Uma boa notícia que desagradou os tacanhos de plantão

Na semana passada, em 30/8/2018, o MEC e o INEP divulgaram os resultados parciais da Prova Brasil de 2017. Foram divulgados os dados das notas médias por etapa e disciplina (Língua Portuguesa e Matemática), por município e estado. Não foram, portanto, divulgados ainda os IDEBs, que são o resultado da multiplicação das notas dos alunos pelas taxas de promoção. Embora seja muito importante haver um indicador que junte os dois parâmetros, para evitar que a reprovação dos piores alunos seja usada para melhoras as notas de escolas,  municípios e estados, é bom sempre olhar para as notas, pois elas apontam para o que, no conjunto, os alunos estão efetivamente aprendendo.

Foi um ato político super positivo chamar a atenção sobre a aprendizagem! Não só pela informação em si, mas porque ainda há muitas redes se destacando em Ideb às custas das taxas de promoção, E NÃO pelas taxas de aprendizagem.

Nem vamos comentar o que significam os dados apresentados na semana passada: como sempre, tudo muito ruim. Mas ter um Ministro da Educação que aponta que o problema começa na alfabetização e que temos sim sérios problemas a enfrentar não é realmente um prazer, mas é um alento do ponto de vista político. Vamos lembrar que já tivemos que aguentar um outro que dizia que a educação brasileira ia bem e que o problema estava no Ensino Médio. O que me choca é que a imprensa engole essas bobagens sem questionar e aí, óbvio, vira verdade. Ai meu Santo Gramsci!

Alguns secretários reclamam de não terem sido apresentados ainda os resultados das escolas que fazem ensino integrado, o que deverá acontecer quando forem divulgados os dados por escola. É uma questão de esperar mais um pouquinho, pois a PORTARIA Nº 447, DE 24 DE MAIO DE 2017 diz o seguinte:

Art. 3º O SAEB 2017 tem como população alvo:
I – escolas públicas localizadas em zonas urbanas e rurais que possuam 10 (dez) ou mais alunos matriculados em cada uma das etapas de 5º e 9º anos (4ª e 8ª séries) do Ensino Fundamental;
II – escolas públicas localizadas em zonas urbanas e rurais que possuam pelo menos dez alunos matriculados em cada uma das etapas de 3ª ou 4ª série do Ensino Médio, quando esta última for a série de conclusão do Ensino Médio;
III – uma amostra de escolas privadas localizadas em zonas urbanas e rurais que possuam pelo menos 10 (dez) alunos matriculados em cada uma das etapas de 5º e 9º anos (4ª e 8ª séries) do Ensino Fundamental e de 3ª ou 4ª séries do Ensino Médio, quando esta última for a série de conclusão do Ensino Médio, distribuídas nas vinte e sete Unidades da Federação;
IV – mediante adesão, escolas privadas localizadas em zonas urbanas e rurais que possuam pelo menos 10 (dez) alunos matriculados na 3ª série ou na 4ª série do Ensino Médio, quando esta última for a série de conclusão do Ensino Médio.
Parágrafo único. A população de referência do SAEB 2017 está descrita em detalhes no Anexo I desta Portaria.
Art. 4º Qualquer escola que ofereça 4ª série do Ensino Médio será avaliada somente nesta etapa, ainda que a escola ofereça a opção de certificação na 3ª série do Ensino Médio, visto que tal realidade não é identificável por meio do Censo da Educação Básica.
Art. 5º Não fazem parte da população alvo do SAEB 2017 as turmas multisseriadas, de correção de fluxo, de Educação Especial Exclusiva, de Educação de Jovens e Adultos, de Ensino Médio Normal/Magistério bem como as escolas indígenas que não ministrem o ensino em Língua Portuguesa.

No Anexo I, há um complemento que diz que:

Pertencem à população de referência […] as 3as e 4as séries do EM da seguinte forma: -Ensino Médio – 3ª Série; Ensino Médio – 4ª Série; Curso Técnico Integrado (Ensino Médio
Integrado) 3ª Série; Curso Técnico Integrado (Ensino Médio Integrado) 4ª Série

Mas o feio mesmo é ver um tremendo componente de promoção da qualidade como este (valorizar e expor o aprendizado) ser atacado pelos guardiões do atraso. Assim, o Jornal O Globo de hoje já traz alguma choradeira…

Vejam o seguinte trecho da matéria dO Globo:

MAIS CRÍTICAS: NOTAS DE CORTES ELEVADAS

O Saeb também sofreu críticas de Francisco Soares, renomado matemático, integrante do (Conselho Nacional de Educação (CNE) e ex-presidente do próprio Inep. Em um texto seu divulgado no final de semana, ele afirma que as altas notas de corte utilizadas este ano fazem o cenário parecer mais grave do que realmente é.

“Na realidade não ocorreu nenhum desastre educacional nos últimos dois anos, mas apenas a introdução de uma forma equivocada de sintetizar os dados”.

Soares destaca que o governo “arbitrou, sem nenhuma justificativa, valores para os pontos de corte muito maiores do que os que têm sido praticado”.

Oi?? Como assim não tem desastre educacional?? A quem interessa divulgar uma informação desinformante como esta? Temos sim um desastre e se temos agora um termômetro melhor calibrado, não é que ficamos mais doentes, mas podemos acompanhar melhor o efeito dos remédios.

Acontece que esse tipo de crítica deixa de apontar o que estava errado antes e que agora ESTÁ SENDO CORRIGIDO!!!! E como foi que nos metemos nessa? Um pouco de história educacional. A ultima vez que as matrizes do Saeb forma organizadas foi em 2001. Depois de duas edições com esta matriz, o MEC divulgou o Relatório Nacional do Saeb de 2003 (ver abaixo).

Em 2006, nasce o “Movimento Todos Pela Educação”, com suas 5 metas para a educação brasileira. Esse “Movimento” não é uma iniciativa do Governo Federal, mas de empresas e pessoas que resolveram se juntar para cobrar do governo avanços na área educacional. O “Movimento” e o Governo Federal eram bastante alinhados, então, apesar das cobranças, o Programa de Metas do Governo para o Ministério da Educação à época tinham o mesmo nome –  Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação:

O Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação é a conjugação dos esforços da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, em regime de colaboração, das famílias e da comunidade, em proveito da melhoria da qualidade da educação básica.

Aí o “Movimento” fez o que o Governo Federal deveria ter feito, mas não teve coragem de fazer, o que, sem dúvida, é um mérito. O Movimento Todos Pela Educação estabeleceu os patamares considerados adequados ou não ao aprendizado esperado de cada série. Só que, como os dados do Saeb anterior tinham sido desastrosos, o “Movimento” estabeleceu os seguintes patamares, sendo depois seguindo pela Fundação Lemann, que era a principal apoiadora de um site que expõe de maneira super bem organizada as notas dos alunos brasileiros, o Q-Edu. Sem dúvidas, iniciativas meritórias do setor privado, que ocupa o vácuo deixado por um governo irresponsável.

A referência ao relatório do INEP, de onde foram tirados os patamares apontados abaixo está na pg. 30 do Primeiro Relatório de Olho nas Metas de 2008, que não é possível achar na internet, mas cuja versão em pdf eu tenho. Uma vez, uma superpoderosa metida a manjar de educação, que sabia que eu era contra essa condescendência do TPE com os níveis de aprendizado, me mandou uma versão do relatório do TPE com um bilhetinho “carinhoso” porque eu, segundo ela, “não tinha entendido os critérios”. Affff, que bom que eu não tenho mais que aguentar essas figuras!

Níveis estipulados pelo MEC/Inep (2006) Série/Ano Muito crítico Crítico Interme-diário Adequado*
4ª série /5º ano do EF 0-125 125-175 175-250 >250 (200)
8ª série /9º ano do EF 0-125 125-175 175-250 >250 (300)
3º ano do EM 0-125 125-175 175-250 >250
Níveis estipulados pelo TPE       Adequado  
4ª série /5º ano do EF »200
8ª série /9º ano do EF »275
3º ano do EM »300
Níveis do site Q-Edu Insufi-ciente Básico Profi-ciente Avançado
4ª série /5º ano do EF 0-149 150-199 200-249 » 250
8ª série /9º ano do EF 0-199 200-274 275-324 » 325
3º ano do EM NA NA NA NA

Fonte: minha tese….;)

A página 45 do Relatório do Saeb de 2001 e 2003 mostra que menos de 5% dos alunos tinha alcançado o patamar que, à época, era chamado de Adequado. Vejam os destaques.

Tabela 7 – Percentual de estudantes nos estágios de construção de competências
Língua Portuguesa – 4ª série do EF – Brasil – Saeb 2001 e 2003
Estágio (*) 2001 2003
Muito Crítico 22,2 18,7
Crítico 36,8 36,7
Intermediário 36,2 39,7
Adequado 4,9 4,8
Total 100,0 100,0
(*) Em 2001, 59% dos estudantes da 4ª série do ensino fundamental estavam
nos níveis Muito Crítico e Crítico. Esse percentual, em 2003, caiu para 55%.

E, na página 46, a explicação do que era o nível Adequado, que apresentavam desempenho acima de 250 e não 200, como apontou o TPE. Vejam a diferença:

250 pontos em LP – São leitores com nível de compreensão de textos adequado à série. São leitores com habilidades consolidadas. Estabelecem a relação de causa e conseqüência em textos narrativos mais longos; reconhecem o efeito de sentido decorrente do uso da pontuação; distinguem efeitos de humor mais sutis; identificam a finalidade de um texto com base em pistas textuais mais elaboradas; depreendem relação de causa e conseqüência implícita no texto, além de outras habilidades.

Na mesma página, temos a referência do nível Intermediário, que decorria de desempenho entre 175 e 250 pontos: Começando a desenvolver as habilidades de leitura mais próximas do nível exigido para a série. Inferem informações explícitas em textos mais longos; identificam a finalidade de um texto informativo; reconhecem o tema de um texto e a idéia principal; e reconhecem os elementos que constroem uma narrativa, tais como o conflito gerador, os personagens e o desfecho do conflito, dentre outras habilidades.

Então é o seguinte, as notas podem não ser uma boa notícia, mas a ATITUDE do MEC, é!

O bilhetinho esperto e nossos índices de analfabetismo

Na semana passada, um bilhetinho super fofo e espertalhão de um menino de 5 anos “viralizou” na internet. O menino Gabriel escreveu um bilhete para a mãe, como se fosse a sua professora, a Tia Paulinha, dizendo que poderia ser feriado e que não haveria aula no dia seguinte. Além de ser o retrato do que se passa na cabeça de uma criança que está descobrindo o mundo, o bilhete, escrito praticamente sem erros e com letra firme do tipo palito, mostra o quanto é natural para crianças de meio urbano aprenderem a ler e a escrever entre os 4 e 5 anos, se, e apenas, se, forem expostas à lógica do código alfabético, à correspondência grafema-fonema (ahhhhh, o bê-a-bá?!?! – coitadinho…..), a materiais para rabiscar e estimulados a se comunicar com intenção clara, com vocabulario preciso e expandido. No caso do nosso rapazinho, a intenção era faltar à aula no dia seguinte, sabe-se lá para fazer o quê!!

O expertos que se apoderaram da construção da Base Nacional Comum Curricular retiraram qualquer menção à estabelecer habilidades de leitura e de escrita formal para a etapa de educação infantil. Se todas as escolas brasileiras se pautassem por essa abordagem irresponsável de negar aos alunos pequenos um aprendizado que, bem conduzido por professores bem formados, é absolutamente natural, não teríamos lido o bilhetinho do Gabriel. Acontece que quando ensinar as habilidades iniciais de leitura e escrita a partir da educação infantil não está na norma – e perdemos a oportunidade de alinhar a normativa constituída pela BNCC com seus pares de países desenvolvidos – quem sofre sempre são os alunos mais pobres ou vulneráveis. Quem tem mãe educada e atenta acaba produzindo pérolas como a do Gabriel.

Com isso, quero novamente afirmar que o que fizeram com a BNCC deixando-a pouco clara e ambiciosa para o processo de alfabetização tem consequências sérias, em geral para os que mais precisam de normativas claras para protegê-los dos perigos do mundo. Entre eles, ser analfabeto!

Dois relatórios divulgados neste mês de agosto expõe a questão do analfabetismo geral na população – o INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional do Instituto Paulo Montenegro e da Ação Educativa e o Relatório SAEB-ANA 2016 Panorama do Brasil e dos Estados.

O primeiro que é a 10ª edição (a mais recente) de um relatório publicado pelas instituições aproximadamente a cada dois anos desde 2001. O estudo estatístico de uma amostra da população economicamente ativa, definida pelo IBGE como as pessoas que têm entre 15 e 65 anos, mostra os níveis de alfabetismo dessa faixa. A novidade desta edição é um histórico de todas elas, mostrando o seguinte:

a) a queda geral da proporção de analfabetos nessa faixa etária de 12% para 4% e de alfabetizados rudimentares de 27% para 22%;

b) o aumento dos níveis elementar e intermediário de, respectivamente, 28% para 34% e 20% para 25%;

c) a estagnação do nível mais alto, proficiente, em 12%!!

d) em relação aos níveis de escolaridade, apresentam níveis proficientes de leitura os entrevistados que chegaram (mas não necessariamente concluíram) ao ensino médio – 12% e ao ensino superior 34% !!!

e) 71% dos proficientes estavam empregados, contra 46% do grupo dos analfabetos.

O segundo relatório é do Inep, órgão do MEC que coleta e compila os dados das avaliações educacionais em nível federal no Brasil. Os dois são de certa forma complementares porque o do Inep mostra a situação de leitura, escrita e Matemática para os alunos das escolas públicas ao final do 3º ano do ensino fundamental.

Os números não são novidade, mas vale lembrá-los: para o conjunto dos alunos do Brasil, apenas 13% se mostram proficientes em leitura e 8% em escrita! Ou seja, nós queimamos a largada com o nosso futuro. O estado com melhor desempenho é MG, com 23% de alunos no nível mais alto de leitura e 16% no de escrita.

Este relatório do Inep é bem interessante porque traz amostras das questões e o desempenho dos alunos por nível, o que é bem interessante para os professores, além de organizar as informações de desempenho. A grande novidade que a BNCC trouxe a respeito da avaliação da leitura e escrita (e também de rudimentos de Matemática) é que a avaliação será passada para o 2º ano do ensino fundamental. Isso colocará mais pressão nos sistemas municipais e estaduais para fazerem os alunos aprenderem mais, apesar de não ter havido grande progresso na especificação da alfabetização na nova normativa curricular brasileira, como já falei aqui neste blog muitas vezes.

Preparem-se mamãe de todo o Brasil: os bilhetinhos com alerta de suspensão das aulas vão começar a chover nas suas casas!!

E o PISA? É coisa nossa…

Este era o post da semana passada, que esqueci de publicar…desculpem, leitores!

Quando eu era pequena, não perdia o program do Silvio Santos nenhum domingo. Havia um quadro com jurados e na hora de formar a mesa, a cada entrada dos membros tocavam uma musiquinha que falava o nome do jurado e um jinglezinho: é coisa nossa, mas que vai vai, mas que vai vem… então, quando algo importante entra em um cenário, estou condicionada a lembrar da musiquinha que introduzia as celebridades de então, que compunham o conjunto de avaliadores do programa de calouros do Sílvio.

O PISA está na área! O Pisa é coisa nossa! Quem nos lembrou isso é a repórter Renata Carfardo do Estadão, em mais um furo de reportagem (lembram que foi ela que dedurou o vazamento das provas do Enem em uma gráfica?). Ela conseguiu descobrir uma escola onde a prova internacional estava sendo aplicada e foi lá entrevistar os alunos. Essa informação costuma ser top secret, então foi uma sacada ela ter ido lá acompanhar a aplicação dessa importante prova, desconhecida pelo educadores brasileiros. O público só sabe do Pisa, no máximo, a posição no ranking, o que é normal. Mas para os educadores e autoridades educacionais para além do Inep (que coordena no Brasil a aplicação da prova) é essencial conhecer os aspectos técnicos de sua elaboração e o que seus relatórios revelam para o desenho e implementação de políticas públicas.

O Pisa existe desde 2000 e é aplicado para estudantes de 15 anos (entre 15 anos e 3 meses e 16 anos e 2 meses completos no início do período de testes) que estejam regularmente matriculados instituições formais de ensino, a partir do 7º ano. Assim, os alunos brasileiros que estão fora da escola e com atraso escolar de mais de 3 anos não fazem a prova. No Brasil, a série modal de aplicação do Pisa é o 10º ano, ou seja, o 1º ano do Ensino Médio. O exame foi concebido dessa forma porque tem como objetivo indicar para os países participantes o que é que os alunos que estão concluindo o que, na maioria deles, é a conclusão da educação básica e compulsória. Ou seja, medir a capacidade que os egressos do sistema mais básico de educação, no qual, em geral, os alunos estão submetidos a um único currículo, teriam para continuar estudando e aprendendo, como forma de prever a composição de capital humano de cada país.

Em 2018 são 78 países participantes, número que vem aumentando bastante desde a primeira edição de 2000, que começou com 32, sendo que 28 deles eram membros da OCDE. O Brasil, embora não membro, participou desde a primeira edição. Foi uma decisão muito ousada do Ministério da Educação à época, pois eles sabiam muito bem que os alunos brasileiros iam se sair muito mal. Mas também sabiam que o Pisa seria um importante instrumento de cobrança de qualidade de ensino, em um país em que a maioria da população não tem a menor ideia do que seja educação de qualidade.

E é exatamente por isso que me espanto quando pergunto em todas as palestras e encontros que tenho com educadores se eles já leram algum relatório de resultados ou dos aspectos técnicos do Pisa e a resposta é, para a quase totalidade das platéias, um sonoro não…

Em primeiro lugar, os relatórios técnicos do Pisa são bastante claros e explicam como os exames são preparados, o que é uma questão fácil, de nível 2 e uma questão muito difícil (que um em cada 10 acertam), do nível 6. As provas contam com questões de múltipla escolha, e dissertativas curtas e longas. Para a compreensão leitora, por exemplo, é muito interessante entender o tipo de texto que a prova apresenta. Quem for estudar as questões do Pisa vai perceber que tanto os textos, quanto as perguntas são muito diferentes das que os alunos estão acostumados, como Prova Brasil e até o Enem. Os textos chegam a ser bem mais complexos e as perguntas idem, pois são elaborados para cobrir todas as categorias de mobilização cognitiva descritas pela taxonomia de Bloom, outra referência técnica banal fora do Brasil, mas simplesmente ignorada por aqui.

Assim, recomendo que as equipes de secretarias de educação e de escolas, tanto públicas, quanto privadas, passem a estudar o Pisa e seus produtos. Não para melhorar a nota do Brasil no teste, pois, pelo menos para 2018, não dá mais tempo. Mas para aprender mais sobre as questões que revelam o que está por trás das notas e como fazer até para melhorá-las, mas, principalmente, para fazer com que os alunos aprendam a raciocinar de formas mais sofisticadas.

No site PISA Products, é possível baixar todos os relatórios técnicos que embasam a elaboração das provas  (Assessment frameworks: Theory behind the surveys – what they aim to achieve and how they’re developed) e até fazer um simulado!

O relatório de 2015 se chama ” Excellence and Equity in Education“!! Que exatamente a inspiração desde blog que acredita que podemos ter no Brasil a excelência acadêmica para todos. Mas sem entender o Pisa e os currículos dos países desenvolvidos, vai ficar muito difícil conseguir qualquer uma delas…

Operação Prato Feito e o desepenho da alfabetização nos municípios de São Paulo

Imagino que qualquer pessoa que tenha visto as reportagens sobre a Operação Prato Feito tenha ficado roxo de indignação! Quem milita na área, então, como eu, chegou a sair fumacinha das orelhas…

https://g1.globo.com/sp/itapetininga-regiao/noticia/operacao-prato-feito-relatorio-da-pf-aponta-que-unidade-de-ovo-foi-comprada-a-r-1215-em-tiete.ghtml

https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/operacao-prato-feito-policia-federal-e-cgu-fazem-buscas-na-regiao-de-campinas.ghtml

http://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2018-05/pf-atualiza-numeros-da-operacao-prato-feito

No site do Ministério Público Federal foi publicada uma lista com as cidades onde encontraram irregularidades:

A Operação Prato Feito detectou irregularidades nas cidades de Águas de Lindoia, Araçatuba, Araras, Barueri, Caconde, Cosmópolis, Cubatão, Embu das Artes, Holambra, Hortolândia, Itaquaquecetuba, Jaguariúna, Laranjal Paulista, Leme, Mairinque, Mauá, Mogi Guaçu, Mongaguá, Monte Mor, Paulínia, Peruíbe, Pirassununga, Registro, São Bernardo do Campo, São Paulo, São Sebastião, Sorocaba, Tietê, Várzea Paulista, Votorantim.

Resolvi entender como estão os resultados educacionais dessas cidades citadas em seu conjunto e destacar três delas. Uma vez que não temos conhecimento exatamente há quanto tempo esses esquemas estavam sendo operados em cada cidade, apenas uma indicação geral da PF e MPF de que eram esquemas, longevos, ativos por mais de 20 anos, escolhi as cidades de Monguaguá, Barueri e Embu das Artes, porque nas reportagens sobre o caso apareceram questões que chamaram a minha atenção. Resolvi olhar o resultado delas mais de perto:

a) Mongaguá – onde a PF encontrou um expressivo volume de dinheiro em espécie ;

b) Barueri – cidade com PIB percapita dos mais altos do Estado (R$ 182 mil – 11º no ranking do País) e onde a Prefeitura tem sido envolvida em questões com a polícia e a Justiça de maneira recorrentealém das supeitas levantadas na Operação;

c) Embu das Artes – onde além de envolvimento nesta operação específica, o Prefeito encontra-se envolvido em graves suspeitas.

Então vamos aos dados. Em primeiro lugar, em relação ao conjunto do Brasil e às escolas do Estado de São Paulo. O gráfico a seguir mostra que, para a alfabetização, medida pela ANA de 2016, os alunos de mais baixa renda em escolas de municípios incluídos na Operação Prato feito (OPF) estão, aparentemente, em desvantagem em relação aos seus pares do Estado de São Paulo, mas não em relação ao restante do Brasil, onde há muitas escolas com resultados piores. Abaixo de 525 pontos a criança mal compreende o que lê no 3º ano do ensino fundemantal.

ANA_2016_BRZ_SP_PF_NSE

Em Barueri, uma cidade “rica” com PIB percapita de R$182 mil, mas onde 34,5% da população conta com renda familiar de até 1/2 SM poderia oferecer educação de melhor qualidade à sua população mais pobre, como se vê no gráfico. Mas o que se vê é que as melhores escolas com alunos de NSE mais baixo (17 – médio baixo e 18 médio) apresentam desempenho pior que seus pares no Estado de SP.

ANA_2016_BRZ_SP_PF_NSE_Barueri

O que também ocorre em Embu das Artes e em Mongaguá:

ANA_2016_BRZ_SP_PF_NSE_Embu

ANA_2016_BRZ_SP_PF_NSE_Mongagua

Muitas informações podem ser tiradas das bases de dados públicas, como essas que geraram os gráficos acima, mas será importante conhecer melhor a duração e o escopo das falcatruas envolvendo escolas nesses (e em outros, óbvio) municípios. Os gráficos mostram que se pode fazer mais, com menos. E que alunos de NSE baixo em outras cidades fora do Estado de São Paulo e fora da OPF apresentam desempenho melhor que estas. Quanto mais transparência, melhor!

 

O “strike” do Ceará no analfabetismo escolar e as novidades para 2018

Não é novidade que o Estado do Ceará vem melhorando muito a capacidade de alfabetização das escolas municipais que estão em seu território, por meio de um Regime de Colaboração que realmente funciona. A pesquisadora Catarina Segatto mostrou isso em sua tese e em artigos acadêmicos.

O que é interessante, do ponto de vista da educação, é ver, no detalhe, como um Estado pobre, muito mais pobre que os do Sudeste e Sul em termos de PIB percapita e de renda média da população, que, como sabemos tem alta relação com os resultados dos alunos, induz práticas de qualidade em seus 184 municípios, que é onde a educação realmente acontece. No Ceará a educação é praticamente 100% municipalizada nas duas etapas do ensino fundamental, para além da creche e educação infantil.

Hoje vou mostrar exemplos de materiais didáticos de alta qualidade que o Governo Estadual disponibiliza para “seus” municípios. E, como estão na internet, para quem mais quiser usar, inclusive escolas particulares, muitas delas ainda com dificuldade de alfabetizar seus alunos logo no início da escolarização.

O gráfico a seguir mostra as notas da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), que é aplicada aos alunos de 3º ano das redes públicas do Brasil. Em azul, as notas das escolas do Brasil como um todo, em verde só as do Ceará. As notas estão distribuídas pelo nível socioeconômico médio das escolas, informação que consta da base de dados da ANA de 2016. Como se vê, alguns dos alunos mais pobres do Ceará alcançam proficiência em leitura melhor que os seus pares de NSE alto ou mto alto de outros estados.

ANA_2016_BRZ_CE_NSE_Scatter

Eles fazem isso com uma série de políticas de indução, que inclui premiações, pareamento de escolas muito boas com as que precisam de mais ajuda e repasses condicionados das cotas de ICMS. Isso tudo está explicado pela Catarina Segatto. O que eu quero mostrar hoje são os materiais que o Estado disponibiliza no site do Programa de Alfabetização na Idade Certa (PAIC) na internet. É meio complicado de achar e é possível que educadores que não são do Estado nunca tenham ouvido falar nesses materiais, para os quais hoje gostaria de indicar o caminho.

O site completo é este aqui, mas os materiais de alfabetização do PAIC estão aqui. E a novidade que me fez escrever este post são os planos de aula novos de 2018, que levam em conta o currículo do Estado e a BNCC (mais o primeiro que o segundo!!). São planos de aula completos para 8 semanas de aula no caso de Língua Portuguesa e 4 para Matemática, para todos os anos do ensino fundamental 1. Está tudo ali, explicadinho em detalhes, desde como organizar a semana:

Plano_Aulas_Semanal

Até a organização de cada dia de atividades pedagógicas em si, que mostram como os alunos deverão ser alfabetizados, já sendo estimulados a ler textos autonomamente ao final do segundo mês de aulas do 1º ano, evoluindo para textos mais desafiantes e interessantes e respondendo questões idem a cada ano. No material do 1º ano não estão incluídos os textos, mas o Estado já tinha disponibilizado um conjunto deles anteriormente aquiaqui aqui.

Muito legal! Valeu Ceará!