Além do currículo, a Neurociência pode salvar o Brasil de seu destino educacional medíocre

Muitas vezes no nosso boletim Missão Aluno da CBN já dissemos o quanto é importante levar em conta as descobertas recentes das Neurociências na hora de desenhar programas educativos em geral e políticas públicas educacionais em particular. Ainda vemos muito pouca influência deste ramo das Ciências no setor educacional do Brasil, nas escolas de educação, nas escolas privadas (com raras exceções) e principalmente no desenho de currículo e de políticas públicas.

Também já apresentei minha leitura sobre a questão, que chega a ser simplória: o setor educacional brasileiro ainda não incorpora essas descobertas porque pouca gente do ramo lê em inglês e também porque não tem interesse em trocar as explicações e posições socio-políticas por outras mais científicas, cuja produção está fora da sua própria área de atuação profissional. Todos nós perdemos com isso.

Por isso, adiciono à minha luta por um currículo ambicioso, de padrão de país desenvolvido para todas as crianças brasileiras, a luta e a “militância” pela incorporação das descobertas e pela integração das áreas de Neurociências e de Educação, principalmente nas Escolas e Faculdades de Educação do Brasil inteiro.

O BID fez recentemente um breve resumo, mas daqui para a frente vou postar outras informações aqui porque, para algumas pessoas do setor da educação, principalmente quem é muito ligado às Faculdades de Educação, BID, Banco Mundial, Unesco, OCDE é tudo a mesma coisa: a institucionalização do capitalismo financeiro selvagem, portanto, não deveriam ser levados a sério.

O que disse o BID em seu blog – Blog do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) – La Educación de Calidad És Posible:

1. O desenvolvimento do cérebro na primeira infância e na adolescência é fundamental

2. O estresse crônico afeta o aprendizado

3. Atividades em sala de aula podem rapidamente provocar melhorias visíveis no desenvolvimento do cérebro.

Detalhando:

1. O desenvolvimento do cérebro na primeira infância e na adolescência é fundamental

O cérebro passa por um período de desenvolvimento e maturação que começa antes do nascimento da criança e continua até perto dos 24 anos. Durante a primeira infância e especialmente durante os primeiros três anos de vida de uma criança, o cérebro atinge um período de grande crescimento e desenvolvimento, com uma “plasticidade” muito maior que a do cérebro adulto. De fato, os pesquisadores do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade Harvard concluíram que “o desenvolvimento da estrutura do cérebro de uma criança constitui a base para sua aprendizagem, comportamento e saúde em geral”. Não é de estranhar, então, que experiências negativas em idades tenras da vida têm consequências a longo prazo, mesmo na idade adulta. Na adolescência, o cérebro também sofre alterações consideráveis. Respostas [cerebrais a situações] com alta carga emocional, por exemplo, são mais proeminentes na adolescência do que na infância ou na idade adulta.

[. . . ] Pais, parentes, cuidadores, professores e autoridades governamentais têm em suas mãos oportunidades de desempenhar papéis na definição das experiências-chave para o desenvolvimento cerebral.

2. O estresse crônico afeta o aprendizado

No campo da Neurociência é sabido que os ambientes de estresse crônico podem ter um efeito direto sobre o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Biomarcadores conectados à massa cinzenta e branca do cérebro, ou às funções do cérebro, podem fornecer pistas sobre os efeitos do estresse sobre os mais jovens. Estes efeitos quantitativos estão diretamente correlacionados com resultados psicológicos e educacionais. Por exemplo, a exposição crônica ao estresse pode levar [ao adolescente a dar] respostas emocionais extremas a um stress diário comum, o que afeta a sua segurança. Pode também afetar o desenvolvimento do córtex pré-frontal, que impacta a capacidade de auto-regulação, planejamento e função executiva.

Crianças e jovens que cresceram em comunidades de alto risco, que enfrentam muitas adversidades como a pobreza, a violência na comunidade e os serviços básicos limitados podem ser considerados como vivendo em condições de estresse crônico. Isso explica em parte por que os resultados de testes padronizados como o PISA em 2012 mostram que os estudantes pobres na América Latina estão dois anos de ensino atrás de seus pares de países de nível socioeconômico mais elevado, em Matemática, leitura e Ciências. Os conhecimentos da Neurociência podem nos ajudar a entender a como desenhar escolas e métodos de ensino para atender às necessidades desses alunos.

3. Atividades em sala de aula podem rapidamente provocar melhorias visíveis no desenvolvimento do cérebro.

Desenvolver atividades relevantes, provendo apoio adequado em contextos escolares positivos, podem resultar rapidamente em melhoras visíveis na estrutura do cérebro. Deve-se dar atenção para capacitar os professores para criar experiências e interações positivas que possam levar a essas melhorias, não só no desenvolvimento neurológico da criança ou jovem, mas também no seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional. Essas intervenções podem melhorar não só a aprendizagem em sala de aula, mas também o comportamento. Por exemplo, os professores podem implementar técnicas para melhorar a função executiva, enquanto outras escolas podem usar a meditação para ajudar a lidar com certos comportamentos.

Segundo o site “Edutopia” (para o qual o site do blog do BID nos direciona) as funções executivas, quando se desenvolvem completamente, levam a um jovem adulto a conseguir fazer o seguinte:

  • Administrar a estabilidade emocional,
  • Controlar impulsos
  • Planejar
  • Responder, de forma produtiva, aos feedback corretivos
  • Aprender com os erros
  • Persistir em situações negativas
  • Refletir cuidadosamente antes de tomar decisões e fazer escolhas

Em relação às funções executivas, o site apresenta as seguintes sugestões para ajudar os alunos a melhorar as funções executivas:

  1. Professor que modela a organização (da sala e a sua própria) e as discussões em sala de aula
  2. Professor fornece instruções claras
  3. Usar alunos para explicar como se faz ou como não se faz uma determinada atividade explicada pelo professor
  4. O professor checa a compreensão dos alunos durante as aulas
  5. Passagem gradual e controlada das responsabilidades (para os alunos
  6. Feedback

Para quem desejar, mais detalhes no original em inglês, mas vale a pena ler o post completo!!

1. Teacher Modeling and Discussion

Model your systems of organization (filing, recording progress, how you set up the classroom, etc.). Draw students’ attention to the organizational strategies that you use during instruction.

2. Clear Instructions

Initially, when providing organizational strategies, emphasize them both verbally and in writing. Give students clear instructions for procedures, projects, or class transitions as you model organizational structure.

3. Student Modeling

Assign selected students to model the procedures that you’ve described, such as the right way and the wrong way to organize their class groups during collaborative work time.

4. Checking for Understanding

Stop between segments of complex or multi-step instructions, allowing students to organize their thoughts and ask questions. Ask students to repeat back their understanding of the instructions so that they can respond to your feedback and reorganize appropriately.

5. Gradual Release of Responsibility

Throughout the year, plan a gradual decrease in the scaffolding that you provide for student organization of time and goals. For example, back away from giving them your timeline schedule for parts of a book report or project, let them plan and write their own timelines, and revise these as you help them monitor their progress.

6. Feedback

Observe student progress and setbacks and provide feedback with opportunities for them to revise their organizational systems.

2 Respostas

  1. cibele ferreira da silva | Responder

    olá, sou professora de educação infantil e por meio dos estudos sobre crianças com necessidades especiais despertei um grande interesse pelas neurociências e hoje me dedico ás pesquisas na área. É fascinante entender como o cérebro aprende e o que é necessário para que isso ocorra. Encontrar essa matéria foi muito importante porque percebo realmente essa necessidade de aprender sobre neurociências na área da Pedagogia que é muito focada em teorias psicológicas e esquece que no momento que está acontecendo uma atividade psicológica existe também uma reação biológica acontecendo no cérebro que é tão importante quanto a primeira, enfim maravilhosa matéria e se puder trazer mais materiais sobre o tema terei prazer em ler.

    1. Que legal, Cibele!
      É para ajudar pessoas como você que eu gosto de fazer este blog e o boletim Missão Aluno.

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