Uma Base Nacional para formação docente que parece ser boa notícia!

No dia 13 de dezembro último, o Ministério da Educação informou que havia produzido a versão zero de um documento que deverá ser a nova referência conceitual para a formação docente em todo o Brasil: a Base Nacional Comum da Formação de Professores da Educação Básica. Este ppt aqui traz as informações básicas sobre o que o MEC está propondo.

O conteúdo dessa apresentação e as informações foram divulgadas pela Secretária de Educação Básica, Katia Smole e apontam para uma interessante e (aparentemente) positiva guinada na concepção dos cursos de Pedagogia no Brasil. Segundo o que foi informado, as etapas de elaboração do novo plano de formação docente partiriam de uma bibliografia internacional atualizada, algo óbvio, mas abandonado nas últimas décadas e que está mais do que na hora de ser revisto.

Pelo conteúdo já divulgado, parece que algumas referências mundiais ignoradas pelas escolas de formação docente serão finalmente colocadas em seus devidos lugares. Uma delas é o texto de Lee Shulman, “Knowledge and Teaching Foundations of the New Reform”, publicado na Harvard Educational Review, v. 57,n. 1, p. 1-22, em1987.

Com 30 anos de atraso em relação à publicação do texto do Prof. Lee Shulman (traduzido em 2014, por iniciativa da Profa. Paula Louzano e publicado pelo Cenpec), que representou um importante ponto de inflexão e reflexão a respeito do que os professores deveriam saber para poder ensinar com competência e profundidade a qualquer tipo de aluno. Esse texto foi e continua sendo uma importante referência técnica para formadores de docentes em países desenvolvidos. Finalmente nosso Ministério da Educação resolveu sair da caverna ideológica em que se meteu desde há muitos anos. 

Esse “esconderijo” ideológico intencionalmente escolhido por quem não quer se dar ao trabalho de ensinar alunos, em particular os mais pobres e vulneráveis, os quais dão muito mais trabalho, misturou-se ao populismo sindical que o os sucessivos dirigentes do MEC escolheram como linha de atuação. Nosso Ministério fartou-se de produzir políticas que gastam cada vez mais e não produzem nenhum avanço paupável. Entre outras publicações propositalmente banidas do cenário brasileiro pela falta de tradução e divulgação, estavam o já citado Lee Shulman e a várias vezes mencionada por mim, a Taxonomia de Bloom e suas revisões.

O que disse o Prof. Lee Shulmann em 1987 a respeito do tipo de conhecimento que os professores devem dominar, para que possam ensinar bem todos os tipos de alunos? Lógica que agora, aparentemente e, finalmente, o MEC resolve adotar para fazer a normativa de formação docente.

Categorias da base de conhecimento

Se o conhecimento do professor fosse organizado num manual, numa enciclopédia ou em algum outro formato de aglomeração de conhecimento, como seriam os títulos das categorias? No mínimo, deveriam incluir:

• conhecimento do conteúdo;

• conhecimento pedagógico geral, com especial referência aos princípios e estratégias mais abrangentes de gerenciamento e organização de sala de aula, que parecem transcender a matéria;

• conhecimento do currículo, particularmente dos materiais e programas que servem como “ferramentas do ofício” para os professores;

• conhecimento pedagógico do conteúdo, esse amálgama especial de conteúdo e pedagogia que é o terreno exclusivo dos professores, seu meio especial de compreensão profissional;

• conhecimento dos alunos e de suas características;

• conhecimento de contextos educacionais, desde o funcionamento dogrupo ou da sala de aula, passando pela gestão e financiamento dossistemas educacionais, até as características das comunidades e suasculturas; e

• conhecimento dos fins, propósitos e valores da educação e de sua base histórica e filosófica.

Esse texto é fundamental para qualquer pessoa, professor ou leigo, que queira compreender o que é realmente uma sala de aula competente, a partir da descrição que o artigo traz da atuação em sala de aula de uma professora de Língua Inglesa. Historicamente, a produção desse artigo é ainda um desdobramento da reação de acadêmicos e governos às conclusões pessimistas do Relatório Coleman. Essa reação levou ao nascimento do “movimento” das produções acadêmicas sobre escolas eficazes e eficácia escolar. Algo que estava sendo introduzido no Brasil ao final dos anos 1990 pelo Governo Fernando Henrique e Ministro Paulo Renato Souza e que foi não apenas abandonado, mas apelidado de (ohhhhh!) neoliberal pelos ativistas-sindicalistas que atuam na “academia” educacional, minando de vez qualquer possibilidade política de ser levado a sério pelos formuladores de política educacional no Brasil. Uma vergonha horrorosa que custou o apredizado de milhões de alunos!

Agora que terminei a minha tese, resolvi dar andamento a várias coisas que tive suspender pela dedicação à sua produção e à produção do currículo de Sobral. Uma delas é desenhar, junto com uma amiga super experiente no assunto, Márcia Sebastiani, que foi Pró-Reitora Acadêmica da Universidade Positivo, um curso “ideal” de Pedagogia, utilizando a bibliografia mais atualizada. Ficamos muito felizes com a coincidência de timing, por que nosso plano já era, à medida que nossa produção fosse ganhando forma, irmos publicando o que for feito, para que nossa contribuição possa ficar à disposição de quem desejar, inclusive do MEC…aguardem!

7 Respostas

  1. […] havia anunciado em um post anterior, eu e uma amiga super competente da área de formação docente, a Márcia Sebastiani, estamos […]

  2. Olá Ilona,
    Gostaria de ouvir sua opinião na polêmica que está se construindo em torno de Paulo Freire.
    Grato,
    Reginaldo Alves Jr.
    Brasília (DF)

  3. Mauricio Vilela Guerra | Responder

    Esse Ministro Indicado, Sr. Ricardo Vélez, apresenta duas posições principais relativamente claras sobre sua visão para a educação: a primeira é de que a educação deve ser concebida a partir dos municípios. Até ai tudo bem. Porém o seu segundo posicionamento, no meu entender, já prevê o desatre que será a sua gestão. Ou seja, ele diz: é preciso superar a doutrinação para uma construção ideológica de cunho marxista que, segundo ele (Ricardo Vélez), vinha sendo articulada por uma casta que estava no poder. Sério, quando o assunto é educação fica claro e óbvio que nada será superado no sentido de se eliminar qqer forma doutrinação que supostamente aqui se impunha. Não nos deixa dúvidas de que teremos uma mordaça vagarosamente sendo inserida no ambiente acadêmico e que o livre pensamento será substituído pela censura e pela falta de pluralidade. Isso sim se chama construção ideológica e este sim é efetivamente o planejamento do atual governo laranja.

    1. Oi Maurício, desculpe a demora em responder, mas estava de férias. Sinceramente, não dá para prever o futuro da educação no novo Governo Federal, até porque, não é sua responsabilidade constitucional a educação básica.
      Por outro lado, poucas coisas sobre o Ministro Vélez me animam…entendo sua preocupação. Algo que me anima é o foco do MEC na educação básica e na alfabetização, declaradamente com opção pelo método fônico (é mais detalhado que isso, mas o que foi realmente dito e publicado no decreto do MEC, me parecem muito bem concebidos). É ver os detalhes dos programas de apoio à alfabetização nos municípios para ver se há mesmo algo a comemorar.
      Sobre a tal “limpeza ideológica”, nunca soa muito bem esse tipo de afirmação vindo de um representante do estado, mas não sabemos do que se trata. Na sua área, Engenharia, é muito mais difícil fazer cortina de fumaça com o tal “lixo ideológico”, mas na área de educação eu vejo cada coisa absurda, incluindo as opções por métodos de alfabetização que já foram abandonados há décadas fora do Brasil, com base em evidências científicas massivas. A opção pelo tal incompetente método “global” é justificada por uma deferência a Paulo Freire, em uma clara má interpretação do que ele propôs para alfabetização de adultos, por exemplo, e a uma moda dita progressista dos anos 1970 que foi derrubada pelas evidências do não aprendizado dos alunos e pela Neurociência que desvendou como os alunos realmente aprendem a ler e a escrever.

      Além disso, em relação a alguma censura nas universidades, não tenho a menor ideia do que será feito, mas basta ler trabalhos acadêmicos da área no site da Anped para compreender que tipo de uso se dá ao dinheiro público em relação à pesquisa no setor da educação. Eu não sei, mas parece que é a isso a que se referem os representantes do Governo Federal gestão 2019-2022 quando falam em “lixo marxista”. Acho que temos que vigiar, como em todos os outros governos, para poder emitir opinião com base em fatos, documentos e desenhos concretos de intervenções.

  4. Acompanho seu blog, seus estudos e análises compartilhados no programa missão aluno da CBN, a forma como os apresenta me inspira muito. Fiquei bastante interessada no desenho de um curso “ideal” de Pedagogia, pretendo acompanhar. É de grande importância e relevância o desenho de um curso de graduação que alinhe a referência teórica ao que de fato é determinante para uma boa prática, visto que muitos autores da própria área nem sempre são de conhecimento dos graduados. Em relação a alguns cursos a distância e as complementações que habilitam para o ensino, com qualidade questionável, poderão sofrer os impactos das novas exigências para formação de professores?

    1. Edna, desculpe a demora, mas estava de férias. Sobre a sua pergunta: se a nova regulamentação da formação for realmente séria, sim, vai impactar, pois vai exigir mais qualidade de cada curso. Sendo que qualidade de curso para mim é conhecimento atualizado e de alto nível comprovado nos egressos. É esperar e ver. Nossa iniciativa de fazer um curso “ideal” é justamente prover um contraponto ao que provavelmente virá. Fizemos isso (não intencionalmente, no início) quando trabalhamos com a equipe de Sobral na produção de seu novo currículo de LP e Mat. Quando terminamos, enviamos para o MEC e deu para notar que as duas últimas versões incorporaram vários componentes que inserimos no documento sobralense. Não que nós sejamos gênios, mas somos organizados e nos dedicamos a estudar muito os documentos equivalentes de países desenvolvidos. Algo que o MEC deveria ter feito, com ou sem a ajuda do tal grupo “Movimento pela Base”, das ONGs empresariais. Infelizmente, esse grupo escolheu o caminho mais fácil de tentar desagradar o mínimo de gente possível e o documento do Governo Federal é muito ruim… vamos tentar repetir nossa contribuição agora. Contamos com a ajuda de nossos leitores e ouvintes!!

  5. Esse tema é pertinente e deveria estar no centro do debate pedagógico-educacional brasileiro. Os grandes autores da educação mundial são excluídos da pedagogia brasileira, o Prof. Lee Shulman, é um bom exemplo disso. Excelente artigo!

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