Arquivos Mensais: setembro \26\UTC 2016

O conserto desastrado de artigos “maçaneta” e a histeria da reforma do ensino médio

Quando eu estava na escola, dizia-se dos jovens muito namoradeiros que eram “maçaneta”: todo mundo acha que pode passar a mão. É um termo que cola atributos pejorativos como vulnerabilidade ou volubilidade em alguém que se deixa desfrutar por outrem. Os artigos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira que tratam de conteúdo (Arts. 26 e 36) podem ser considerados “maçanetas”: muita gente querendo pegar carona no que se ensina às crianças e jovens nas escolas brasileiras. Com 30 milhões de consumidores compulsórios de conteúdos previstos em lei, é uma tentação difícil de resistir (como você vai ler abaixo, nem o MEC resistiu…). Foram principalmente esses os artigos alterados pela MP da semana passada (mas não os únicos, leia até o fim do post, por favor).

Vejamos um exemplo – o enunciado do artigo 26º

Art. 26. Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela.

Art. 26.  Os currículos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio devem ter base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos. 

Repare que o texto foi mudado (em 2013) apenas para trocar a palavra CLIENTELA por EDUCANDOS. Ou seja, para marcar uma posição ideológica em relação a uma palavra. Já deu pra entender o nível de oportunismo que ronda nossos alunos por meio do Congresso Nacional, certo? Tem de tudo: são dezenas de leis com o objetivo de alterar, por força de lei, o que se ensina aos alunos brasileiros.

Um exemplo ainda mais claro de como o exíguo tempo dos alunos em sala de aula está exposto às intempéries: até o Senador Cristóvão Buarque patrocinou uma alteração na LDB para obrigar os alunos a assistirem a duas horas de filmes nacionais por mês. Ele deve ter amigos cineastas e artistas muito queridos para pagar um mico como esse. Nada contra o cinema nacional, mas a população brasileira já tem acesso a uma boa variedade de obras cinematográficas brasileiras na TV aberta, que está presente em 100% dos lares brasileiros.

§ 8º A exibição de filmes de produção nacional constituirá componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica da escola, sendo a sua exibição obrigatória por, no mínimo, 2 (duas) horas mensais.        (Incluído pela Lei nº 13.006, de 2014)

Um dos objetivos da Medida Provisória do Ensino Médio enviada ao Congresso no dia 23 de setembro último é colocar um pouco de ordem no assunto. Assim, inclui o seguinte item:

§ 10. A inclusão de novos componentes curriculares de caráter obrigatório na Base Nacional Comum Curricular dependerá de aprovação do Conselho Nacional de Educação e de homologação pelo Ministro de Estado da Educação, ouvidos o Conselho Nacional de Secretários de Educação – Consed e a União Nacional de Dirigentes de Educação – Undime.” (NR)

Entretanto, ao mesmo tempo que propôs esse mecanismo de defesa,  o MEC escorrega e entuba mais dois assuntos no ensino médio, o que mostra mais uma vez que todo mundo tem amigos influentes que quer agradar com chapéu alheio. Neste caso, a cabeça dos pobres dos alunos:

§ 5º Os currículos do ensino médio deverão considerar a formação integral do aluno, de maneira a adotar um trabalho voltado para a construção de seu projeto de vida e para a sua formação nos aspectos cognitivos e socio emocionais, conforme diretrizes definidas pelo Ministério da Educação.

Também já deu para perceber onde começa parte da histeria que tomou conta do Brasil desde a semana passada. E a culpa é do governo federal que tem sido desastrado na comunicação de suas proposições, mesmo quando elas são, como no caso desta MP, mais razoáveis e necessárias do que descabidas.

Em relação à Educação Física e a Artes, uma das fontes principais da histeria, a MP retira a sua obrigatoriedade como componente curricular APENAS PARA O SEGMENTO DO ENSINO MÉDIO. As atividades de Ed. Física e Artes não estão sendo abolidas da educação brasileira, sua relativização na hierarquia do uso do tempo do aluno e da escola é que está sendo explicitada. Abre-se espaço para algo que possa ser mais relevante na vida de adolescentes, NA ESMAGADORA MAIORIA POBRES, que estão terminando a sua escolarização (se tanto, oxalá…) para começar uma vida de trabalho, ou para seguir na direção de estudos mais especializados, em nível técnico ou superior.

§ 2º O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório da educação infantil e do ensino fundamental, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos.

§ 3º A educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular obrigatório da educação infantil e do ensino fundamental, sendo sua prática facultativa ao aluno:

Lembramos que a própria Ed. Física já é facultativa nas seguintes condições:

I – que cumpra jornada de trabalho igual ou superior a seis horas;   II – maior de trinta anos de idade; III – que estiver prestando serviço militar inicial ou que, em situação similar, estiver obrigado à prática da educação física;     IV – amparado pelo Decreto-Lei no 1.044, de 21 de outubro de 1969; VI – que tenha prole.

Mas acho que o MEC deu um sinal importante ao explicitar que as parcas horas dos alunos devem sim obedecer a uma hierarquia e que há disciplinas que são prioridade, principalmente enquanto não se universaliza o ensino integral. Podiam ter começado pelo ensino fundamental, mas o que se quer é abrir espaço para o ensino profissionalizante, inclusive com a possibilidade de o aluno ficar um ano a mais na escola! (como se vê abaixo). Essa hierarquização está absolutamente alinhada com a tendência de atenção ao essencial bem feito e aprofundado dos sistemas educacionais dos países desenvolvidos.

§ 5º No currículo do ensino fundamental, será ofertada a língua inglesa a partir do sexto ano.

§ 8º Os currículos de ensino médio incluirão, obrigatoriamente, o estudo da língua inglesa e poderão ofertar outras línguas estrangeiras, em caráter optativo, preferencialmente o espanhol, de acordo com a disponibilidade de oferta, locais e horários definidos pelos sistemas de ensino.

§ 9º O ensino de língua portuguesa e matemática será obrigatório nos três anos do ensino médio.

Abaixo a previsão de que o aluno pode ficar mais um pouco na escola para aprender ainda mais conteúdos e práticas que facilitem sua transição para uma nova etapa (como fez a Província de Ontário, no Canadá):

§ 10. Os sistemas de ensino, mediante disponibilidade de vagas na rede, possibilitarão ao aluno concluinte do ensino médio cursar, no ano letivo subsequente ao da conclusão, outro itinerário formativo de que trata o caput.

§ 11. A critério dos sistemas de ensino, a oferta de formação a que se refere o inciso V do caput considerará: I – a inclusão de experiência prática de trabalho no setor produtivo ou em ambientes de simulação, estabelecendo parcerias e fazendo uso, quando aplicável, de instrumentos estabelecidos pela legislação sobre aprendizagem profissional; e II – a possibilidade de concessão de certificados intermediários de qualificação para o trabalho, quando a formação for estruturada e organizada em etapas com terminalidade.

§ 12. A oferta de formações experimentais em áreas que não constem do Catálogo Nacional dos Cursos Técnicos dependerá, para sua continuidade, do reconhecimento pelo respectivo Conselho Estadual de Educação, no prazo de três anos, e da inserção no Catálogo Nacional dos Cursos Técnicos, no prazo de cinco anos, contados da data de oferta inicial da formação.

§ 16. Os conteúdos cursados durante o ensino médio poderão ser convalidados para aproveitamento de créditos no ensino superior, após normatização do Conselho Nacional de Educação e homologação pelo Ministro de Estado da Educação.

§ 17. Para efeito de cumprimento de exigências curriculares do ensino médio, os sistemas de ensino poderão reconhecer, mediante regulamentação própria, conhecimentos, saberes, habilidades e competências, mediante diferentes formas de comprovação, como: I – demonstração prática; II – experiência de trabalho supervisionado ou outra experiência adquirida fora do ambiente escolar; III – atividades de educação técnica oferecidas em outras instituições de ensino; IV – cursos oferecidos por centros ou programas ocupacionais; V – estudos realizados em instituições de ensino nacionais ou estrangeiras; e VI – educação a distância ou educação presencial mediada por tecnologias.” (NR)

Há ainda uma mudança no artigo 61º para incluir docentes sem formação em Pedagogia ou Licenciatura para os cursos profissionalizantes, desde que contribuam com algum “notório saber”, o que ainda precisa ser muito bem explicado.

“Art. 61. …………………………………………………………………………………………………….. …………………………………………………………………………………………………………………… III – trabalhadores em educação, portadores de diploma de curso técnico ou superior em área pedagógica ou afim; e IV – profissionais com notório saber reconhecido pelos respectivos sistemas de ensino para ministrar conteúdos de áreas afins à sua formação para atender o disposto no inciso V do caput do art. 36.

 

A OCDE e nós: a importância de lermos os relatórios e entrarmos de vez no clube

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico foi criada depois da Segunda Guerra para operar o plano de reconstrução dos países envolvidos, o Plano Marshall. De lá para cá, a instituição se consolidou com uma agência de estudos e regulação para promover o desenvolvimento econômico sustentável de seus países membros.

Adicionalmente, vem recebendo como países-membros muitas nações que nem fizeram parte do Plano Marshall, mas que desejam não só beber da mesma fonte de análise e planejamento, mas se adequar ao seu estatuto, que exige uma série de adequações de seus governos, inclusive em relação ao combate ostensivo à corrupção.

Aqui no Brasil, apesar dos convites e de toda a disposição de sua cúpula para que passemos a ser um país membro, optamos recorrentemente por ficar de fora. E não só isso, ficamos de fora e na área da educação, nos recusamos a entender o que dizem os relatórios, não estudamos o Pisa e (vergonha alheia máxima) falamos mal dele sem nem o menor conhecimento de causa.

Desde que o Brasil começou a participar do Pisa nos ano 2000, seus relatórios têm sido solenemente ignorados pelo Ministério da Educação, a não ser quando saem os rankings do Pisa ou outro relatório qualquer da instituição que aponte nossa incompetência educacional, como foi o caso da mais recente edição do Education at a Glance.

Depois de noticiar os rankings, a imprensa tem mais o que fazer e Ministério  e Secretarias da Educação vão cuidar das suas vidas. Acontece que esses relatórios existem exatamente para excitar o debate em torno de desenhos e impactos de políticas públicas educacionais. Nosso governo federal não se dá ao trabalho de traduzir e divulgar esses importantes documentos, assim como alguns dos relatórios da Unesco que seriam fundamentais para acelerar a compreensão de alguns fenômenos de política educacional, tão importantes para fazer o setor andar para a frente.

Pior ainda que o governo, que não quer colocar holofotes em suas mazelas, são as faculdades de educação, que formam docentes e gestores educacionais. Elas não só ignoram o Pisa, como se metem a falar mal dele, sem um pingo de conhecimento técnico do que eles informam e muito menos sem a menor qualificação para debatê-los à seria.

Então, sobra para nós, daqui do Blog e do Missão Aluno da CBN fazer algumas análises um pouco mais detalhadas, dentro do que está ao nosso parco alcance.

O relatório mostra algumas tendências da educação no mundo:

A educação vem se expandindo como um todo no mundo: tanto aumentam as matrículas no ensino superior, quanto a inclusão das crianças a partir dos 5 anos na educação infantil. Mas a novidade na tendência é que os países estão procurando dividir mais os custos da educação superior com as famílias para concentrar no ensino básico obrigatório – essa etapa continua como obrigação dos governos, enquanto que, cada vez menos, a etapa dos jovens adultos fica apenas na conta do governo.

A força de trabalho dos docentes está envelhecendo de maneira geral porque a profissão atrai cada vez menos candidatos jovens, o que parece serum contrassenso em um mercado que parece estar em firme expansão, não só de matrículas como de gastos!

Apesar de haver mais mulheres com diplomas de ensino superior que homens, elas continuam escolhendo carreiras em áreas como educação e saúde, dedicando-se menos que os homens às ciências e engenharia. Outra tendência interessante que o relatório traz é que há menos desemprego nos países onde os jovens estão mais expostos a cursos técnicos no ensino secundário do que naqueles, COMO NO  BRASIL, os jovens estudam em escolas de ensino generalista e propedêutico.

Algumas metas com as quais a gente deveria se comprometer e incorporar ao nosso PNE:

O relatório traz as metas para cada um dos parâmetros considerados chave para que a força de trabalho (foco da OCDE) se torne cada vez mais apta a conduzir o desenvolvimento econômico sustentável. Chamo atenção apenas para as de qualidade de ensino, nossa principal bandeira aqui do  Missão Aluno.

Até 2030 todos os meninos e meninas de 15 anos devem completar o ensino secundário, com 80% deles chegando, no mínimo, ao nível 2 do Pisa. O relatório aponta que ainda é preciso desenvolver uma escala de aprendizado para o fim da educação primária para garantir que a comparação não fica apenas para o fim da escolarização obrigatória e indiferenciada.

Até 2030, 50% dos adultos com capacidade de compreensão leitora no Nível 3 do Pisa. Essa questão é fundamental de ser compreendida pelos brasileiros, para que façam pressão nas autoridades brasileiras. O Nível 3 do Pisa requer capacidade de compreensão de textos muito mais complexos e com análise de elementos muito mais elaborada do que exigimos tanto nas escolas quanto em média nas universidades. É absolutamente urgente subirmos a a nossa barra de exigência!!

O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) desenvolvido e publicado pelo Instituto Paulo Montenegro e Ação Educativa, mostra que mesmo pessoas com formação em nível universitário não necessariamente dominam a compreensão leitora. Apesar de 62% são considerados plenamente alfabetizados, os critérios são diferentes do Nível 3 do Pisa, tanto em linguagem, quanto em Matemática. Isso nos aponta para o fato de que precisamos mudar nossos parâmetros de avaliação, pois os atuais, apesar do baixo desempenho, estão nos auto-enganando!

A seguir está o resumo do que o Inaf usa como parâmetro para fazer as suas avaliações, que não é diferente do que o próprio Governo brasileiro faz. É o Governo Brasileiro que precisa ir atrás da OCDE!! Essa decisão está mais que atrasada. A OCDE pode nos ajudar muito a encontrar a tal educação padrão FIFA que pedimos nas ruas em 2013.

Alfabetizados em Nível pleno: pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos usuais: leem textos mais longos, analisam e relacionam suas partes, comparam e avaliam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses. Quanto à matemática, resolvem problemas que exigem maior planejamento e controle, envolvendo percentuais, proporções e cálculo de área, além de interpretar tabelas de dupla entrada, mapas e gráficos.

 

 

 

 

 

Porque dizer que o problema da educação brasileira está no ensino médio é o mesmo que acreditar em Bicho Papão?

 

Vamos olhar com um pouco de calma e atenção os dados que o Ministério da Educação divulgou nesta quinta (8/9/2016) sobre o desempenho das escolas brasileiras nas provas padronizadas nacionais. Para os anos que encerram as duas etapas do ensino fundamental (5º e 9º) a prova é censitária: quase todo mundo (há umas regrinhas para participar) as tem que fazer. No ensino médio, é amostral, por isso, só temos dados no nível dos estados. Não é possível desagregar mais do que isso.

O resultado segue abaixo – falarei apenas de Língua Portuguesa, pois o desempenho é altamente correlacionado com o de Matemática. De 2005, quando foi universalizada a Prova Brasil, até 2015, a evolução das notas de Língua Portuguesa é levemente positiva, como se pode ver abaixo, por dependência administrativa. A parte cheia do copo são os 50% das escolas municipais e quase 70% das estaduais (em número bem menor, uma vez que o ensino nesta etapa é principalmente municipal), por apresentaram média acima de 200 pontos.  Obviamente a parte vazia é todo mundo que ficou abaixo desse ponto.

Isso significa que as escolas da parte cheia do copo são de padrão de país desenvolvido?? Nããããão! Porque o que se pergunta para os alunos nas provas do Brasil é bem medíocre em relação ao que se exige de seus pares naqueles países. Ideb acima de 6,0 nunca foi nota de país desenvolvido. Isso foi uma esticada feroz nos números, uma espécie de pedalada educacional do bem na hora de criar o Ideb, para motivar o pessoal a se engajar no indicador. Os 500 pontos dos países da OCDE no Pisa de 2000, que inspiraram a conta que criou o Ideb, são equivalentes ao nível 3 daquele exame. Muito acima do que sequer pensamos em cobrar de nossos alunos, mesmo ao final do ensino médio.

Voltando à Prova Brasil, o filme:

evolucao_lp_brz_rede

A observação mais atenta das estatísticas (apresentadas nas tabelas abaixo) permite achar alguns pontos interessantes. Nas 3 redes temos um aumento da média e uma diminuição do desvio padrão. Este, sinônimo de desigualdade, parece ter passado a sua pior fase. Mesmo assim, os números são muito ruins. Melhorando, mas aflitivos….

A diminuta rede federal (21 escolas em 2015), que consome muito mais recursos por aluno altamente selecionado que atende,  não é muito melhor que as milhares de escolas que formam a parte de cima do copo.

A parte de baixo do copo mostra onde começa o problema do ensino médio. Aliás, onde continua. A primeira pista de que alguma coisa vai acabar muito mal quando os alunos crescerem já aparece na ANA – a prova de alfabetização do 3º (!!!!) ano, que constata que os alunos mal aprenderam o B-A:BA aos 9 anos de idade…

-> Rede = Estadual

Variable              Obs        Mean         Std. Dev.        Min              Max

LP_AI_2005       8,331      172.84      17.6            106.63              288.65

LP_AI_2007      11,990     173.92      17.6            113.01              243.51

LP_AI_2009      11,319     183.57       20.0           116.06             294.47

LP_AI_2011       9,779      189.66      20.6           114.8                261.02

LP_AI_2013       8,614      196.96      23.1           109.00              272.70

LP_AI_2015       7,783      208.30      21.3           127.37              272.76

-> Rede = Federal

Variable         Obs             Mean                   Std. Dev.             Min       Max

LP_AI_2005           9         220.38                   16.94             190.91      248.26

LP_AI_2007          18        215.53                    18.19              179.57      249.70

LP_AI_2009          20      220.08                   25.64              135.93      252.05

LP_AI_2011          20        231.28                   16.12               194.24     259.29

LP_AI_2013          21        243.18                   14.17                212.27      265.13

LP_AI_2015          21        242.66                  11.20               218.04      266.97

-> Rede = Municipal

Variable         Obs             Mean                  Std. Dev.             Min         Max

LP_AI_2005      19,611     170.18              17.80                   107.37      258.15

LP_AI_2007      25,254     169.99             18.45                   103.67      261.57

LP_AI_2009      32,203     175.19             21.98                    107.27      286.65

LP_AI_2011      30,601     182.22             22.60                    116.78     289.46

LP_AI_2013      30,197     185.86             26.12                    104.18      295.55

LP_AI_2015      30,665     198.78             24.65                   106.06      315.74

Separando as notas dos anos iniciais de 2015 por Unidade da Federação, podemos ver que a Região onde cada uma se insere tem padrões bem uniformes de desempenho. O Estado do Ceará se destaca não só como um perfil de distribuição de notas mais próximo do perfil dos estados mais ricos, apesar de inserido em uma região pobre, mas também como a Unidade da Federação que mais contribui com escolas de alto desempenho. Um caso a se pensar.

nota_lp_2015_ai_brz_uf

Educação escolar, como se sabe, é um processo cumulativo: não se pode passar para atividades mais complexas sem que outras, mais simples, já tenham sido vencidas. Se o aluno é mal alfabetizado, já no 5º ano terá dificuldades. Isso vai piorar no 9º ano, lógico.

O aluno que fez a Prova Brasil em 2015, estava no 5º ano em 2011. Naquele ano, como se vê no primeiro gráfico, 75% das escolas municipais apresentaram média abaixo de 200 pontos. É de se esperar que aproximadamente a mesma proporção não alcance o esperado 4 anos depois…lembrando que, no 9º ano, um contingente considerável de alunos já desistiu da escola ou está muito atrasado.

evolucao_af_lp_escolas_2015_brz

E, nos estados, o padrão de distribuição de notas do 9º ano repete o do 5º, só que em um patamar absurdamente mais baixo que este.

nota_lp_af_2015_escolas_ufs

O resumo estatístico mostra que “sumiram” muitas escolas na conta e o detalhamento desses números mostra que as sumidas se concentram em SC e RS…

            Variable |       Obs        Mean      Std. Dev.        Min           Max
 MAT_AF_2005 |     18,653    238.10    18.02              180.25      354.99
 MAT_AF_2007 |     27,157    238.84    18.98              174.68      372.73
 MAT_AF_2009 |     31,886    238.89    20.832            149.87      368.90
 MAT_AF_2011 |     30,854    243.04    22.34              157.43       362.11
 MAT_AF_2013 |     30,993    241.99    21.43              165.15       389.75
 MAT_AF_2015 |     29,872    248.58   19.27               180.04       379.74

O quadro realmente vai ficando cada vez mais incômodo, até que se chega ao ensino médio e se morre de vergonha. Pelo menos, é o que se diz publicamente.

Os alunos brasileiros que chegam a fazer o Saeb ao fim do ensino médio (mais ou menos a metade dos que começaram a jornada lá na alfabetização) alcançam por volta dos 250 pontos, o que significa, segundo a escala do Mec, que eles:

  • Inferem o sentido de palavras de uso cotidiano em provérbios, noticias de jornal;
  • Inferem o sentido de expressões de maior complexidade, pelo grau de abstração;
  • Inferem o sentido em textos narrativos simples (relatos jornalísticos, historias e
    poemas);
  • Inferem o sentido de texto recorrendo a estruturas gramaticais (apelo no uso
    imperativo)
  • Identificam informação implícita em textos narrativos simples;
  • Identificam o tema de textos narrativos, informativos e poéticos;
  • Interpretam texto publicitário com auxilio gráfico, correlacionando-o com
    enunciados verbais;
  • Interpretam texto de jornal, com informações em gráficos (boletins
    meteorológicos);
  • Estabelecem relações entre tese e argumentos em pequenos textos jornalísticos
    de baixa complexidade;
  • Identificam efeito da exploração de recursos ortográficos/morfossintáticos como
    a repetição de estrutura sintática e a composição de palavras.

Não é surpresa que os alunos que foram muito mal alfabetizados 10, 12 anos antes cheguem ao ensino médio mal conseguindo interpretar um texto simples. E está claro que este não é O GRANDE desafio do Brasil, o problema central permanece sendo ter coragem para alfabetizar todas as crianças até o fim do primeiro ano do ensino fundamental e, a partir daí, construir um aprendizado cumulativo e desafiante. Vai ajudar muito se tivermos um currículo que aponte para o que se deve ensinar em cada ano, por disciplina. Mas é também uma questão de coragem. Ainda tem gente com medo de Bicho Papão, de ensino estruturado e intencional, passível de ser aferido e corrigido. O Ceará mostra que o Homem do Saco, a Cuca e as Bruxas são ótimos para se aprender realmente a ler, mas que eles não representam nada na hora de decidir as políticas públicas educacionais do Estado!

Um currículo para guiar a busca por novos caminhos

Há anos estudando exemplos, referências e a fundamentação teórica de documentos curriculares de alguns países desenvolvidos e, com base neles, fazendo comparações com alguns dos currículos produzidos no Brasil, percebemos o longo caminho que boa parte dos educadores brasileiros ainda têm pela frente em termos de 1) compreender a importância desse potente instrumento de planejamento e gestão pedagógica e 2) aceitar materializar esse tipo de documento de planejamento em suas escolas a partir de um patamar bem mais lato de rigor acadêmico.

Alguns contextos no Brasil, ainda como exemplos de mais absoluta exceção, começaram a perceber a enorme contribuição que um documento curricular bem feito pode dar para a consolidação da qualidade da educação e começaram a trilhar novas rotas mais desafiadoras. São expectativas de aprendizagem apresentadas de forma mais clara e organizada, desdobradas de forma lógica e progressiva, que permitem a toda a equipe pedagógica de uma escola ou rede definir prioridades e mobilizar os recursos adequados para concretizá-las.

A cidade de Sobral, no interior do Ceará, mais uma vez sai na frente e está em fase de conclusão de suas propostas curriculares de Língua Portuguesa e de Matemática para todo o ensino fundamental local que já foi municipalizado. O Município, que tem a melhor rede pública de ensino do Brasil*, percebeu que com sua capacidade instalada (equipe, infraestrutura e recursos materiais) poderia ir bem mais longe do que já chegou e resolveu impor-se um novo patamar de desafios pedagógicos.

O documento de Matemática já está pronto e em validação final pela rede local. O de Língua Portuguesa está quase lá. Para que outros municípios possam conhecer o mais novo trabalho da equipe de Sobral e até se animar para seguir de perto seus próximos passos, passamos a publicar aqui e na CBN alguns componentes essenciais de sua estrutura.

Hoje apresentaremos a estrutura completa dos componentes de Língua Portuguesa (eixos, subeixos e expectativas) e um detalhamento para o eixo de ORALIDADE. Comentários e sugestões são bem vindos e podem ajudar Sobral a ter um documento ainda melhor.

A estrutura:

Nível de complexidade Eixos, Subeixos e Expectativas
EIXO 1 – Oralidade EIXO 2 – Leitura EIXO 3 – Escrita EIXO 4 – Gramática
Expectativas de introdução à lógica escolar acadêmica 1.1 Consciência fonêmica 2.1 Decodificação 3.1 Sistema de escrita 4.1 Lógica da Língua
1.1.1 Desenvolver a consciência fonêmica 2.1.1 Desenvolver a consciência alfabética

2.1.2 Decodificar

3.1.1 Desenvolver as habilidades motoras finas

3.1.2 Apropriar-se do sistema de escrita

4.1.1  Incorporar, de modo funcional, as regras fonéticas e fonológicas

4.1.2 Incorporar, de modo funcional, as regras morfológicas

Expectativas instrumentais de comunicação 1.2 Apresentação e colaboração discursiva 2.2 Desenvolvimento da fluência leitora 3.2 Registro e uso de informações 4.2 Apropriação da Língua
1.2.1 Respeitar as regras de cortesia e de interação

1.2.2 Realizar apresentações orais

2.2.1 Ler com fluência 3.2.1 Organizar registros e notas

3.2.2 Registrar informações coletadas em diferentes fontes

3.2.3 Produzir pesquisa

4.2.1 Grafar palavras corretamente

4.2.2 Apreender, de modo funcional, as regras e os mecanismos de estrutura e formação das palavras

4.2.3 Incorporar a classificação das palavras e suas funções linguísticas

4.2.4 Garantir a fluência, coerência e eficácia do texto, utilizando os sinais de pontuação

Expectativas de expressão, compreensão e de autoria textual 1.3 Expressão e Compreensão oral 2.3 Compreensão leitora 3.3 Produção textual 4.3 Construção e relação de sentido da língua
1.3.1 Expressar-se de maneira efetiva nas diferentes interações

1.3.2 Compreender textos orais

2.3.1 Identificar a situação de comunicação que deu origem ao texto

2.3.2 Compreender textos escritos

2.3.3 Analisar elementos e estruturas de diferentes tipos de texto

2.3.4 Comparar textos escritos

3.3.1 Planejar a escrita de acordo com a situação de comunicação

3.3.2 Redigir diferentes tipos de texto

3.3.3 Revisar e reescrever o texto

3.3.4 Editar o texto escrito

4.3.1 Assegurar a concordância verbal conjugando os verbos corretamente

4.3.2 Compreender enunciados, sua construção e a relação entre os seus termos

4.3.3 Inferir os diversos significados ou efeito de sentido do uso de palavras ou expressões

Explicando a estrutura:

Temos os 4 eixos usuais, presentes nas referências internacionais das quais partimos, e em algumas nacionais: Oralidade, Leitura, Escrita e Gramática. É importante ressaltar que até esta ordem segue uma lógica de progressão, neste momento da esquerda para a direita, pois primeiro se aprende a falar, depois a ler e em seguida a escrever respeitando as regras de cada língua.

Depois há uma dupla lógica de progressão que se dá na leitura do quadro anterior, agora no movimento de cima para baixo e que é dada:

a) pelos três níveis de progressão cognitiva que unem os 4 eixos (Oralidade, Leitura, Escrita e Gramática) por tipo de expectativa de aprendizagem que eles apresentam: Expectativas de introdução à lógica escolar acadêmica, Expectativas instrumentais de comunicação e Expectativas de expressão, compreensão e autoria textual;

b)pela ordem das expectativas de aprendizagem desdobradas a partir de cada subeixo, por exemplo, o subeixo 1.2 Apresentação e colaboração discursiva tem como expectativas: 1.2.1 Respeitar as regras de cortesia e de interação e 1.2.2 Realizar apresentações orais

Para compreender melhor como funciona a lógica do novo currículo que está sendo preparado pela equipe técnica de Sobral, com ajuda minha e da Paula Louzano, segue o eixo de Oralidade:

EIXO 1 – Oralidade
Subeixo 1.1: Consciência fonêmica
Expectativa de aprendizagem: 1.1.1 Desenvolver a consciência fonêmica
Subeixo 1.2: Apresentação e colaboração discursiva
Expectativas de aprendizagem: 1.2.1 Respeitar as regras de cortesia e de interação e 1.2.2 Realizar apresentações orais

Subeixo 1.3: Expressão e Compreensão oral
Expectativas de aprendizagem: 1.3.1 Expressar-se de maneira efetiva nas diferentes interações e 1.3.2 Compreender textos orais

Isso significa que, ao final do 9º ano o aluno deverá ser capaz de respeitar as regras de cortesia e de interação, realizar apresentações orais, expressar-se de maneira efetiva nas diferentes interações e compreender textos orais.

Em que nível e com que progressão essas expectativas serão desenvolvidas pelos alunos, sob a orientação e estímulo de seus professores, é o “recheio” do currículo de Sobral que se encontra neste momento em processo final de aprovação na rede.

Outras matérias e menções ao ensino de qualidade de Sobral: