Arquivos Mensais: março \27\UTC 2017

Webinários (seminários na WWW) de qualidade para ficar realmente por dentro de temas educacionais atuais

Todos nós sabemos que na internet tem de tudo. A máxima “o papel aceita tudo” ganhou aparente sofisticação com os variados recursos que a informática permite. Agora é a internet que aceita tudo . . . Exatamente como ocorreu nas sucessivas revoluções intelectuais, políticas e de costumes causadas pela introdução de cada nova tecnologia, cá estamos nós mudando nossa forma de ver o mundo por ter contato com ideias e práticas de outras pessoas e contextos. Desta vez, diferentemente das demais como o rádio e a TV, de maneira muito mais interativa. Uma “verdadeira” realidade virtual.

Obviamente que não falta na internet, como não faltou nos demais canais de comunicação, muito lixo para emburrecer ou limitar nossa percepção de mundo. Como sempre, há muito mais conteúdo descartável do que oportunidades de aprender de verdade, abrir as idéias, conhecer nossos conceitos e contextos. O novo campo para expansão produção de conteúdo irrelevante e tacanho é a educação formal, escolar – aquele tipo de aprendizado que depende da frequência regular a um ambiente estruturado para se aprender habilidades e conteúdos que não se aprende “na rua”, ou “na internet” no sentido amplo.

A questão é que muita gente, principalmente em países subdesenvolvidos como o Brasil, nos quais a educação escolar ainda não está bem estruturada, o conteúdo de baixa qualidade concorre de verdade com o que interessa para fazer os estudantes aprenderem mais e os professores melhorarem suas práticas.

Hoje trago duas oportunidades interessantes para realmente se aprender por meio de conteúdos gratuitos divulgados eletronicamente. Ambos têm foco em políticas educacionais e gestão de redes escolares. Uma é gringa, produzida pela OCDE no âmbito do Pisa e outra é super local, produzida pela Secretaria da Educação de Sobral, no Ceará.

Os seminários via web, ou webinários sobre os achados do Pisa, estão disponíveis aqui:

http://www.oecd.org/pisa/webinars/

Os webinários do Pisa tratam de temas muito interessantes cuja análise aprofundada foi possibilitada pela iniciativa, que teve sua primeira avaliação aplicada em 2000. Desde então produzindo uma quantidade fenomenal de dados sobre políticas e práticas educacionais, além de da captação de informação sobre o perfil social dos alunos e de condições de ensino das escolas onde estudam. Por exemplo, há um recente sobre a educação na China explicando como o sistema chinês funciona.

Já os conteúdos da Seduc Sobral apresentam alguns eventos do dia a dia da Secretaria da Educação, mas também a nova documentação curricular do município, que está aqui:

http://sobral.ce.gov.br/site_novo/sec/educacao/#

Recomendo o II Seminário sobre a Experiência Educacional de Sobral (SEES) – 20 anos, cuja próxima edição será dias 30 e 31 de março, quinta e sexta desta semana. O conteúdo depois fica disponível no site e no canal do Youtube. Esses seminários ocorrem mensalmente e são uma solução que a Prefeitura de Sobral organizou para atender à demanda por visitas à sua rede municipal que emergiu com a divulgação dos dados do Ideb de 2015. Para situar, a cidade apresentou alto rendimento de seus alunos tanto no 5º ano quanto no 9º do ensino fundamental, com o melhor desempenho no Brasil para municípios de grande porte.

As inscrições para a edição de março podem ser feitas por este link:

https://doity.com.br/seminario-educacao-sobral

Além do interesse pelo conteúdo em si de cada iniciativa, Sobral e Pisa agora vão passar a ter muito mais em comum. Em maio será aplicada a prova do Pisa para todos os alunos de 15 anos (faixa em que se concentra a avaliação) matriculados na cidade, não importando se estão na rede municipal ou estadual. Essa avaliação externa e censitária do Pisa em um município brasileiro é inédita e é decorrência direta dos novos padrões curriculares que serão implementados na cidade a partir de 2018. A cidade vai fazer um diagnóstico do desempenho de seus alunos no Pisa porque com o novo currículo a Prova Brasil não será mais capaz de medir o conhecimento dos alunos dessa cidade do sertão nordestino. Agora eles vão buscar de verdade o padrão internacional estabelecido pelos países desenvolvidos.

Fica a dica…

Mudanças no ENEM 2017 – quase tudo é bom, mas não divulgar os dados por escola é inaceitável

Semana passada (9/3/2017) o MEC anunciou as mudanças para o ENEM 2017. Eles apresentaram um ppt com os principais pontos, de maneira muito didática, aliás, como já tem sido feito para outros anúncios do Ministérios comentados e elogiados aqui.

Só que desta vez a transparência e clareza das explicações não só deixou a desejar em relação ao que foi comunicado, mas há uma brutal diminuição na forma como o MEC resolveu tratar os dados da Prova: simplesmente não divulgar mais as notas por escola.

Em primeiro lugar, vamos retomar o que foi apresentado.

O MEC tinha proposto uma consulta pública sobre como alocar as provas no calendário. Eu mesma participei e a consulta consistia de três perguntas:

1. Em quantos dias deverá ser realizada a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio?

Resp: 2 dias (63,7%) ou 1 dia (36,3%)

2. Caso o Exame continue sendo aplicado em dois dias, qual formato deverá ser realizado?

Resp: Dois domingos seguidos (43,6%); Domingo e segunda-feira – feriado escolar (34,1%); Sábado e Domingo – formato atual (23,6%)

3. Você acha que a aplicação do Enem deverá ser realizada em computador?

Resp: Sim (70,1%) ou não (29,9%)

Portanto, a consulta resumiu-se tão somente a esses pontos. Entretanto, o escopo das mudanças anunciadas foi bem maior. Além de alterar a lógica de dois dias subsequentes (sábado e domingo) passando para dois domingos consecutivos, foram feitas as seguintes alterações:

  1. O ENEM deixará de ser uma opção para certificar a conclusão de ensino médio para alunos que não tenham cursado efetivamente a etapa, mas que sejam maiores de 18 anos, o que passará a ser feito por outra prova, o Exame Nacional de Certificação de Competências de Jovens e Adultos em parcerias com Estados e Municípios (ensino fundamental e médio). Isso não foi claramente explicado, porque a mudança e por que uma prova a mais?
  2. A solicitação de atendimento especializado poderá ser feita no ato da inscrição, pois será permitida ao aluno a inserção de documento comprobatório que motive a solicitação do atendimento. OK, ótimo. Tecnologia a serviço da população!
  3. A gratuidade, que era concedida de forma linear aos Concluintes do Ensino Médio de escolas públicas, vai ser feito de forma automática a quem já é atendido por programas sociais por meio da inclusão, no ato da inscrição, do n° da Identificação Social (NIS), que permitirá busca automática no sistema. OK, ótimo. Tecnologia a serviço da população e a serviço do bom uso do dinheiro do contribuinte!
  4. Sobre a leniência em relação ao não comparecimento à prova, houve um acertado aperto: o participante que obtiver a isenção do pagamento da taxa de inscrição do Enem 2017 e não comparecer para a realização das provas do Enem perderá o benefício da gratuidade para o Enem 2018, salvo se justificar sua ausência por meio de atestado médico ou documento oficial que comprove a impossibilidade de seu comparecimento. Muito bom, os contribuintes agradecem!
  5. Será incluído um mecanismo a mais para a segurança das provas: os participantes receberão cadernos de questões personalizados (identificado com seu nome e nº de inscrição), juntamente com os cartões de resposta encartados na prova, com seu nome e nº de inscrição. Ótimo, contribuintes e interessados na lisura da prova também agradecem!
  6. O MEC já se comprometeu com a divulgação da nota do ENEM para os participantes, 19/1/2018 e a continuara a divulgação dos resultados por área de conhecimento, nota individual de cada participante, organizar a base consolidada para uso nos programas governamentais (SISU, FIES, PROUNI etc), mas anunciou que não haverá resultado do Enem por Escola. ESSA NÃO. Não divulgar os resultados do ENEM por escola é um tremendo retrocesso.

A justificativa foi tosca: algumas escolas utilizam os dados para fazer propaganda enganosa. Ok, então, usando o mesmo raciocínio, não se pode divulgar o Ideb por escola ou por município porque, muito pior, há seleção disfarçada de alunos nas escolas públicas e os prefeitos e secretários são criativos para influenciar o indicador, transferindo alunos para escolas rurais ou impedindo que determinados alunos façam a prova, reprovando nas séries anteriores etc. Um erro não justifica o outro. Há interesse público na divulgação desses dados.

As planilhas meio complexas criadas pela administração anterior do INEP eram ótimas para se conhecer melhor o sistema como um todo. É o MEC/INEP que têm a obrigação de usar seu capital humano para fazer boas apresentações dos dados e retirar um pouco da imprensa o impacto de fazer ranking empobrecidos. O MEC deve enriquecer o debate, organizando melhor as informações e não restringindo o acesso a elas.

ESSA DECISÃO PRECISA SER REVISTA!