Arquivos Mensais: agosto \30\UTC 2016

Para entender parte do que penso sobre a construção do novo currículo nacional brasileiro (BNCC)

O tema é complexo, mas não tanto quanto se quer fazer crer. A técnica da cortina de fumaça continua a ser usada por quem ainda quer se esconder atrás de expectativas escolares e educacionais medíocres e difusas.

Especificar os patamares mínimos do que vai ser ensinado em todas as escolas do Brasil é bom para os alunos e para a sociedade brasileira, desde que o façamos com rigor acadêmico, progressão clara, coerência e clareza. Mas é muito ruim para:

Quem escreve livros didáticos e paradidáticos de péssima qualidade. Não são todos os autores, mas há muita coisa chinfrim circulando pelas escolas. Segundo as editoras, quanto mais rastaquera o livro, mais vende. Isso se explica porque o corporativismo colocou como condição de “gestão democrática”, por exemplo, que o PNLD seja escolhido por cada professor, sem que ele seja obrigado a dar satisfação a ninguém por sua escolha. Esse mecanismo perverso já está sendo revisto, felizmente, mas ainda estamos longe de que as escolhas sejam feitas tomando como base fazer alunos e professores trabalharem mais suas cabeças em sala de aula.

Acadêmicos desatualizados e poderosos que se recusam a ler e a publicar em inglês e a estudar o que as ciências da Educação, da Psicologia, as Neurociências e as Ciências Políticas de países desenvolvidos elaboram, descobrem e recomendam. O tal ciclo de alfabetização de 3 anos só existe aqui no Brasil e foi criado por esse tipo de “pensador”.

Aos sindicalistas tacanhos, que só pensam em negociar mais faltas, mais salário, aposentadoria mais cedo e vantagens marginais para seus membros, ao invés que se empenharem em construir uma profissão docente realmente estratégica, com valor social palpável e contribuição efetiva para o desenvolvimento da sociedade brasileira.

Aos preguiçosos de plantão que vicejam na mediocridade, promovendo “ideias” vazias que se transformam em projetos idem, vendendo agendas, produtos e serviços de quinta categoria ao estado brasileiro, que lhes conferem um protagonismo improvável e que roubam da escola pública (e até da privada) o verdadeiro papel de promotor de desenvolvimento social do País.

São esses grupos que permitiram que a tal BNCC já tenha produzido duas versões cujo único destino decoroso é a máquina de triturar papel e o botão DELETE do computador. Temos que fazer um documento sério e de padrão internacional. A entrevista explica isso com mais detalhes e está no site do Instituto Teotônio Vilela. Acesso pelo link:

http://itv.org.br/video/4/25b84f70bb147b0a013911ba8a6a7e62

 

Além do currículo, a Neurociência pode salvar o Brasil de seu destino educacional medíocre

Muitas vezes no nosso boletim Missão Aluno da CBN já dissemos o quanto é importante levar em conta as descobertas recentes das Neurociências na hora de desenhar programas educativos em geral e políticas públicas educacionais em particular. Ainda vemos muito pouca influência deste ramo das Ciências no setor educacional do Brasil, nas escolas de educação, nas escolas privadas (com raras exceções) e principalmente no desenho de currículo e de políticas públicas.

Também já apresentei minha leitura sobre a questão, que chega a ser simplória: o setor educacional brasileiro ainda não incorpora essas descobertas porque pouca gente do ramo lê em inglês e também porque não tem interesse em trocar as explicações e posições socio-políticas por outras mais científicas, cuja produção está fora da sua própria área de atuação profissional. Todos nós perdemos com isso.

Por isso, adiciono à minha luta por um currículo ambicioso, de padrão de país desenvolvido para todas as crianças brasileiras, a luta e a “militância” pela incorporação das descobertas e pela integração das áreas de Neurociências e de Educação, principalmente nas Escolas e Faculdades de Educação do Brasil inteiro.

O BID fez recentemente um breve resumo, mas daqui para a frente vou postar outras informações aqui porque, para algumas pessoas do setor da educação, principalmente quem é muito ligado às Faculdades de Educação, BID, Banco Mundial, Unesco, OCDE é tudo a mesma coisa: a institucionalização do capitalismo financeiro selvagem, portanto, não deveriam ser levados a sério.

O que disse o BID em seu blog – Blog do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) – La Educación de Calidad És Posible:

1. O desenvolvimento do cérebro na primeira infância e na adolescência é fundamental

2. O estresse crônico afeta o aprendizado

3. Atividades em sala de aula podem rapidamente provocar melhorias visíveis no desenvolvimento do cérebro.

Detalhando:

1. O desenvolvimento do cérebro na primeira infância e na adolescência é fundamental

O cérebro passa por um período de desenvolvimento e maturação que começa antes do nascimento da criança e continua até perto dos 24 anos. Durante a primeira infância e especialmente durante os primeiros três anos de vida de uma criança, o cérebro atinge um período de grande crescimento e desenvolvimento, com uma “plasticidade” muito maior que a do cérebro adulto. De fato, os pesquisadores do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade Harvard concluíram que “o desenvolvimento da estrutura do cérebro de uma criança constitui a base para sua aprendizagem, comportamento e saúde em geral”. Não é de estranhar, então, que experiências negativas em idades tenras da vida têm consequências a longo prazo, mesmo na idade adulta. Na adolescência, o cérebro também sofre alterações consideráveis. Respostas [cerebrais a situações] com alta carga emocional, por exemplo, são mais proeminentes na adolescência do que na infância ou na idade adulta.

[. . . ] Pais, parentes, cuidadores, professores e autoridades governamentais têm em suas mãos oportunidades de desempenhar papéis na definição das experiências-chave para o desenvolvimento cerebral.

2. O estresse crônico afeta o aprendizado

No campo da Neurociência é sabido que os ambientes de estresse crônico podem ter um efeito direto sobre o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Biomarcadores conectados à massa cinzenta e branca do cérebro, ou às funções do cérebro, podem fornecer pistas sobre os efeitos do estresse sobre os mais jovens. Estes efeitos quantitativos estão diretamente correlacionados com resultados psicológicos e educacionais. Por exemplo, a exposição crônica ao estresse pode levar [ao adolescente a dar] respostas emocionais extremas a um stress diário comum, o que afeta a sua segurança. Pode também afetar o desenvolvimento do córtex pré-frontal, que impacta a capacidade de auto-regulação, planejamento e função executiva.

Crianças e jovens que cresceram em comunidades de alto risco, que enfrentam muitas adversidades como a pobreza, a violência na comunidade e os serviços básicos limitados podem ser considerados como vivendo em condições de estresse crônico. Isso explica em parte por que os resultados de testes padronizados como o PISA em 2012 mostram que os estudantes pobres na América Latina estão dois anos de ensino atrás de seus pares de países de nível socioeconômico mais elevado, em Matemática, leitura e Ciências. Os conhecimentos da Neurociência podem nos ajudar a entender a como desenhar escolas e métodos de ensino para atender às necessidades desses alunos.

3. Atividades em sala de aula podem rapidamente provocar melhorias visíveis no desenvolvimento do cérebro.

Desenvolver atividades relevantes, provendo apoio adequado em contextos escolares positivos, podem resultar rapidamente em melhoras visíveis na estrutura do cérebro. Deve-se dar atenção para capacitar os professores para criar experiências e interações positivas que possam levar a essas melhorias, não só no desenvolvimento neurológico da criança ou jovem, mas também no seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional. Essas intervenções podem melhorar não só a aprendizagem em sala de aula, mas também o comportamento. Por exemplo, os professores podem implementar técnicas para melhorar a função executiva, enquanto outras escolas podem usar a meditação para ajudar a lidar com certos comportamentos.

Segundo o site “Edutopia” (para o qual o site do blog do BID nos direciona) as funções executivas, quando se desenvolvem completamente, levam a um jovem adulto a conseguir fazer o seguinte:

  • Administrar a estabilidade emocional,
  • Controlar impulsos
  • Planejar
  • Responder, de forma produtiva, aos feedback corretivos
  • Aprender com os erros
  • Persistir em situações negativas
  • Refletir cuidadosamente antes de tomar decisões e fazer escolhas

Em relação às funções executivas, o site apresenta as seguintes sugestões para ajudar os alunos a melhorar as funções executivas:

  1. Professor que modela a organização (da sala e a sua própria) e as discussões em sala de aula
  2. Professor fornece instruções claras
  3. Usar alunos para explicar como se faz ou como não se faz uma determinada atividade explicada pelo professor
  4. O professor checa a compreensão dos alunos durante as aulas
  5. Passagem gradual e controlada das responsabilidades (para os alunos
  6. Feedback

Para quem desejar, mais detalhes no original em inglês, mas vale a pena ler o post completo!!

1. Teacher Modeling and Discussion

Model your systems of organization (filing, recording progress, how you set up the classroom, etc.). Draw students’ attention to the organizational strategies that you use during instruction.

2. Clear Instructions

Initially, when providing organizational strategies, emphasize them both verbally and in writing. Give students clear instructions for procedures, projects, or class transitions as you model organizational structure.

3. Student Modeling

Assign selected students to model the procedures that you’ve described, such as the right way and the wrong way to organize their class groups during collaborative work time.

4. Checking for Understanding

Stop between segments of complex or multi-step instructions, allowing students to organize their thoughts and ask questions. Ask students to repeat back their understanding of the instructions so that they can respond to your feedback and reorganize appropriately.

5. Gradual Release of Responsibility

Throughout the year, plan a gradual decrease in the scaffolding that you provide for student organization of time and goals. For example, back away from giving them your timeline schedule for parts of a book report or project, let them plan and write their own timelines, and revise these as you help them monitor their progress.

6. Feedback

Observe student progress and setbacks and provide feedback with opportunities for them to revise their organizational systems.

As Olimpíadas de um país sem quadras esportivas nas escolas

Cada pessoa enxerga o mundo de acordo com seus próprios óculos de interesse. Eu me dedico a estudar políticas educacionais, portanto, acho relação com educação e políticas educacionais em quase tudo o que vejo. Assim, para mim não dá para acompanhar os Jogos Olímpicos sem pensar na infraestrutura de esportes das escolas brasileiras. No quanto elas são precárias e quantas oportunidades nossos alunos perdem de curtir as atividades físicas e esportivas nelas.

Por mais que, com uma média de dias letivos compostos por menos de 4 horas (4 tempos de 50 min cada), quase tudo o que não seja ensinar a Língua Portuguesa e a Matemática possa parecer supérfluo, há atividades que realmente contribuem para o desenvolvimento integral dos alunos: a leitura estendida diária e a prática de atividades físicas e comunitárias constantes.

Há dois componentes das escolas que quase não estão presentes nas escolas brasileiras, e que poderiam ser usados para “esticar” o dia letivo: as bibliotecas com acervo – não é sala de leitura, mas um lugar onde se tem acesso a livros de qualidade para ler efetivamente – e quadras esportivas.

Nas bibliotecas se pode continuar o aprendizado de sala de aula, rever e aprofundar o que foi ensinado e se preparar para as aulas que ainda não foram dadas. E serve para todas as disciplinas. Quando os alunos estão em aulas com o professor, podem dar mais atenção aos aspectos formais da Língua Portuguesa, mas a compreensão de textos e a ampliação dos conhecimentos pode ser feita com leituras e interpretações feitas a partir da biblioteca, com textos de outras disciplinas, por exemplo.

Nas quadras esportivas, que deveriam ser cobertas e ter iluminação noturna, os alunos e suas famílias, poderiam praticar atividades físicas e também comunitárias, como bingos, gincanas etc, que fazem bem para o corpo, para a mente e para as relações pessoais. Uma quadra pode unir muita gente. Mas o que se vê em ambientes degradados, quando elas existem, é que elas podem ser não só vandalizadas, como capturadas por grupos de poder, como gangs e líderes do crime local, para as suas atividades próprias.

Vamos aos números:

O resumo técnico do Censo Escolar de 2013, mais recente disponível no site do MEC, aponta que:

Para o ensino fundamental, nas escolas públicas, 43,9% contam com biblioteca/sala de leitura, o que cobre 75,7 % das matrículas. Na rede privada, esses números são, respectivamente: 84,4% e 90,7%.

Em relação às quadras esportivas, nas públicas são 32,1% das escolas e 61,4% das matrículas. A Região melhor atendida é a Região Sul, com 83,2% das matrículas em escolas com esse tipo de estrutura (coberta ou não). A pior é obviamente a Região Nordeste, com 32,6% das matrículas.

Um estudo de 2013, feito por 4 pesquisadores brasileiros, chamado “UMA ESCALA PARA MEDIR A INFRAESTRUTURA ESCOLAR“, criou uma escala com quadro níveis de infraestrutura escolar: elementar, básica, adequada e avançada. Apenas 15% das escolas no Brasil contam com infraestrutura adequada, cuja descrição é apresentada a seguir (deste mesmo estudo, pg: 90) – menos de 1% têm infraestrutura classificada como avançada:

Além dos itens presentes nos níveis anteriores, as escolas deste nível, em geral, possuem uma infraestrutura mais completa, o que permite um ambiente mais propício para o ensino e aprendizagem. Essas escolas possuem, por exemplo, espaços como sala de professores, biblioteca, laboratório de informática e sanitário para educação infantil. Há também espaços que permitem o convívio social e o desenvolvimento motor, tais como quadra esportiva e parque infantil. Além disso, são escolas que possuem equipamentos complementares como copiadora e acesso à internet.

Os jogos são lindos, emocionantes, as festas são bacanas e coloridas. Uma parte ínfima da população está aproveitando pessoalmente e a maioria vê pela tv. Mas é óbvio que é frustrante para as crianças e jovens brasileiros não contar com escolas que as estimulem a desenvolver atividades físicas regularmente e a competir de forma organizada. Com uma população tão jovem, o potencial esportivo do País é realmente gigantesco. A ocupação das escolas pelos alunos ilustra parte desta frustração. Não acho que a Olimpíada vá deixar um legado para elas, a não ser ajudar a pagar a conta da festa dos outros.

 

Aprendendo com as disputas ideológicas dos outros!

Durante o mês de julho estive de férias em Portugal. No dia 2/7, como já reportei aqui no Blog, o Ministério da Educação português apresentou o novo currículo para a educação infantil, ou pre-escolar, na linguagem local.

Li o documento e notei a diferença de linguagem em relação aos documentos curriculares do Governo anterior, que na educação era comandado pelo Ministro Nuno Crato. Nos jornais, matérias, editoriais e artigos de opinião mostravam a polêmica do desmonte das políticas educacionais implementadas mais recentemente pelo governo do PSD (Partido Social Democrata), mas que eram o desdobramento de um histórico de políticas incrementais construídas mesmo com a alternância com o PS (Partido Socialista). Havia uma tensão particular porque o Ministro Nuno Crato afrontava explicitamente a academia educacional (quem lembra do livro dele ” O eduquês em discurso directo”?), mas as políticas educacionais em si não eram tão antagônicas.

O PSD não estava implementando políticas radicais do tipo que os empresários americanos apreciam (e agora alguns brasileiros também) como charter schools, formação docente ligeira do tipo Teach for America, ou educação à distância como Khan Academy. Não era um desmonte da escola pública, mas eram políticas que exigiam mais de professores, alunos e de suas famílias, pois aliavam um currículo bastante detalhado e exigente com prova de aferição individual com testes padronizados de monitoramento, entre outras coisas. Era uma espécie de continuidade (o Secretário Executivo diz isso em sua entrevista), mas com algumas discordâncias de forma.

O que está acontecendo agora é uma verdadeira ruptura, explicada pelo fato de que para a eleição de 2015 o PS precisou de partidos mais à esquerda, como o PCP (Partido Comunista Português – ligado aos sindicatos docentes – Fenprof), para formar a maioria no Parlamento, sem a qual não poderia governar. O PS, apesar de ter perdido as eleições por uma estreita margem, conseguiu destituir o vencedor ao fazer uma aliança (Bloco de Esquerda) para a qual foi preciso fazer certos acordos. Esses acordos agora refletem-se nas políticas educacionais.

É um embate ideológico? Sim. Mas é um embate de interesses políticos. Para agradar “a galera” vale facilitar a vida de todos. Mas pode ser que os portugueses paguem um preço por isso.

Para entender o que estava acontecendo, combinei com a CBN de conseguir uma entrevista com o Ministro Tiago Rodrigues. Como ele não estava disponível naquela semana, conversei então com o Secretário Executivo da pasta, João Costa.

Segue a entrevista com ele (infelizmente, na hora não me ocorreu fazer também o vídeo, como fiz com a Deputada uma semana depois, e assim não consegui editar…)

Fiquei tão intrigada com as notícias que li nos jornais e com a entrevista com o Secretário, que comentei com uma amiga: “que pena que um arranjo político (aparentemente passageiro, pois o PS sozinho não teria  feito esse tipo de radicalização – ver explicação da Dep. Ana Rita) vai por fim a políticas tão importantes que foram implementadas no Governo Passos Coelho. Queria falar com alguém da oposição para saber o que estão pensando”. Ela quase imediatamente me pôs em contato com a Deputada Ana Rita Bessa, do CDS, com quem falei na semana seguinte.

Segue a entrevista com a Deputada, que consegui editar, separando a resposta para cada pergunta minha:

O que foi que aconteceu nas eleições de 2015, que resultou em uma situação na qual quem governa Portugal é o líder do Partido Socialista – PS – e não o do Partido Social Democrata – PSD – que ganhou as eleições?

Quais são as principais influências externas nas escolhas e nos desenhos de política pública educacional de Portugal?

O que Portugal tem feito (nas políticas educacionais) para ter conseguido se tornar um dos países com melhor trajetória no histórico do Pisa desde 2000? (Um relatório da OCDE de 2014 explica de forma bem abrangente as políticas e os resultados educacionais de Portugal dos últimos anos)

Porque é tão fácil atropelar com um discurso mais palatável algumas políticas educacionais que podem beneficiar os alunos em maior dificuldade ou risco educacional, como as avaliações e os currículos?

A inspiração francófona tradicional a que a Deputada se refere também está radicalizando agora com o PS francês – sai o controle social dos pais e entra uma avaliação inespecífica que acomoda melhor o humor dos sindicatos. Fiz um Missão Aluno sobre isso. Os documentos podem ser acessados abaixo. Assim, você mesmo pode conferir a diferença, se ler um pouco de francês.

Antigo – com metas de aprendizado bem claras:

http://media.education.gouv.fr/file/27/02/7/livret_personnel_competences_149027.pdf

Novo – com metas inespecíficas:

http://cache.media.education.gouv.fr/file/DP_Evaluation/28/0/DP-Evaluation-des-eleves-du-CP-a-la-troisieme-Livret-scolaire_477280.pdf