As Olimpíadas de um país sem quadras esportivas nas escolas

Cada pessoa enxerga o mundo de acordo com seus próprios óculos de interesse. Eu me dedico a estudar políticas educacionais, portanto, acho relação com educação e políticas educacionais em quase tudo o que vejo. Assim, para mim não dá para acompanhar os Jogos Olímpicos sem pensar na infraestrutura de esportes das escolas brasileiras. No quanto elas são precárias e quantas oportunidades nossos alunos perdem de curtir as atividades físicas e esportivas nelas.

Por mais que, com uma média de dias letivos compostos por menos de 4 horas (4 tempos de 50 min cada), quase tudo o que não seja ensinar a Língua Portuguesa e a Matemática possa parecer supérfluo, há atividades que realmente contribuem para o desenvolvimento integral dos alunos: a leitura estendida diária e a prática de atividades físicas e comunitárias constantes.

Há dois componentes das escolas que quase não estão presentes nas escolas brasileiras, e que poderiam ser usados para “esticar” o dia letivo: as bibliotecas com acervo – não é sala de leitura, mas um lugar onde se tem acesso a livros de qualidade para ler efetivamente – e quadras esportivas.

Nas bibliotecas se pode continuar o aprendizado de sala de aula, rever e aprofundar o que foi ensinado e se preparar para as aulas que ainda não foram dadas. E serve para todas as disciplinas. Quando os alunos estão em aulas com o professor, podem dar mais atenção aos aspectos formais da Língua Portuguesa, mas a compreensão de textos e a ampliação dos conhecimentos pode ser feita com leituras e interpretações feitas a partir da biblioteca, com textos de outras disciplinas, por exemplo.

Nas quadras esportivas, que deveriam ser cobertas e ter iluminação noturna, os alunos e suas famílias, poderiam praticar atividades físicas e também comunitárias, como bingos, gincanas etc, que fazem bem para o corpo, para a mente e para as relações pessoais. Uma quadra pode unir muita gente. Mas o que se vê em ambientes degradados, quando elas existem, é que elas podem ser não só vandalizadas, como capturadas por grupos de poder, como gangs e líderes do crime local, para as suas atividades próprias.

Vamos aos números:

O resumo técnico do Censo Escolar de 2013, mais recente disponível no site do MEC, aponta que:

Para o ensino fundamental, nas escolas públicas, 43,9% contam com biblioteca/sala de leitura, o que cobre 75,7 % das matrículas. Na rede privada, esses números são, respectivamente: 84,4% e 90,7%.

Em relação às quadras esportivas, nas públicas são 32,1% das escolas e 61,4% das matrículas. A Região melhor atendida é a Região Sul, com 83,2% das matrículas em escolas com esse tipo de estrutura (coberta ou não). A pior é obviamente a Região Nordeste, com 32,6% das matrículas.

Um estudo de 2013, feito por 4 pesquisadores brasileiros, chamado “UMA ESCALA PARA MEDIR A INFRAESTRUTURA ESCOLAR“, criou uma escala com quadro níveis de infraestrutura escolar: elementar, básica, adequada e avançada. Apenas 15% das escolas no Brasil contam com infraestrutura adequada, cuja descrição é apresentada a seguir (deste mesmo estudo, pg: 90) – menos de 1% têm infraestrutura classificada como avançada:

Além dos itens presentes nos níveis anteriores, as escolas deste nível, em geral, possuem uma infraestrutura mais completa, o que permite um ambiente mais propício para o ensino e aprendizagem. Essas escolas possuem, por exemplo, espaços como sala de professores, biblioteca, laboratório de informática e sanitário para educação infantil. Há também espaços que permitem o convívio social e o desenvolvimento motor, tais como quadra esportiva e parque infantil. Além disso, são escolas que possuem equipamentos complementares como copiadora e acesso à internet.

Os jogos são lindos, emocionantes, as festas são bacanas e coloridas. Uma parte ínfima da população está aproveitando pessoalmente e a maioria vê pela tv. Mas é óbvio que é frustrante para as crianças e jovens brasileiros não contar com escolas que as estimulem a desenvolver atividades físicas regularmente e a competir de forma organizada. Com uma população tão jovem, o potencial esportivo do País é realmente gigantesco. A ocupação das escolas pelos alunos ilustra parte desta frustração. Não acho que a Olimpíada vá deixar um legado para elas, a não ser ajudar a pagar a conta da festa dos outros.

 

2 Respostas

  1. Ilona, concordo com o texto.
    Imagina se ele tivesse sido escrito na época da Copa do Mundo de 1950…
    Seria um cenário tétrico!

    1. Marcos, não precisa ir tão longe: tivemos o 7×1…

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