a caixa preta foi aberta e o conceito de ciclo de alfabetização de três anos, exemplar exótico na nossa cultura educacional jaboticabenta, vai começar uma trajetória sem volta à cova. Está com os dias contados.

Para ler e entender o que está na bncc e formar uma opinião melhor informada sobre o tema, recomendo que leiam a V4 do nosso currículo nacional, quando homologado, APENAS depois de ler os seguintes documentos:

Relatório do Grupo de Trabalho da Câmara dos Deputados sobre Alfabetização Infantil, disponível no link abaixo:

https://www.google.com.br/url?sa=t&source=web&rct=j&url=http://bd.camara.gov.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/1924/grupo_alfabetizacao_infantil_educacao_cultura.pdf%3Fsequence%3D1&ved=2ahUKEwik0tbF4pPYAhULkJAKHfAIALEQFjAAegQIBxAB&usg=AOvVaw1rWJ3TOftBKePGbDDVYaOq

E a critica dos especialistas sobre o que está na bncc, que está no site do Instituto Alfa e Beto. O site estava em manutenção quando tentei puxar o link.

Boa leitura. Depois me contem…