Teremos finalmente o EFEITO PISA no Brasil?
No dia 6 de dezembro passado conhecemos os resultados do Pisa de 2015. O Brasil participa desse exame padronizado internacional desde sua primeira edição, em 2000. Dezesseis anos depois, não houve uma única política pública educacional em nível federal que pudesse ser caracterizada como resposta direta às sucessivas vergonhas apontadas pela iniciativa. Houve algumas em estados e municípios, mas o papel constitucional da União, induzindo e apoiando financeira e tecnicamente políticas de qualidade e equidade foi praticamente desperdiçado.
Dou exemplos focando em iniciativas federaisque tiveram muita visibilidade no período de 2000 a 2015:
Em 2006 uma emenda constitucional inseriu mais um item no artigo 206, que trata dos princípios da educação no Brasil:
“(item VIII) piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, nos termos de lei federal”
Teria sido uma excelente contribuição para a qualidade do ensino se um perfil mínimo profissional tivesse sido exigido para a implementação do piso, uma política pública que ensejaria o aumento da exigência para ser profissional da educação e a mais do que justa recompensa viria a reboque. A opção foi apenas aumentar as despesas de estados e municípios, num ato do mais puro corporativismo, um exemplo entre milhares de como quebramos o Brasil sem deixar um legado positivo para trás.
Outro exemplo na mesma linha (de como quebramos o Brasil sem deixar uma herança positiva de políticas educacionais) foi o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. Criado pela Medida Provisória 586/12 (oi???? já foi usado antes, pessoal !!!!), previa gastar R$ 2,7 bilhões para criar um “ciclo de alfabetização” de 600 dias letivos (:o) para alfabetizar os alunos brasileiros até os 8 anos de idade (:0) – como é que o governo faz uma barbaridade dessas e os “formadores de opinião” apoiam???
O ciclo da alfabetização nos anos iniciais do ensino fundamental é um tempo sequencial de três anos (600 dias letivos), sem interrupções, dedicados à inserção da criança na cultura escolar, à aprendizagem da leitura e da escrita, à ampliação das capacidades de produção e compreensão de textos orais em situações familiares e não familiares e à ampliação do universo de referências culturais dos alunos nas diferentes áreas do conhecimento.
(No livreto do PNAIC: http://pacto.mec.gov.br/images/pdf/pacto_livreto.pdf – pg. 17)
A iniciativa de uma prova nacional docente que poderia induzir mudanças nos cursos de formação de professores, o currículo nacional que poderia aumentar de forma substancial o que se espera que os alunos brasileiros saibam e sejam capazes de fazer, a determinação do Custo Aluno Qualidade são exemplos de iniciativas com enorme potencial para acelerar a melhoria da qualidade da educação brasileira, mas foram engavetadas, atrasadas ou aleijadas até o presente momento. Até o caríssimo PNE (Plano Nacional de Educação), fantasia corporativista que pretende torrar 10% do PIB brasileiro sem oferecer parâmetros de qualidade à altura do gasto, é mais um infeliz exemplo de como quebrar o País simplesmente, sem construir um patrimônio social que compensasse o gasto (ver abaixo).
Ainda no Brasil, enquanto isso, alguns estados e municípios se mexeram, mas não a ponto de fazer cócegas nas notas do Pisa. Assim, tivemos um resultado de Prova Brasil estagnado e, obviamente, um Pisa digno de se cortar os pulsos.
Nesse período, fora do Brasil, muitos países fizeram mudanças substanciais em suas políticas educacionais com o objetivo de alcançar, ao mesmo tempo, a excelência e a equidade. Ou seja, não perder posições na corrida estratégica de formação de cérebros, ao mesmo tempo que se busca alcançar a justiça social. Essas reformas incluem, principalmente, um currículo academicamente rigoroso, formação docente para ensiná-lo, apoio operacional à estrutura de aprendizagem e monitoramento obsessivo do aprendizado para poder corrigir rumos.
Essa resposta estruturada às informações que o Pisa revela de maneira comparada, a introdução de novas políticas educacionais com preocupação com a excelência E COM a equidade, a maior transparência das decisões educacionais e o nível crescente de detalhe e de profundidade no debate público via imprensa e mídias sociais é o que estou chamando de EFEITO PISA.
Por aqui, a população foi às ruas e pediu, metaforicamente, educação padrão FIFA. Algo mais exigente para suceder o que o Pisa expõe: que não se aprende muita coisa nas escolas brasileiras. Entretanto, a resposta da sociedade brasileira às mazelas educacionais foi dada por meio do Congresso Nacional, que, pautado pelos sindicatos do setor educacional, burilou o texto e aprovou o Plano Nacional de Educação que prevê manter o desempenho dos alunos praticamente onde está hoje (meta 7 – chegar ao final do decênio com 473 pontos, que equivale ao nível 2 do pisa e meta 5 – alfabetizar as crianças até os 8 anos de idade), só que, como dito acima, gastando 10% do PIB.
A decisão de implementar aqui as reformas levadas a cabo em países como Canadá e Portugal, que já colhem ótimos resultados tanto em excelência, como em equidade, é política – fugir do corporativismo e da mediocridade e partir para enfrentar enormes desafios. Se resolvermos realmente priorizar a educação, teremos que quebrar paradigmas e abandonar maus hábitos. Isso vale para professores, alunos, suas famílias e até para a sociedade no seu conjunto. Exige dedicação, resiliência e ambição acadêmica. Se aplica para ricos e pobres, pois as comparações par a par envergonham também as escolas de elite – não nos enganemos.
Parte dessa inércia se deu porque os formadores de opinião de política educacional: ministério e secretarias de educação, acadêmicos, escolas de formação, ongs e jornalistas simplesmente ignoraram o que a iniciativa da OCDE oferece – informar políticas educacionais de maneira sistemática e comparada entre países/territórios. Parte disso se deve à preguiça mental, parte ao corporativismo e parte ao fato de a maioria desses atores não se sentir à vontade para ler em língua inglesa. Pois o MEC acaba de dar um passo importantíssimo na direção de, talvez, usar o Pisa como referência para alterar nossa infeliz trajetória educacional, produzindo um relatório completo, em Português, que explica o Pisa em geral e os resultados brasileiros.
Atenção, essa iniciativa do MEC configura uma quebra de paradigma muito importante. Ela só terá efeitos práticos se fizermos com que os alunos de Pedagogia e Licenciatura estudem esse relatório tanto na graduação, quanto na pós. Além disso, os formadores de opinião precisam sentar com calma e ler esse tipo de produção técnica para poder emitir suas opiniões com melhor embasamento. É isso que detona o EFEITO PISA, o resto é perda de tempo.
É uma importantíssima e positiva iniciativa do MEC/Inep e da Fundação Santillana, que estão de parabéns!
Inovação (de verdade) em sala de aula
Faço referência ao artigo de Cláudio de Moura Castro na Veja desta semana, edição 2504. Infelizmente, a Veja não oferece o link aberto para esta coluna. Pelo menos, não ainda. Mas consegui o link para o experimento ao qual ele se refere na revista, que é o que gostaria de comentar em mais detalhe hoje aqui e na CBN.
O articulista, que além da larga experiência profissional com política educacional, é um estudioso muito rigoroso do assunto educação e também consultor estratégico do Grupo Positivo de Educação, o qual resolveu encarar a aclimatação de uma ótima ideia gringa: o projeto MET – Measures of Effective Teaching da Bill and Melinda Gates Foundation.
Antes de explicar do que se trata, é importante chamar atenção para o que eu (e algumas poucas pessoas com coragem para questionar “unanimidades”) chamo de fashion week das políticas educacionais – empresários e empreendedores filantrópicos e/ou comerciais que trazem para o Brasil as últimas novidades que o mercado americano (normalmente, mas não só) criou para a educação.
Exemplos: Charter Schools, ou “escolas independentes” que estão fora das regulamentações governamentais e, principalmente, selecionam professores não sindicalizados, Teach for América ou programas ultra simplificados de formação docente para baratear o custoso processo de formação profissional, Khan Academy e outros programas de aulas ruins à distância para economizar na contratação de bons professores.
Há outros, mas esses são alguns dos “must have” dos descolados brasileiros que, como o “Homem que Falava Javanês” de Lima Barreto, se apresentam como bem informados sobre os segredos do sucesso da educação moderna “lá de fora”. A questão é que esses “must have” têm uma característica em comum: são apenas para os filhos dos outros. Dos pobres, em geral. Os fashionistas da educação brasileiros, ao contrário do que propõem para as redes públicas brasileiras, usam para os seus filhos e netos produtos tradicionais como escolas de verdade, professores bem formados e certificados fora do Brasil, em escolas estrangeiras e caras. A transposição indiscriminada desses modismos produzem inúmeras “vítimas da moda”, exatamente como no mercado de moda no qual alguns poucos se beneficiam de fazer gente simples e ignorante vestir o que não lhe cai bem.
Feita a digressão introdutória de porque eu resolvi falar desta “novidade” hoje, sigamos para ela – justamente porque não a considero uma tendência de moda passageira e baratinha, cópia tipo H&M de desfile de alta-costura, mas, ao contrário, uma iniciativa de sistematizar o que JÁ OCORRE em boas escolas, com professores de carne e osso interagindo com alunos. Aqueles professores que, no Brasil, só as pessoas muito afortunadas conseguem para seus filhos.
O legal é que o Grupo Positivo resolveu testá-la no Brasil, de forma responsável e metodológica, emitindo um relatório com seus primeiros achados. Cláudio de Moura Castro e a Reitora da Universidade Positivo, Márcia Sebastiani, são os autores do estudo que trouxe para o Brasil, sob o nome de Programa Descoberta, o original da Fundação Gates. Só para esclarecer, o Grupo Positivo é um conglomerado educacional formado por vários negócios, incluindo escolas, que participaram diretamente do projeto – além de escolas públicas da Rede Municipal de Ensino de Curitiba, onde está localizada a sede da empresa:
O Programa Descoberta é um serviço oferecido aos colégios e que tem como objetivo contribuir para o desenvolvimento profissional dos professores. Seu ponto de partida é a realização de uma pesquisa voltada à elaboração de diagnósticos do desempenho dos professores, analisando o que tem impacto no aprendizado e o que não tem. De posse destes resultados o programa passa para sua etapa de melhorar a atuação dos professores. Isto se faz por meio de feedbacks personalizados e que levam à oferta de capacitações, de acordo com as vulnerabilidades que a pesquisa identifica em cada professor.
A primeira parte dele, cujos resultados preliminares o paper divulgado no artigo apresenta, consiste da observação estruturada de aulas (ou seja, com protocolos conhecidos pelo observador e pelo observado), somada a uma pesquisa com os alunos dessas aulas sobre que aspectos delas mais os ajudam a aprender. Tem cara de Ovo de Colombo, não?
E o que essa ideia de aparência simples, mas de execução extremamente complexa, procura identificar na prática dos professores?
OS SETE Cs:
Os “7Cs” referem-se aos seguintes aspectos (do original em inglês): care, control, challenge, clarify, confer, captivate e consolidate. Abaixo, explicita-se o sentido de cada um deles:
CUIDAR (care) – professores que cuidam, desenvolvem relações de apoio aos alunos e se esforçam para cultivar um ambiente emocionalmente seguro onde todos se sentem respeitados e a aprendizagem é o foco central.
CONTROLAR (control) – professores que controlam suas salas de aula monitoram o comportamento dos alunos cuidadosamente, gerenciando e redirecionando aqueles que não estão envolvidos com as atividades. Promovem também as condições de sala de aula necessárias a uma aprendizagem ótima. Eles estabelecem rotinas eficazes e antecipam eventos que possam prejudicar o ensino.
DESAFIAR (challenge) – professores que desafiam, estão preocupados com rigor e persistência. Eles sempre impõem aos alunos altos padrões acadêmicos e comportamentais, bem como monitoram o seu esforço. Eles esperam e exigem que os alunos perseverem, mesmo quando o trabalho é difícil, mas oferecendo apoio quando necessário.
ESCLARECER (clarify) – professores que esclarecem, verificam com frequência a compreensão dos alunos, corrigem equívocos, explicam ideias e conceitos de diferentes maneiras, e fornecem feedback para que os alunos entendam como melhorar seu trabalho.
ENGAJAR (confer) – professores que engajam, buscam e valorizam os pontos de vista dos alunos. Eles oferecem oportunidades frequentes para os alunos compartilharem suas perspectivas, bem como as valorizam e as põem em prática na sala de aula.
CATIVAR (captivate) – professores que cativam, fazem o ensino envolvente. As aulas são frequentemente instigantes e relevantes para os estudantes e, por isso, mantêm a atenção deles.
CONSOLIDAR (consolidate) – professores que consolidam, ajudam os alunos a organizar o conteúdo de modo a torná-lo mais fácil de lembrar e de raciocinar. Esses professores revisam e resumem o que foi aprendido ao final de cada aula, destacando as relações entre as ideias. Eles relacionam o conteúdo com o que já foi estudado em aulas anteriores ou em outros assuntos.
O artigo completo vai bem mais longe que isso, explicando de forma resumida e bem objetiva, em português, o que foi feito. Recomendo fortemente a leitura. Mas a mensagem com a qual gostaria de encerrar meu post de hoje é a seguinte: a luta dos brasileiros de agora em diante é ter EM CADA SALA DE AULA do Brasil um professor com essas características.
ISSO É A TAL EDUCAÇÃO PADRÃO FIFA que as massas pediram nas ruas em 2013. O resto é enrolação!
Contribuições privadas para o setor público devem ser reguladas . . .
. . . E devem atender aos interesses da coletividade!
É lugar comum fazer afirmações “polianísticas” de que crise = oportunidade. Nos olhos dos outros, uma crise brava é sempre uma oportunidade para alguém, em geral não afetado por ela, ganhar alguma coisa … Mas, é possível que, dependendo do contexo, uma mexida em cenário caótico possa sim trazer um efeito benéfico, mesmo para quem foi atropelado por um evento negativo.
Vejamos.
A crise financeira em que está mergulhado o setor público brasileiro, o qual esbanjou-se na festa de criar oportunidades para o setor privado enriquecer ainda mais, concentrar renda ainda mais e desviar recursos da coletividade para bolsos exclusivos como nunca, talvez possa ajudar a modernizar um pouco as relações entre diferentes setores da sociedade.
Além de aprender a otimizar recursos realmente escassos, o setor público vai ter que aprender a mobilizar outros recursos disponíveis na sociedade. Neste caso, ao invés de pegar carona e surfar uma onda pública para poucos, o setor privado está sendo convidado a coçar o bolso e ajudar a polícia do Estado do Rio de Janeiro a continuar (e, quem sabe, até a melhorar!) os serviços policiais que oferece à população.
O Estado do Rio de Janeiro está entrando em colapso, mas parece que surgiu uma boa ideia que está sendo materializada de forma organizada e republicana. Se o que foi escrito no papel é mesmo o que vai acontecer no mundo real, nunca se sabe, mas o setor da educação bem que podia aprender um pouco com a iniciativa.
Trata-se do Edital de Chamada Pública – Programa Juntos com a Polícia (infelizmente não consigo inserir o link para leitura completa aqui porque o site da Imprensa do Estado requer cadastro individualizado). Inúmeras notícias sobre a iniciativa saíram na Imprensa:
http://www.valor.com.br/politica/4763603/policia-civil-do-estado-do-rio-recorre-doacoes-de-empresas
http://veja.abril.com.br/brasil/rj-sem-dinheiro-policia-civil-pede-doacoes-a-empresarios/
Nosso ramo é outro, a educação. Nas escolas e secretarias municipais e estaduais do Brasil todo e, PRINCIPALMENTE, no Ministério da Educação, não faltam empresários e ongs oferecendo ajuda. Mas nem sempre, aliás, na maioria das vezes, a ajuda não vem na forma como regula o edital da Polícia Civil Estadual que:
a) credencia, de maneira transparente e equitativa, as empresas interessadas (neste caso apenas as empresas com fins de lucro) em ajudar, materialmente, um órgão público
b) limita a possibilidade de credenciamento às empresas que esteja em regularidade fiscal e em pleno funcionamento (deixa de fora “bandidos” querendo participar por meio de empresas-fantasma, por exemplo)
c) exige que as empresas descrevam o que vai ser doado no processo de credenciamento
d) prevê uma comissão que vai analisar as ofertas e cujo resultado será publicado em um sítio na internet
e) possibilita às empresas fazerem propaganda de si por meio apenas de folhetos distribuídos pelas delegacias (não há previsão para colar logos no sítio da Polícia Civil, por exemplo)
f) obriga o órgão público a prestar contas do uso dos recursos doados em até 60 dias do fim do edital
g) permite às empresas monitorar o uso da doação
h) PROÍBE qualquer tipo de contrapartida da Polícia Civil à empresa
Chamo atenção para essa iniciativa da Polícia do Rio de Janeiro porque as escolas brasileiras, assim como muitas secretarias da educação e até o MEC viraram um verdadeiro convescote de interessados em vender produtos, ideias e agendas (intenções e modismos) ao setor educacional brasileiro.
Já testemunhei empresário que reformou a casa e despejou seus móveis velhos e biblioteca desatualizada em escola (quem quer hoje a Enciclopédia Barsa e Conhecer dos anos 1970??), ongs vendendo projetos e soluções sem a devida concorrência pública, programas inúteis e caríssimos como “Um Computador Por Aluno” e outras ideias de tecnologia vendidas como panaceia para o setor público. Uma farra. As escolas e setor educacional como um todo podem se beneficiar de parcerias com o setor privado, e até com pais de alunos e empresários? Óbvio que podem.
Entretanto, o que deve guiar esse tipo de associação público-privada é o bem comum, o interesse doa alunos, os princípios de equidade e de excelência. As empresas e ongs deveriam se apresentar ao setor educacional de forma transparente, regulada PELO SETOR público, e não o contrário. Muitas escolas e secretarias reclamam da interferência externa, das prioridades invertidas, dos interesses escusos, mas são pressionadas por seus prefeitos e governadores a aceitar o que vem, sem que as prioridades sejam realmente atendidas, ou que o interesse coletivo dos alunos seja verdadeiramente contemplado. Há uma certa intimidação velada, pois alguns empresários são também doares de campanhas, há marcas muito fortes nas ongs: às vezes é difícil resistir. Mas a questão é que o ônus de prestar contas dos resultados e da lisura das ações é imputado APENAS ao gestor público – o setor privado não é obrigado a cumprir as mesmas restrições.
Está na hora de o setor público tomar as rédeas do processo de estabelecimento de “parcerias” como faz agora a Policia do Rio. Se vai dar certo ou não, o futuro dirá. Mas que o princípio de o estado controlar muito bem que RECEBE do setor privado está corretíssimo!
O currículo pode induzir o comportamento colaborativo? Veja como
Como já informei em posts anteriores, estamos finalizando uma nova proposta curricular para o Município de Sobral, no semi-árido do Estado do Ceará, a rede de ensino público municipal que apresenta os melhores resultados no Brasil.
Para produzir um documento com a importância e competência que uma rede com excelentes resultados como a de Sobral requer, precisamos estudar em profundidade uma variedade de documentos curriculares de países desenvolvidos E COM BOM desempenho no Pisa. A intenção era otimizar a enorme energia investida nos alunos sobralenses por meio de objetivos pedagógicos bem mais ambiciosos.
Esse estudo nos deu a oportunidade de descobrir padrões de caraterísticas comuns a todos os países estudados, que apareciam de forma implícita ou explícita. Tudo o que conseguimos identificar para a disciplina de Língua portuguesa trouxemos para o documento de Sobral de forma explícita e detalhada. Esse cuidado, em si, já é uma importante quebra de paradigma para o ambiente de produção curricular brasileiro.
Hoje eu trago um deles: apresentar habilidade de interação cordial e respeitosa dentro do eixo de ORALIDADE.
Antes de seguir, gostaria de explicar um outro passo importante que demos intencionalmente na produção do currículo de Sobral: definir de maneira bem clara as “responsabilidades” de cada etapa de ensino. Assim, a pré escola deve “introduzir o aluno lógica escolar acadêmica”, ou seja, mostrar ao aluno que a escola é um lugar diferente da casa dele, no qual há regras, que essas regras valem para todos, que existem justamente para o bem de todos, que há uma nova autoridade e que ela se comporta de maneira diferente dos adultos de sua família. Além disso, mesmo, que com brincadeiras, há uma intenção de ensinar “coisas” neste novo lugar cheio de amiguinhos. Ou seja, o aluno precisa compreender, com muito respeito e acolhimento das suas características individuais, que a escola não é a sua casa e que ali o seu comportamento talvez tenha que passar por algumas mudanças.
Assim, para a ORALIDADE, decidimos que até o meio do ensino fundamental I os alunos já deveriam dominar a competência/expectativa “Respeitar as regras de cortesia e de interação”, que no 3º ano é descrita da seguinte forma:
| Respeitar as regras de cortesia, combinadas pelo grupo, nas diversas situações de interação,
a) ouvindo sem interromper; i) reagindo de forma pacífica diante de conflitos; |
Eu sei, eu sei, muitos adultos não dominam essas habilidades, mas é justamente isso que queremos mudar, certo?
Uma outra expectativa que inserimos no currículo de Sobral foi “Realizar apresentações orais”, que descrevemos conforme abaixo que mostra o para essa expectativa finalizado no 9º ano:
| Realizar apresentações orais planejadas e/ou ensaiadas previamente,
a) desenvolvendo eloquência; b) utilizando diferentes tipos de recursos, quando necessário; c) assegurando introdução, desenvolvimento e breve conclusão, no caso de explanação de trabalhos; d) expondo, detalhadamente, os temas abordados em uma sequência lógica; e) adequando a linguagem ao contexto; f) integrando o espectador à apresentação; g) apresentando, quando necessário, seu posicionamento diante da opinião de outros, de forma respeitosa; h) sintetizando os pontos abordados. |
Eu sei, eu sei, muitos adultos que a gente conhece também não conseguem fazer apresentações dessa maneira, certo?
Para vocês, queridos leitores, perceberem como é importante ter um currículo AMBICIOSO, COERENTE, CLARO E COM PROGRESSÃO!
Todas as escolas do Brasil podem seguir esse tipo de coisa. Quem quiser ter acesso ao currículo em sua versão preliminar é só escrever para mim em ilona@exequi.com
Obrigada!
Cuidado com o que seus filhos fazem com as “telinhas”
Na semana passada a Associação Americana de Pediatria divulgou novas recomendações para o uso de telas e tecnologia por crianças. Elas deixam claro que os adultos da casa devem determinar limites territoriais e temporais para o uso de telas para as crianças e para toda família. O uso indiscriminado de telas e tecnologia pode ter impactos negativos na saúde, educação e interação social de seres humanos, das crianças em particular.
A exposição excessiva à TV sempre houve e é parte de um quadro de negligência parental já conhecido por todos nós. Crianças que ficam fechadas em casa na frente da TV, comem diante da TV, brincam pouco, não lêem, não interagem entre si não são exemplos desconhecidos das sociedades atuais. Ainda mais no Brasil, onde 100% dos lares têm acesso a TV aberta, em um contexto de baixa escolaridade e aspirações culturais e baixa renda. O abuso de TV e outras telas não é exclusivo de ambientes de pobreza, mas quem não pode contar com opções variadas de lazer fica mesmo refém das telinhas.
Com o advento das tecnologias interativas e dos inúmeros casos de cyber bullying e até das recorrentes tragédias resultantes de jogos online que expõem as crianças a desafios perigosos, como o que vitimou um menino de 13 anos nos últimos dias, o abuso das telinhas tem chamado mais atenção da sociedade, dos médicos e educadores.
O que era uma babá eletrônica, agora virou uma grande ameaça. Assim, os médicos da AAP fazem recomendações gerais para o uso de “telas”. Qualquer tela que faça as crianças brincarem menos, dormirem menos, interagirem menos e comerem de forma inconsciente e compulsiva.
São 3 documentos que deveriam ser lidos pelos pais (estão em inglês) e, particularmente pelas autoridades educacionais e médicas brasileiras para que possam recomendar e monitorar as famílias em relação ao uso de telinhas na vida das pessoas – o comportamento das crianças e jovens reflete o dos adultos responsáveis por elas
Media e as mentes jovens:
http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2016/10/19/peds.2016-2591
Uso de medias para crianças e adolescentes em idade escolar:
http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2016/10/19/peds.2016-2592
Crianças e adolescentes e as medias digitais:
http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2016/10/19/peds.2016-2593
Resumo das recomendações da Associação Americana de Pediatria
- Para as crianças com idade inferior a 18 meses, evitar o uso de produtos tecnológicos, a não ser as interações entre pessoas por meio de videoconferências.
- Os pais de crianças de 18 a 24 meses de idade que querem introduzir a mídia digital devem escolher uma programação de alta qualidade, e assisti-la com seus filhos para ajudá-los a entender o que eles estão vendo.
- Para crianças de 2 a 5 anos, limite o uso de tela de 1 hora por dia de programas de alta qualidade. Os pais devem assistir junto com as crianças para ajudá-los a entender o que eles estão vendo e como o conteúdo se relaciona com o mundo em volta deles.
- Para crianças com idades a partir de 6 anos, colocar limites claros e consistentes sobre o tempo gasto com meios de comunicação e certificar-se que as mídias não tomam o lugar do sono adequado, da atividade física e de outras atividades essenciais para a saúde.
- Designar as atividades conjuntas livres de mídia, como as refeições ou deslocamentos no carro, bem como locais livre de mídia em casa, tais como quartos e sala de jantar
- Manter uma comunicação contínua sobre cidadania e segurança on-line, incluindo a tratar os outros com respeito on-line e off-line.
Detalhando as recomendações
Designar em casa áreas livres de telas
Cozinha ou sala de jantar e de refeições:
- as refeições em família e as ocasiões sociais são livres de tecnologia ou telas em geral
Quartos:
- recarregar dispositivos durante a noite fora do quarto, mensagens e chamadas recebidas podem interferir com o sono
- ajudar as crianças a evitar a tentação de usar ou verificar dispositivos quando eles deveriam estar dormindo
- luz emitida a partir de dispositivos de carregamento ainda pode afetar a qualidade do sono do seu filho
Restringir os horários de uso de telas – não se usa celulares e outras telas nos seguintes horários:
- Uma hora antes de dormir
- Durante as refeições
- Tempo conjunto da família
- Na hora do dever de casa
- Na escola
- Andando na rua
- No carro, a não ser em viagens longas
Nas horas de lazer, usar as telas da seguinte maneira:
- Assistir medias com um dos pais ou de adultos, pois permite a interação e discussão. As crianças aprendem melhor a partir da mídia, de programas educativos e de vídeos quando em conjunto e com interação pai-filho ou adulto-criança
- Jogar jogos de vídeo e usando aplicativos com um dos pais ou adultos. As crianças aprendem mais a partir da mídia quando eles compartilham a experiência com um adulto.
- Monitoramento dos pais na conexão com seus filhos e adolescentes. Permite que os pais tenham melhor avaliação de como os filhos estão gastando seu tempo.
- Interagir com os amigos ou parentes
- Brincar com aplicativos criativos, educacionais e promover interações saudáveis com os outros
- Assistir a show e vídeos apropriados para a idade e junto com adultos
- Jogar em aplicativos educativos
Mais de 80.000 aplicativos são rotulados como educacionais, mas um pouco de pesquisa tem demonstrado a sua qualidade real. Produtos lançado como “interativos” devem exigir mais do que “empurrar e deslizar os dedos.”
Use a mídia de uma forma que promove a interação, conexão e criatividade. Diferentes tipos de mídia podem ter cada potenciais benefícios, por isso o uso da mídia é melhor diversificada de modo a que nem todos do seu tempo é gasto fazendo uma atividade específica.
Outras regras importantes:
NÃO jogar jogos de vídeo que são contra as regras da nossa família, tanto em casa quanto na casa dos amigos ou parentes
NÃO baixar aplicativos, filmes, jogos, sem autorização e perguntar a um adulto se eles são apropriados para a minha idade
NÃO visitar novos sites ou sites de vídeo sem pedir permissão