Cuidado com o que seus filhos fazem com as “telinhas”

Na semana passada a Associação Americana de Pediatria divulgou novas recomendações para o uso de telas e tecnologia por crianças. Elas deixam claro que os adultos da casa devem determinar limites territoriais e temporais para o uso de telas para as crianças e para toda família. O uso indiscriminado de telas e tecnologia pode ter impactos negativos na saúde, educação e interação social de seres humanos, das crianças em particular.

A exposição excessiva à TV sempre houve e é parte de um quadro de negligência parental já conhecido por todos nós. Crianças que ficam fechadas em casa na frente da TV, comem diante da TV, brincam pouco, não lêem, não interagem entre si não são exemplos desconhecidos das sociedades atuais. Ainda mais no Brasil, onde 100% dos lares têm acesso a TV aberta, em um contexto de baixa escolaridade e aspirações culturais e baixa renda. O abuso de TV e outras telas não é exclusivo de ambientes de pobreza, mas quem não pode contar com opções variadas de lazer fica mesmo refém das telinhas.

Com o advento das tecnologias interativas e dos inúmeros casos de cyber bullying e até das recorrentes tragédias resultantes de jogos online que expõem as crianças a desafios perigosos, como o que vitimou um menino de 13 anos nos últimos dias, o abuso das telinhas tem chamado mais atenção da sociedade, dos médicos e educadores.

O que era uma babá eletrônica, agora virou uma grande ameaça. Assim, os médicos da AAP fazem recomendações gerais para o uso de “telas”. Qualquer tela que faça as crianças brincarem menos, dormirem menos, interagirem menos e comerem de forma inconsciente e compulsiva.

São 3 documentos que deveriam ser lidos pelos pais (estão em inglês) e, particularmente pelas autoridades educacionais e médicas brasileiras para que possam recomendar e monitorar as famílias em relação ao uso de telinhas na vida das pessoas – o comportamento das crianças e jovens reflete o dos adultos responsáveis por elas

Media e as mentes jovens:

http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2016/10/19/peds.2016-2591

Uso de medias para crianças e adolescentes em idade escolar:

http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2016/10/19/peds.2016-2592

Crianças e adolescentes e as medias digitais:

http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2016/10/19/peds.2016-2593

Resumo das recomendações da Associação Americana de Pediatria

  • Para as crianças com idade inferior a 18 meses, evitar o uso de produtos tecnológicos, a não ser as interações entre pessoas por meio de videoconferências.
  • Os pais de crianças de 18 a 24 meses de idade que querem introduzir a mídia digital devem escolher uma programação de alta qualidade, e assisti-la com seus filhos para ajudá-los a entender o que eles estão vendo.
  • Para crianças de 2 a 5 anos, limite o uso de tela de 1 hora por dia de programas de alta qualidade. Os pais devem assistir junto com as crianças para ajudá-los a entender o que eles estão vendo e como o conteúdo se relaciona com o mundo em volta deles.
  • Para crianças com idades a partir de 6 anos, colocar limites claros e consistentes sobre o tempo gasto com meios de comunicação e certificar-se que as mídias não tomam o lugar do sono adequado, da atividade física e de outras atividades essenciais para a saúde.
  • Designar as atividades conjuntas livres de mídia, como as refeições ou deslocamentos no carro, bem como locais livre de mídia em casa, tais como quartos e sala de jantar
  • Manter uma comunicação contínua sobre cidadania e segurança on-line, incluindo a tratar os outros com respeito on-line e off-line.

Detalhando as recomendações

Designar em casa áreas livres de telas

Cozinha ou sala de jantar e de refeições:

  • as refeições em família e as ocasiões sociais são livres de tecnologia ou telas em geral

Quartos:

  • recarregar dispositivos durante a noite fora do quarto, mensagens e chamadas recebidas podem interferir com o sono
  • ajudar as crianças a evitar a tentação de usar ou verificar dispositivos quando eles deveriam estar dormindo
  • luz emitida a partir de dispositivos de carregamento ainda pode afetar a qualidade do sono do seu filho

Restringir os horários de uso de telas – não se usa celulares e outras telas nos seguintes horários:

  • Uma hora antes de dormir
  • Durante as refeições
  • Tempo conjunto da família
  • Na hora do dever de casa
  • Na escola
  • Andando na rua
  • No carro, a não ser em viagens longas

Nas horas de lazer, usar as telas da seguinte maneira:

  • Assistir medias com um dos pais ou de adultos, pois permite a interação e discussão. As crianças aprendem melhor a partir da mídia, de programas educativos e de vídeos quando em conjunto e com interação pai-filho ou adulto-criança
  • Jogar jogos de vídeo e usando aplicativos com um dos pais ou adultos. As crianças aprendem mais a partir da mídia quando eles compartilham a experiência com um adulto.
  • Monitoramento dos pais na conexão com seus filhos e adolescentes. Permite que os pais tenham melhor avaliação de como os filhos estão gastando seu tempo.
  • Interagir com os amigos ou parentes
  • Brincar com aplicativos criativos, educacionais e promover interações saudáveis com os outros
  • Assistir a show e vídeos apropriados para a idade e junto com adultos
  • Jogar em aplicativos educativos

Mais de 80.000 aplicativos são rotulados como educacionais, mas um pouco de pesquisa tem demonstrado a sua qualidade real. Produtos lançado como “interativos” devem exigir mais do que “empurrar e deslizar os dedos.”

Use a mídia de uma forma que promove a interação, conexão e criatividade. Diferentes tipos de mídia podem ter cada potenciais benefícios, por isso o uso da mídia é melhor diversificada de modo a que nem todos do seu tempo é gasto fazendo uma atividade específica.

Outras regras importantes:

NÃO jogar jogos de vídeo que são contra as regras da nossa família, tanto em casa quanto na casa dos amigos ou parentes

NÃO baixar aplicativos, filmes, jogos, sem autorização e perguntar a um adulto se eles são apropriados para a minha idade

NÃO visitar novos sites ou sites de vídeo sem pedir permissão

6 Respostas

  1. Olá Ilona.
    Infelizmente (ou felizmente) não posso concordar com alguns pontos deste texto, escrito de forma tão generalista. Sou educadora há 20 anos, Mestre em Ensino pela UNICAMP, Especialista em Educação Especial e Transtorno do Espectro Autista, Psicopedagoga e mãe de adolescente com Síndrome de Asperger. Trabalho com supervisão e orientação de escolas no âmbito da educação inclusiva e adaptação curricular.
    Não fosse as telas, muitas crianças e adolescentes com deficiências não se desenvolveriam, como o meu filho. Não fosse os computadores não teríamos a oportunidade de desenvolver tantos projetos educacionais e milhares de estudantes não teriam a oportunidade de desbravar outros ambientes.
    Assim sendo, acredito que este texto poderia ter tido um tom diferente. Poderia ter sido escrito com o intuito que o título traz e não com o rumo que tomou.
    Dizer que um jogo pode direcionar uma fatalidade como a que ocorreu com o garoto de 13 anos? Desculpe-me… A Psicologia pode explicar o que estou falando. Quando ouvi ontem na CBN seu comentário anotei logo o blog para procurar e ler. Meu filho saía da escola quando veio me contar sobre o ocorrido, eu já sabia mas esperei ele falar e emitir sua opinião. Ele joga também online, aprendeu a se comunicar com outras pessoas até em inglês, fala com pessoas da Hungria, Japão, e do outro extremo do Brasil. Ele aprendeu a interagir em grupo, a respeitar a vez do outro, a ganhar e perder, a lidar com frustrações, todas estas dificuldades da Síndrome que tem. Não tem ideias suicidas, sabe diferenciar o real da fantasia do jogo.
    O tal jogo, League of Legends ou o Dota, um outro jogo da mesma linha, NÃO exigem qualquer desafio. Não propõem qualquer forma de desafio ou disputa valendo prêmios ou punições físicas, pelo contrário, dão a possibilidade de banir ou suspender aqueles que extrapolam em palavras de baixo calão ou que não respeitam as regras dos desenvolvedores.
    Acredito que devem haver regras sim para o uso da tecnologia, mas, é muito mais uma questão de dizer NÃO à terceirização da educação dos filhos do que para dizer que jogos podem fazer mal ao desenvolvimento de uma criança/adolescente. É provado cientificamente, e você, como doutoranda da USP, pode inclusive na Faculdade de Educação mesmo, buscar pelos grupos que pesquisam os jogos como elementos para desenvolver o cognitivo, a coordenação motora, as emoções e tantas outras interfaces destas fases tão importantes do ser humano. Sejam eles eletrônicos ou de tabuleiros, não importa, a questão é: os pais estão preparados para educar seus filhos para o que se oferece tecnologicamente? Os que não estão, com certeza devem se esconder atrás de todas as regras possíveis e imaginárias. Os que não entendem ou não buscam entender do que se trata o jogo que seu filho usa ou com quem o seu filho conversa durante as partidas, devem com certeza privá-los daquilo que hoje é ferramenta de exclusão ou inclusão, dependendo do ponto de vista. Abraço!

    1. Olá Profa. Fabiana,
      Obrigada por sua mensagem e sugestões. O boletim Missão Aluno é um programa semanal bem curto para comentar políticas educacionais e aspectos gerais de educação. Os comentários são normalmente mais generalistas pois são milhares e ouvintes a serem informados. Claro que casos específicos interessam, mas na linguagem da mídia de massa são tratados dessa maneira: especificamente, o que não era o objetivo do programa a que você se refere.
      O objetivo do programa que você ouviu era comentar a notícia da revisão da AAP sobre o tema das telinhas e alertar os ouvintes de maneira ampla.
      A mensagem no rádio e aqui no blog é a mesma: cuidado com o que o seu filho tem acesso por meio das telinhas – o conteúdo, duração e horário da exposição fazem diferença.
      Li sua mensagem com vagar e percebo que estamos de acordo: dizer não à terceirização da interação com filhos e alunos – a interação entre seres humanos é essencial e eu acredito nela!
      Os jogos são apenas assessórios aos processos de interação e aprendizado e acho que, mesmo eles dando contribuições a ambos, devem permanecer como tal.
      Exatamente como você relatou que fez com seu filho!

  2. Simone Kubric Lederman | Responder

    Oi Ilona, acabei de ouvir sua coluna na CBN e agradeço muito o seu esclarecimento de que tecnologia na Educação só faz sentido se promover mobilização cognitiva. Sou pedagoga e Mestre em Psicologia pela FEUSP e montei um Instituto chamado Catalisador que desenvolve projetos de Ciências e Cultura, Tecnologias e Artes junto a escolas públicas em São Paulo. Em encontros, seminários e congressos que tenho participado, fico espantada com muitas startups que usam tecnologia para aparentemente inovar no campo pedagógico, apenas reiterando a aula tradicional de forma digital. Enfim! Também sou mãe de uma menina de 7 anos que está aprendendo piano e fiquei interessada em saber qual é o jogo que comprou para sua filha…

    1. Olá Simone, foi o “Cut the Rope” pacote completo. Gosto muito de jogar com ela. É bastante complexo de lógica e rapidez de reflexos – a gente se diverte muito.

  3. Gostaria de indicação de jogos realmente interativos para crianças de 4 e 6 anos.
    Obrigada!

    1. Fernanda, eu limpei tudo há duas semanas e até agora coloquei todas as versões de um joguinho chamdo “Cut the Rope” que eu gosto muito de jogar com a minha filha e um app para treinar piano indicado pela Profa da minha filha: MyNote. Ainda estou aprendendo!

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