Para resolver um problema social é preciso o componente político, o institucional e o técnico. É o método, estúpido!*

*Antes que me acusem de grosseria, esta é uma formulação famosa sobre aquilo que pode ser essencial em uma campanha eleitoral, concebida pelo coordenador de campanha do ex-presidente Bill Clinton para a economia: It is the Economy, stupid!

Quem já não ouviu falar que para resolver e questão da baixíssima qualidade da educação no Brasil é preciso vontade política? Eu já ouvi e concordo: acho sim que falta vontade política, entre outras razões porque interessa manter uma mão de obra dócil e barata para os setores mais fortes da nossa economia – agrícola e de serviços -.

Eu abordo esse tema na minha tese de doutorado, que será disponibilizada em breve no site da USP com o título ” Institucionalização do Direito à Educação de Qualidade: o caso de Sobral, CE”, que defendi em setembro último.

Outra razão, apontada por David Plank no livro “The Means of Our Salvation”, com o qual eu concordo totalmente, tanto que é o ponto de partida da minha tese, é que os estudantes brasileiros, os mais pobres em particular, mas não exclusivamente, perdem sempre nas disputas com grupos mais organizados e poderosos. O interesse desses subsetores da sociedade brasileira que, culturalmente já não valoriza muito a educação formal, tais como sindicatos, beneficiários de bolsas de pós-graduação, acadêmicos do setor – que não formam professores preparados para dar aula, mas para, no máximo, militar por certas correntes políticas – e empresas que sugam dinheiro do estado para si, vêm levando imensa vantagem em relação ao interesse dos alunos da educação básica.

Por causa desse cenário, vontade – ou coragem, ou em linguagem de Ciência Política, disposição para gastar capital político – é fundamental. Mas não é só vontade. Uma metaforazinha boba, mas que eu acho que dá conta de explicar o problema: se lhe der vontade de comer um bolo, você tem que sair e comprar um que lhe agrade, ou fazer um em casa. Assim, você terá que juntar uma receita própria ou comprada de alguém e as condições institucionais para que o bolo se materialize – a cozinha da sua casa ou a padaria da esquina. Mas sem a receita, NÃO TEM BOLO!

Assim, temos que, para além da vontade política de fazer algo, é preciso ter a receita certa para alcançá-lo e as condições institucionais para materializá-lo.

Esse conjunto: vontade (política) + condições institucionais + receita de como resolver o problema social vale para todas as questões de governo. Do meio ambiente à educação.

Mesmo no caso de algo tão básico como alfabetizar alunos que estão dentro da escola para tal fim, tem que ter vontade política (achar que alfabetizar no 1º ano é uma prioridade fenomenal, completamente acima de qualquer outra, e que não alfabetizar é uma vergonha pavorosa), tem que ter as condições institucionais para que a vontade política se transforme em ação concreta (comprar livros didáticos, formar professores e estabelecer metas, por exemplo) e tem que ter a re-cei-ta (o processo de alfabetização precisa respeitar o consenso internacional). Sem esses três elementos não dá. A receita solta pode até funcionar em uma classe ou escola, a depender da vontade do professor ou diretor, mas não muda uma rede.

Um exemplo concreto? O Pacto nacional pela alfabetização na idade certa – PNAIC. Tinha vontade política? Tinha: a Presidente Dilma chamou seu segundo mandato de Pátria Educadora e ordenou programas como o Brasil Carinhoso e Pnaic para resolver (ou ajudar a resolver) a questão da alfabetização no início da escolarização, inspirada em SOBRAL!!!!

Tinha condições institucionais? Tinha o Governo Federal, por meio de seu Ministério da Educação, tem obrigação constitucional de prestar assistência técnica e financeira para que estados e municípios (que são quem opera as escolas) façam um trabalho com cada vez mais qualidade, respeitando o direito a aprender dos alunos.

Inclusive, seu Ministro da Educação da época, Aloízio Mercadante, achou que a coisa era tão urgente, que escolheu institucionalizar o PAIC por meio de Medida Provisória! (Viram que não foi só o Governo Temer que lançou mão dessa ferramenta? 😉 )

Mas ela não teve receita. Ela não teve o seu Prof. Edgar Linhares, que colocou ordem na alfabetização de Sobral logo de cara. Coitada, ela tinha a equipe do MEC, que lê a bibliografia tosca que informa a maior parte dos alfabetizadores do Brasil (ver p. 115 do Capítulo 4 do Relatório Final do Comitê Cearense para a Eliminação do Analfabetismo Escolar – CCEAE de 2005). Aí, depois de R$3 BILHÕES, as coisas não melhoraram muito ainda pelo que foi medido pela ANA de 2014 e 2016.

A questão é que o material de formação dos docentes está cheio de equívocos (abaixo segue um trecho de Pacto nacional pela alfabetização na idade certa, currículo na alfabetização: concepções e princípios : ano 1 : unidade 1) , como, por exemplo jogar o bebê de equivocos passados com a água do banho para resolvê-los:

Até meados da década de 1980, a discussão acerca das práticas de alfabetização se relacionava principalmente ao debate sobre os métodos mais eficazes para ensinar a ler e escrever, que envolviam os sintéticos, analíticos e analítico-sintéticos. Tais métodos, apesar de se diferenciarem no que se refere à unidade da língua que serviria como ponto de partida para o ensino da leitura e da escrita (letras, fonemas, sílabas, palavras,  textos), se assemelhavam em muitos aspectos. Todos se baseavam em uma concepção de leitura e escrita como decodificação e codificação. O aprendizado do código alfabético se dava por meio do ensino transmissivo das unidades da língua, se guindo uma progressão pré-determinada que ia das unidades mais fáceis para as mais difíceis. Partia-se do pressuposto de que todos os alunos iniciavam o processo sem conhecimento algum sobre a escrita e que cabia aos professores o ensino das letras, sílabas e palavras. Ao aluno, nessa concepção, cabia um papel passivo de “recebedor” de algo pronto: a língua.

Acreditou-se, por muito tempo, que o fracasso escolar, que, a partir da década de 1970, com a democratização do acesso à escola, atingiu índices preocupantes, estaria relacionado à falta de capacidades individuais dos alunos provenientes principalmente do meio social desfavorecido. Além de garantir a prontidão para a alfabetização, era preciso assegurar que os estudantes aprendessem o código escrito. Mudava-se a cartilha ou o método utilizado, mas as práticas continuavam pautadas em um programa curricular voltado para a aprendizagem do código, desvinculado dos usos sociais da leitura e da escrita, que desconsiderava os conhecimentos que as crianças possuíam sobre a escrita.
Muitos alunos, inclusive, iniciavam a 1ª série lendo e escrevendo palavras e textos. Para estes, as atividades escolares além de repetitivas, não os faziam evoluir em suas aprendizagens. Nessa perspectiva, esses alunos, ao não serem atendidos em suas necessidades, eram, de certa forma, excluídos do processo de ensino–aprendizagem, embora não fossem desvalorizados, já que apresentavam, no geral, as respostas corretas nas atividades realizadas. Já as crianças que cometiam erros e concluíam o ano sem o domínio do código escrito, engrossavam as estatísticas cada vez mais crescentes de repetência e evasão escolar, sendo “excluídos” em seus direitos de aprendizagem da leitura e da escrita.

E vejam que barbaridade que aparece na descrição da “solução”:

No Brasil, o termo letramento não substituiu a palavra alfabetização, mas aparece associada a ela. Atualmente ainda convivemos com um alto índice de analfabetos, mas não podemos dizer que essas pessoas são “iletradas”, pois sabemos que um sujeito, criança ou adulto, que ainda não se apropriou da escrita alfabética, envolve-se em práticas de leitura e escrita por meio da mediação de uma pessoa que sabe ler e escrever e, nessas práticas, desenvolve conhecimentos sobre os textos que circulam na sociedade (REGO, 1988; MORAIS e ALBUQUERQUE, 2004). Assim, por exemplo, podemos ver que crianças pequenas que escutam frequentemente histórias  lidas por adultos (em casa ou na escola), são capazes de pegar um livro e fingir que leem a história usando, para isso, uma linguagem característica desse gênero.

UUUUIUU, Gzuis! Então o menino não é iliterate se alguém para ele ??? Tudo bem que eles corrigem depois:

Ler e escrever com autonomia, neste documento, significa ler e escrever sem precisar de ledor ou escriba, o que só é possível nos casos em que as crianças dominam o Sistema de Escrita Alfabética.

Mas a questão é que a concepção do processo de alfabetização no PNAIC não chama a atenção de forma devida para os processos essenciais envolvidos na alfabetização competente, conforme consenso internacional – está nos currículos de todos os países desenvolvidos que estudei até hoje! –  e resumido pelo Prof. Edgar Linhares Capítulo 6 do no relatório que ajudou a criar o PAIC do esatdo do Ceará, no qual o PNAIC deveria ter-se espelhado…

6.7 Um resumo interessante – OS CINCO COMPONENTES ESSENCIAIS DA ALFABETIZAÇÃO
O Painel Nacional de Leitura, de que falamos acima, propõe uma conclusão muito interessante sobre o que é mais importante na aprendizagem da leitura Seus pesquisadores concluíram que os cinco componentes essenciais da alfabetização são os seguintes;
1.Consciência fonológica: a habilidade de ouvir e manipular os sons das palavras.
2.Princípio alfabético: a habilidade de associar sons a letras e de usá-las para formar palavras.
3.Fluência textual: a habilidade automática e sem esforço de ler as palavras em conexão no texto.
4.Vocabulário: a habilidade de entender (recepção) e usar (expressão) as palavras para adquirir e transmitir seu significado.
5.Compreensão: o complexo processo cognitivo que envolve a interação intencional entre o leitor e o texto para transmissão do significado.
Esses componentes são a base para o currículo no tocante à aprendizagem inicial da leitura.
Uma licenciatura que se preze tem que ter uma disciplina para cada um desses componentes da alfabetização. Cursos de pedagogia, que formam o magistério nas classes iniciais sem o estudo competente desses componentes, não podem continuar a existir.

Fica a dica, se você, leitor, quiser ajudar os próximos governos a alfabetizar todo mundo, vá estudar o caso do Ceará, porque o do Governo Federal não vai lhe fornecer boas ideias. Nem mesmo a BNCC!

Plano de educação para governos locais e centrais – as metas de qualidade que faltaram ao PNE

Em primeiro lugar, gostaria de pedir desculpas aos ouvintes do boletim Missão Aluno da CBN por um lapso meu no programa do dia 8/10/2018, quando comentei os programas de governo dos dois candidatos que passaram para o segundo turno.

Na ocasião, fiz uma comparação entre as propostas de governo dos canditatos Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, iniciando com uma crítica improcendente ao programa deste. A confusão aconteceu porque tinha baixado as propostas de todos os candidatos que participaram do 1º turno quando de sua publicação original, entretanto, com o indeferimento da candidatura do ex-Presidente Lula, sua proposta foi substituída pela de Fernando Haddad, a qual traz os mesmos conteúdos, mas com a correta substituição dos nomes: de Lula para Fernando Haddad. Todas as propostas para o 1º e 2º turno podem ser encontradas no site do TSE.

Mas reforço a comparação, a de Fernando Haddad é uma proposta mais detalhada, dá para se ter uma noção das pretenções para o setor da educação e a de Jair Bolsonaro apenas traz uma lista muito breve e um tanto desconexa de ideias gerais.

O programa vai ao ar ao vivo às segundas às 13:00 e enquanto durar o horário de propaganda eleitoral, às 13:30. É ossível ouvir programas antigos por meio de podcasts.

Como a do candidato e ex-Ministro da Educação Fernando Haddad baseia-se muito na execução do PNE, com o qual quem me segue sabe que eu tenho divergências em relação às conceituações sobre parâmetros de qualidade (e de gasto também porque 10% do PIB para educação com metas tão medíocres, é de lascar), apresento abaixo o que deveria ser proposto como metas de qualidade para o País. De maneira geral, essas metas podem ser propostas para qualquer um dos níveis de governo (federal, estadual e municipal).

Vamos a elas!

Meta global

Todos os brasileiros de 15 anos estarão aptos a participar do Pisa e irão alcançar, em média, o nível 3 da prova (480 a 552 pontos – média dos países da OCDE) para todas as áreas e, no mínimo nível 2 (407 a 480 pontos) idem.

Isso significa corrigir o fluxo atual, que exclui 20% dos alunos por estarem fora da escola ou atrasados demais e desenvolver competências e habilidades mais complexas em todos os alunos. É preciso aumentar a proporção de alunos que atingem os níveis mais altos do Pisa, para não deixar de lado a formação de uma elite intelectual compatível com a dos países desenvolvidos.

Essa meta é muito importante porque há estudos que mostram que aumentos do desempenho escolar das populações estão relacionados ao crescimento da economia e dos salários. Veja este estudo do instituto Alfa e Beto , este de Hanushek e Woessmann
e este aqui da OCDE, também preparado por Hanushek e Woessmann.

A meta global deve ser desdobrada nos seguintes componentes:

1) a principal meta de curto prazo: alfabetizar e numeratizar todas as crianças até o fim do 1o ano do EF, conseguindo que todos os alunos alcancem a fluência (leitura com compreensão de textos) de 60-80 palavras por minuto ao final do 1o ano e de 80-90 ao final do 2o e de noções de quantidade, ordem e proporção que aumentam em complexidade de um ano para o outro, desde a educação infantil. Casos excepcionais de alunos com alguma questão que dificulte o atingimento dessas metas serão tratados individualmente, por meio de políticas específicas de apoio e compensação para alunos com dificuldade, a partir de avaliações técnicas de capacidade cognitiva e afins.

2) a principal meta estruturante do conjunto dos sistemas estaduais e municipais de educação será um currículo detalhado e único desde a educação infantil até o final do ensino fundamental para LP, Matemática e Ciências, a partir da BNCC, mas replicando metas curriculares de países desenvolvidos, em particular os da Europa e da Ásia. As demais matérias serão resolvidas em nível dos estados e municípios, valorizando os conteúdos regionais, tomando como base a BNCC, mas dando ênfase a um profundo conhecimento de questões locais e regionais.

2.1) atrelada a essa meta está a consolidação do sistema nacional de monitoramento de aprendizagem, que trabalhará em consonância com os sistemas estaduais de avaliação e em colaboração com a OCDE, deverá incorporar as lógicas avaliativas do Pisa, incluindo formação de quadros técnicos com o conhecimento de referências atualizadas para desenvolver capital educacional brasileiro de alto nível.

3) a principal meta de operacionalização dos sistemas educacionais em nível estadual e municipal será o combate ao desperdício de recursos educacionais, a começar pelo implacável combate ao absenteísmo docente e discente. Os planos de carreira, de cargos e salário deverão incorporar regras de combate às faltas por parte dos profissionais da educação, assim como as autoridades de defesa dos direitos de crianças e adolescentes deverão combater o absentismo dos alunos.

3.1) atrelada a essa meta, está a criação de um sistema de monitoramento e apoio técnico, logístico e material a todas as escolas que atendam grupos mais vulneráveis como famílias de menor renda, de áreas deflagradas, quilombolas, ribeirinhos e indígenas, por exemplo.

4) combate incansável a qualquer tipo de discriminação negativa, desrespeito, bullying, violência e doutrinação em todo e qualquer ambiente educacional por meio da formação inicial e continuada dos profissionais da educação, da renovação dos regimentos escolares e PPP das escolas, de jogos estudantis em nível local e central e de outras atividades que fomentem atividades de integração e colaboração entre alunos de diferentes origens, além de sistemas de monitoramento de ocorrências e de programas de conscientização e mobilização para a paz.

Uma boa notícia que desagradou os tacanhos de plantão

Na semana passada, em 30/8/2018, o MEC e o INEP divulgaram os resultados parciais da Prova Brasil de 2017. Foram divulgados os dados das notas médias por etapa e disciplina (Língua Portuguesa e Matemática), por município e estado. Não foram, portanto, divulgados ainda os IDEBs, que são o resultado da multiplicação das notas dos alunos pelas taxas de promoção. Embora seja muito importante haver um indicador que junte os dois parâmetros, para evitar que a reprovação dos piores alunos seja usada para melhoras as notas de escolas,  municípios e estados, é bom sempre olhar para as notas, pois elas apontam para o que, no conjunto, os alunos estão efetivamente aprendendo.

Foi um ato político super positivo chamar a atenção sobre a aprendizagem! Não só pela informação em si, mas porque ainda há muitas redes se destacando em Ideb às custas das taxas de promoção, E NÃO pelas taxas de aprendizagem.

Nem vamos comentar o que significam os dados apresentados na semana passada: como sempre, tudo muito ruim. Mas ter um Ministro da Educação que aponta que o problema começa na alfabetização e que temos sim sérios problemas a enfrentar não é realmente um prazer, mas é um alento do ponto de vista político. Vamos lembrar que já tivemos que aguentar um outro que dizia que a educação brasileira ia bem e que o problema estava no Ensino Médio. O que me choca é que a imprensa engole essas bobagens sem questionar e aí, óbvio, vira verdade. Ai meu Santo Gramsci!

Alguns secretários reclamam de não terem sido apresentados ainda os resultados das escolas que fazem ensino integrado, o que deverá acontecer quando forem divulgados os dados por escola. É uma questão de esperar mais um pouquinho, pois a PORTARIA Nº 447, DE 24 DE MAIO DE 2017 diz o seguinte:

Art. 3º O SAEB 2017 tem como população alvo:
I – escolas públicas localizadas em zonas urbanas e rurais que possuam 10 (dez) ou mais alunos matriculados em cada uma das etapas de 5º e 9º anos (4ª e 8ª séries) do Ensino Fundamental;
II – escolas públicas localizadas em zonas urbanas e rurais que possuam pelo menos dez alunos matriculados em cada uma das etapas de 3ª ou 4ª série do Ensino Médio, quando esta última for a série de conclusão do Ensino Médio;
III – uma amostra de escolas privadas localizadas em zonas urbanas e rurais que possuam pelo menos 10 (dez) alunos matriculados em cada uma das etapas de 5º e 9º anos (4ª e 8ª séries) do Ensino Fundamental e de 3ª ou 4ª séries do Ensino Médio, quando esta última for a série de conclusão do Ensino Médio, distribuídas nas vinte e sete Unidades da Federação;
IV – mediante adesão, escolas privadas localizadas em zonas urbanas e rurais que possuam pelo menos 10 (dez) alunos matriculados na 3ª série ou na 4ª série do Ensino Médio, quando esta última for a série de conclusão do Ensino Médio.
Parágrafo único. A população de referência do SAEB 2017 está descrita em detalhes no Anexo I desta Portaria.
Art. 4º Qualquer escola que ofereça 4ª série do Ensino Médio será avaliada somente nesta etapa, ainda que a escola ofereça a opção de certificação na 3ª série do Ensino Médio, visto que tal realidade não é identificável por meio do Censo da Educação Básica.
Art. 5º Não fazem parte da população alvo do SAEB 2017 as turmas multisseriadas, de correção de fluxo, de Educação Especial Exclusiva, de Educação de Jovens e Adultos, de Ensino Médio Normal/Magistério bem como as escolas indígenas que não ministrem o ensino em Língua Portuguesa.

No Anexo I, há um complemento que diz que:

Pertencem à população de referência […] as 3as e 4as séries do EM da seguinte forma: -Ensino Médio – 3ª Série; Ensino Médio – 4ª Série; Curso Técnico Integrado (Ensino Médio
Integrado) 3ª Série; Curso Técnico Integrado (Ensino Médio Integrado) 4ª Série

Mas o feio mesmo é ver um tremendo componente de promoção da qualidade como este (valorizar e expor o aprendizado) ser atacado pelos guardiões do atraso. Assim, o Jornal O Globo de hoje já traz alguma choradeira…

Vejam o seguinte trecho da matéria dO Globo:

MAIS CRÍTICAS: NOTAS DE CORTES ELEVADAS

O Saeb também sofreu críticas de Francisco Soares, renomado matemático, integrante do (Conselho Nacional de Educação (CNE) e ex-presidente do próprio Inep. Em um texto seu divulgado no final de semana, ele afirma que as altas notas de corte utilizadas este ano fazem o cenário parecer mais grave do que realmente é.

“Na realidade não ocorreu nenhum desastre educacional nos últimos dois anos, mas apenas a introdução de uma forma equivocada de sintetizar os dados”.

Soares destaca que o governo “arbitrou, sem nenhuma justificativa, valores para os pontos de corte muito maiores do que os que têm sido praticado”.

Oi?? Como assim não tem desastre educacional?? A quem interessa divulgar uma informação desinformante como esta? Temos sim um desastre e se temos agora um termômetro melhor calibrado, não é que ficamos mais doentes, mas podemos acompanhar melhor o efeito dos remédios.

Acontece que esse tipo de crítica deixa de apontar o que estava errado antes e que agora ESTÁ SENDO CORRIGIDO!!!! E como foi que nos metemos nessa? Um pouco de história educacional. A ultima vez que as matrizes do Saeb forma organizadas foi em 2001. Depois de duas edições com esta matriz, o MEC divulgou o Relatório Nacional do Saeb de 2003 (ver abaixo).

Em 2006, nasce o “Movimento Todos Pela Educação”, com suas 5 metas para a educação brasileira. Esse “Movimento” não é uma iniciativa do Governo Federal, mas de empresas e pessoas que resolveram se juntar para cobrar do governo avanços na área educacional. O “Movimento” e o Governo Federal eram bastante alinhados, então, apesar das cobranças, o Programa de Metas do Governo para o Ministério da Educação à época tinham o mesmo nome –  Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação:

O Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação é a conjugação dos esforços da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, em regime de colaboração, das famílias e da comunidade, em proveito da melhoria da qualidade da educação básica.

Aí o “Movimento” fez o que o Governo Federal deveria ter feito, mas não teve coragem de fazer, o que, sem dúvida, é um mérito. O Movimento Todos Pela Educação estabeleceu os patamares considerados adequados ou não ao aprendizado esperado de cada série. Só que, como os dados do Saeb anterior tinham sido desastrosos, o “Movimento” estabeleceu os seguintes patamares, sendo depois seguindo pela Fundação Lemann, que era a principal apoiadora de um site que expõe de maneira super bem organizada as notas dos alunos brasileiros, o Q-Edu. Sem dúvidas, iniciativas meritórias do setor privado, que ocupa o vácuo deixado por um governo irresponsável.

A referência ao relatório do INEP, de onde foram tirados os patamares apontados abaixo está na pg. 30 do Primeiro Relatório de Olho nas Metas de 2008, que não é possível achar na internet, mas cuja versão em pdf eu tenho. Uma vez, uma superpoderosa metida a manjar de educação, que sabia que eu era contra essa condescendência do TPE com os níveis de aprendizado, me mandou uma versão do relatório do TPE com um bilhetinho “carinhoso” porque eu, segundo ela, “não tinha entendido os critérios”. Affff, que bom que eu não tenho mais que aguentar essas figuras!

Níveis estipulados pelo MEC/Inep (2006) Série/Ano Muito crítico Crítico Interme-diário Adequado*
4ª série /5º ano do EF 0-125 125-175 175-250 >250 (200)
8ª série /9º ano do EF 0-125 125-175 175-250 >250 (300)
3º ano do EM 0-125 125-175 175-250 >250
Níveis estipulados pelo TPE       Adequado  
4ª série /5º ano do EF »200
8ª série /9º ano do EF »275
3º ano do EM »300
Níveis do site Q-Edu Insufi-ciente Básico Profi-ciente Avançado
4ª série /5º ano do EF 0-149 150-199 200-249 » 250
8ª série /9º ano do EF 0-199 200-274 275-324 » 325
3º ano do EM NA NA NA NA

Fonte: minha tese….;)

A página 45 do Relatório do Saeb de 2001 e 2003 mostra que menos de 5% dos alunos tinha alcançado o patamar que, à época, era chamado de Adequado. Vejam os destaques.

Tabela 7 – Percentual de estudantes nos estágios de construção de competências
Língua Portuguesa – 4ª série do EF – Brasil – Saeb 2001 e 2003
Estágio (*) 2001 2003
Muito Crítico 22,2 18,7
Crítico 36,8 36,7
Intermediário 36,2 39,7
Adequado 4,9 4,8
Total 100,0 100,0
(*) Em 2001, 59% dos estudantes da 4ª série do ensino fundamental estavam
nos níveis Muito Crítico e Crítico. Esse percentual, em 2003, caiu para 55%.

E, na página 46, a explicação do que era o nível Adequado, que apresentavam desempenho acima de 250 e não 200, como apontou o TPE. Vejam a diferença:

250 pontos em LP – São leitores com nível de compreensão de textos adequado à série. São leitores com habilidades consolidadas. Estabelecem a relação de causa e conseqüência em textos narrativos mais longos; reconhecem o efeito de sentido decorrente do uso da pontuação; distinguem efeitos de humor mais sutis; identificam a finalidade de um texto com base em pistas textuais mais elaboradas; depreendem relação de causa e conseqüência implícita no texto, além de outras habilidades.

Na mesma página, temos a referência do nível Intermediário, que decorria de desempenho entre 175 e 250 pontos: Começando a desenvolver as habilidades de leitura mais próximas do nível exigido para a série. Inferem informações explícitas em textos mais longos; identificam a finalidade de um texto informativo; reconhecem o tema de um texto e a idéia principal; e reconhecem os elementos que constroem uma narrativa, tais como o conflito gerador, os personagens e o desfecho do conflito, dentre outras habilidades.

Então é o seguinte, as notas podem não ser uma boa notícia, mas a ATITUDE do MEC, é!

O bilhetinho esperto e nossos índices de analfabetismo

Na semana passada, um bilhetinho super fofo e espertalhão de um menino de 5 anos “viralizou” na internet. O menino Gabriel escreveu um bilhete para a mãe, como se fosse a sua professora, a Tia Paulinha, dizendo que poderia ser feriado e que não haveria aula no dia seguinte. Além de ser o retrato do que se passa na cabeça de uma criança que está descobrindo o mundo, o bilhete, escrito praticamente sem erros e com letra firme do tipo palito, mostra o quanto é natural para crianças de meio urbano aprenderem a ler e a escrever entre os 4 e 5 anos, se, e apenas, se, forem expostas à lógica do código alfabético, à correspondência grafema-fonema (ahhhhh, o bê-a-bá?!?! – coitadinho…..), a materiais para rabiscar e estimulados a se comunicar com intenção clara, com vocabulario preciso e expandido. No caso do nosso rapazinho, a intenção era faltar à aula no dia seguinte, sabe-se lá para fazer o quê!!

O expertos que se apoderaram da construção da Base Nacional Comum Curricular retiraram qualquer menção à estabelecer habilidades de leitura e de escrita formal para a etapa de educação infantil. Se todas as escolas brasileiras se pautassem por essa abordagem irresponsável de negar aos alunos pequenos um aprendizado que, bem conduzido por professores bem formados, é absolutamente natural, não teríamos lido o bilhetinho do Gabriel. Acontece que quando ensinar as habilidades iniciais de leitura e escrita a partir da educação infantil não está na norma – e perdemos a oportunidade de alinhar a normativa constituída pela BNCC com seus pares de países desenvolvidos – quem sofre sempre são os alunos mais pobres ou vulneráveis. Quem tem mãe educada e atenta acaba produzindo pérolas como a do Gabriel.

Com isso, quero novamente afirmar que o que fizeram com a BNCC deixando-a pouco clara e ambiciosa para o processo de alfabetização tem consequências sérias, em geral para os que mais precisam de normativas claras para protegê-los dos perigos do mundo. Entre eles, ser analfabeto!

Dois relatórios divulgados neste mês de agosto expõe a questão do analfabetismo geral na população – o INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional do Instituto Paulo Montenegro e da Ação Educativa e o Relatório SAEB-ANA 2016 Panorama do Brasil e dos Estados.

O primeiro que é a 10ª edição (a mais recente) de um relatório publicado pelas instituições aproximadamente a cada dois anos desde 2001. O estudo estatístico de uma amostra da população economicamente ativa, definida pelo IBGE como as pessoas que têm entre 15 e 65 anos, mostra os níveis de alfabetismo dessa faixa. A novidade desta edição é um histórico de todas elas, mostrando o seguinte:

a) a queda geral da proporção de analfabetos nessa faixa etária de 12% para 4% e de alfabetizados rudimentares de 27% para 22%;

b) o aumento dos níveis elementar e intermediário de, respectivamente, 28% para 34% e 20% para 25%;

c) a estagnação do nível mais alto, proficiente, em 12%!!

d) em relação aos níveis de escolaridade, apresentam níveis proficientes de leitura os entrevistados que chegaram (mas não necessariamente concluíram) ao ensino médio – 12% e ao ensino superior 34% !!!

e) 71% dos proficientes estavam empregados, contra 46% do grupo dos analfabetos.

O segundo relatório é do Inep, órgão do MEC que coleta e compila os dados das avaliações educacionais em nível federal no Brasil. Os dois são de certa forma complementares porque o do Inep mostra a situação de leitura, escrita e Matemática para os alunos das escolas públicas ao final do 3º ano do ensino fundamental.

Os números não são novidade, mas vale lembrá-los: para o conjunto dos alunos do Brasil, apenas 13% se mostram proficientes em leitura e 8% em escrita! Ou seja, nós queimamos a largada com o nosso futuro. O estado com melhor desempenho é MG, com 23% de alunos no nível mais alto de leitura e 16% no de escrita.

Este relatório do Inep é bem interessante porque traz amostras das questões e o desempenho dos alunos por nível, o que é bem interessante para os professores, além de organizar as informações de desempenho. A grande novidade que a BNCC trouxe a respeito da avaliação da leitura e escrita (e também de rudimentos de Matemática) é que a avaliação será passada para o 2º ano do ensino fundamental. Isso colocará mais pressão nos sistemas municipais e estaduais para fazerem os alunos aprenderem mais, apesar de não ter havido grande progresso na especificação da alfabetização na nova normativa curricular brasileira, como já falei aqui neste blog muitas vezes.

Preparem-se mamãe de todo o Brasil: os bilhetinhos com alerta de suspensão das aulas vão começar a chover nas suas casas!!

E o PISA? É coisa nossa…

Este era o post da semana passada, que esqueci de publicar…desculpem, leitores!

Quando eu era pequena, não perdia o program do Silvio Santos nenhum domingo. Havia um quadro com jurados e na hora de formar a mesa, a cada entrada dos membros tocavam uma musiquinha que falava o nome do jurado e um jinglezinho: é coisa nossa, mas que vai vai, mas que vai vem… então, quando algo importante entra em um cenário, estou condicionada a lembrar da musiquinha que introduzia as celebridades de então, que compunham o conjunto de avaliadores do programa de calouros do Sílvio.

O PISA está na área! O Pisa é coisa nossa! Quem nos lembrou isso é a repórter Renata Carfardo do Estadão, em mais um furo de reportagem (lembram que foi ela que dedurou o vazamento das provas do Enem em uma gráfica?). Ela conseguiu descobrir uma escola onde a prova internacional estava sendo aplicada e foi lá entrevistar os alunos. Essa informação costuma ser top secret, então foi uma sacada ela ter ido lá acompanhar a aplicação dessa importante prova, desconhecida pelo educadores brasileiros. O público só sabe do Pisa, no máximo, a posição no ranking, o que é normal. Mas para os educadores e autoridades educacionais para além do Inep (que coordena no Brasil a aplicação da prova) é essencial conhecer os aspectos técnicos de sua elaboração e o que seus relatórios revelam para o desenho e implementação de políticas públicas.

O Pisa existe desde 2000 e é aplicado para estudantes de 15 anos (entre 15 anos e 3 meses e 16 anos e 2 meses completos no início do período de testes) que estejam regularmente matriculados instituições formais de ensino, a partir do 7º ano. Assim, os alunos brasileiros que estão fora da escola e com atraso escolar de mais de 3 anos não fazem a prova. No Brasil, a série modal de aplicação do Pisa é o 10º ano, ou seja, o 1º ano do Ensino Médio. O exame foi concebido dessa forma porque tem como objetivo indicar para os países participantes o que é que os alunos que estão concluindo o que, na maioria deles, é a conclusão da educação básica e compulsória. Ou seja, medir a capacidade que os egressos do sistema mais básico de educação, no qual, em geral, os alunos estão submetidos a um único currículo, teriam para continuar estudando e aprendendo, como forma de prever a composição de capital humano de cada país.

Em 2018 são 78 países participantes, número que vem aumentando bastante desde a primeira edição de 2000, que começou com 32, sendo que 28 deles eram membros da OCDE. O Brasil, embora não membro, participou desde a primeira edição. Foi uma decisão muito ousada do Ministério da Educação à época, pois eles sabiam muito bem que os alunos brasileiros iam se sair muito mal. Mas também sabiam que o Pisa seria um importante instrumento de cobrança de qualidade de ensino, em um país em que a maioria da população não tem a menor ideia do que seja educação de qualidade.

E é exatamente por isso que me espanto quando pergunto em todas as palestras e encontros que tenho com educadores se eles já leram algum relatório de resultados ou dos aspectos técnicos do Pisa e a resposta é, para a quase totalidade das platéias, um sonoro não…

Em primeiro lugar, os relatórios técnicos do Pisa são bastante claros e explicam como os exames são preparados, o que é uma questão fácil, de nível 2 e uma questão muito difícil (que um em cada 10 acertam), do nível 6. As provas contam com questões de múltipla escolha, e dissertativas curtas e longas. Para a compreensão leitora, por exemplo, é muito interessante entender o tipo de texto que a prova apresenta. Quem for estudar as questões do Pisa vai perceber que tanto os textos, quanto as perguntas são muito diferentes das que os alunos estão acostumados, como Prova Brasil e até o Enem. Os textos chegam a ser bem mais complexos e as perguntas idem, pois são elaborados para cobrir todas as categorias de mobilização cognitiva descritas pela taxonomia de Bloom, outra referência técnica banal fora do Brasil, mas simplesmente ignorada por aqui.

Assim, recomendo que as equipes de secretarias de educação e de escolas, tanto públicas, quanto privadas, passem a estudar o Pisa e seus produtos. Não para melhorar a nota do Brasil no teste, pois, pelo menos para 2018, não dá mais tempo. Mas para aprender mais sobre as questões que revelam o que está por trás das notas e como fazer até para melhorá-las, mas, principalmente, para fazer com que os alunos aprendam a raciocinar de formas mais sofisticadas.

No site PISA Products, é possível baixar todos os relatórios técnicos que embasam a elaboração das provas  (Assessment frameworks: Theory behind the surveys – what they aim to achieve and how they’re developed) e até fazer um simulado!

O relatório de 2015 se chama ” Excellence and Equity in Education“!! Que exatamente a inspiração desde blog que acredita que podemos ter no Brasil a excelência acadêmica para todos. Mas sem entender o Pisa e os currículos dos países desenvolvidos, vai ficar muito difícil conseguir qualquer uma delas…