Os dados e as soluções: o desenho está melhorando

Nas últimas semanas tivemos vários eventos ligados à política educacional brasileira em âmbito nacional:

  1. A divulgação dos dados do Saeb/ Prova Brasil
  2. A divulgação dos dados gerais do ENEM e, em particular, dos dados por escola 
  3. A apresentação da Medida Provisória de reforma do ensino médio e
  4. A apresentação do manual de redação do ENEM 2016
  5. A divulgação dos dados do censo de educação superior 2015 pelo MEC

Os itens 1 e 2 nos apresentaram, MAIS UMA VEZ, o cenário pavoroso em que se encontra a educação brasileira. Os dados da Prova Brasil, aplicada de forma censitária a praticamente todos os alunos matriculados nos anos finais de cada uma das etapas do ensino fundamental (5o e 9o anos) e de forma amostral ao final do ensino médio (fazendo parte do Saeb – para entender a diferença, acesse o link do item 1 acima), nos mostram que os alunos de 5o ano começam a esboçar uma trajetória mais consistente: ao invés de, como vinha sistematicamente ocorrendo de 2005 a 2013, apenas as escolas com melhores notas conseguirem aumentar a nota da prova, as piores também “descolaram” do fundo do poço e começaram a aumentar. Mas não nos enganemos, quase todas as escolas vão muito mal e todas as redes públicas de ensino também. A única rede que mostra um avanço expressivo, com quase todas as escolas obtendo já no 5o ano a nota esperada para o 9o, é a já famosa rede de Sobral, no sertão do Ceará.

As planilhas por escola que trazem os dados do ENEM mostram que a elite da elite dos alunos brasileiros, ou seja, aqueles que permaneceram estudando até o final do da educação básica E QUE desejam avançar para o ensino superior, sabem muito pouco em relação ao que deveria lhes ter sido ensinado (apesar de ainda não termos um documento curricular que nos diga o que seria, contamos apenas com os descritores das provas e com uma certa “tradição” de ensino – cada vez mais rala, diga-se de passagem). Uma forma fácil de se perceber isso é analisar as notas das redações. Se os alunos, recém saídos da escola, por onde andaram nos últimos 13/14 anos, uma vez que as crianças no Brasil são obrigadas a entrar na escola aos 4 anos, não conseguem escrever uma redação argumentativa sobre um tema da atualidade, como é que vão conseguir levar até o fim o ensino superior??

Os dados do censo do ensino superior mostram que quase a metade dos alunos desistiram do curso superior em 2014. A crise econômica e os cortes no Fies tanto têm impacto na entrada de novos alunos, que diminuiu no último ano, como na sua permanência no curso, mas muitos alunos desistem também ao perceber que o curso não “se paga”, ou seja, que cursar o ensino superior não necessariamente garantirá um emprego que, pelo menos, amortize o investimento. Alguns desistem também por não acompanhar as exigências acadêmicas que a sua carreira universitária lhes faz. O melhor preditor individual de desempenho no ensino superior é justamente a capacidade do aluno de produzir uma redação argumentativa (!)

Assim, o MEC traz dois importante elementos de política pública para mitigar as mazelas desenhadas pelos dados: a proposta de reforma do ensino médio e o novo manual de redação do ENEM. A reforma ainda precisa ser melhor explicada e compreendida, para poder ser votada sem grandes alterações. Como já comentei neste blog o desenho é bom.

A outra boa notícia é o manual de redação, ainda mais detalhado que os anteriores. É importante lembrarmos que alunos mais vulneráveis normalmente só conseguem contar com professores igualmente vulneráveis do ponto de vista de sua formação e de sua capacidade de ensinar. Desenvolver a capacidade de fazer boas redações exige ao mesmo tempo um empenho de escrita diária e um professor com disponibilidade de corrigir os erros e de apresentar opções para sua solução. Sabemos que nem um nem outro são hábitos consolidados nas escolas brasileiras, como consequência, redações que alcancem a nota máxima também o são!

Vamos lembrar que passamos alguns anos relativizando a importância da Gramática. Ela nem foi incluída na primeira versão da Base Nacional Comum (!). Só que os examinadores das provas o ENEM, assim como os das provas nas universidades e no mercado de trabalho valorizam sim a norma formal ou culta da língua. Negar isso no público e cobrar no privado é uma forma de exacerbar a desigualdade.

Assim, temos mais uma boa notícia em termos do DESENHO das políticas públicas de educação. Resta-nos saber como será o seu uso e implementação nas salas de aula do País, em especial aquelas mais vulneráveis….

Dois exemplos do que o manual traz. Para quem estava acostumado a ver um documento mais genérico, ai vão uns exemplos do que o documento novo apresenta.

Aspectos que caracterizam a normal formal da língua portuguesa:

Concordância nominal e verbal; – regência nominal e verbal; – pontuação; – flexão de nomes e verbos; – colocação de pronomes oblíquos (átonos e tônicos); – grafia das palavras (inclusive acentuação gráfica e emprego de letras maiúsculas e minúsculas); e – divisão silábica na mudança de linha (translineação).

ESTRATÉGIAS ARGUMENTATIVAS – São recursos utilizados para desenvolver os argumentos, de modo a convencer o leitor: • exemplos; • dados estatísticos; • pesquisas; • fatos comprováveis; • citações ou depoimentos de pessoas especializadas no assunto; • pequenas narrativas ilustrativas; • alusões históricas; e • comparações entre fatos, situações, épocas ou lugares distintos.

Quanto mais os alunos brasileiros se apropriarem desse manual de redação e de todos os outros que se podem achar na internet, assim como criar o hábito de escrever sobre um tema atual diariamente, mesmo que sem ninguém para corrigir, mais rápido as notas das redações sobem e com elas a capacidade de argumentar dos brasileiros. Mas, ao mesmo tempo, temos que usar esta mesma capacidade de expor ideias para cobrar das autoridades que garantam a TODAS AS SALAS DE AULA do Brasil professores que trabalhem e corrijam as redações dos alunos TODAS AS SEMANAS!!

6 Respostas

  1. […] O Governo Federal já fez a sua parte investindo recursos em uma prova nacional que se mostrou um sucesso, embora ainda tenha muito o que melhorar em termos do que exige que os alunos façam e dos critérios de correção – ver post da semana passada a respeito do novo manual de redação do ENEM. […]

  2. Ilona, indubitavelmente, a devolutiva e produção textual constantes são imprescindíveis para uma melhor fluência escrita dos alunos. Contudo, é também crucial problematizarmos a correção:
    Quantos são os alunos, nas salas de aula? As correções serão realizadas no período de trabalho do professor? Ou serão somadas às tantas outras horas de trabalho não remunerado (horas essas que “sacramentam” também a visão do professor como sendo “missionário”)? A grade horária “sustentará” devolutivas, reescritas e análises de novas propostas textuais, para além, claro, do tempo regimentado, repeitado de planejamento pedagógico?
    Certamente, as cobranças que devem ser feitas às autoridades pressupõem mais do que exigências generalizantes quanto à conduta do professor, que é um profissional. É preciso que existam meios que permitam que o professor realize o seu trabalho.

  3. […] O Governo Federal já fez a sua parte investindo recursos em uma prova nacional que se mostrou um sucesso, embora ainda tenha muito o que melhorar em termos do que exige que os alunos façam e dos critérios de correção – ver post da semana passada a respeito do novo manual de redação do ENEM. […]

  4. Ana Lucia Albuquerque Sculhan | Responder

    Apreciei por demais a forma clara,própria de quem sabe do que e para quem está falando,apresentada por vc e a equipe do programa Materia de Capa.

  5. ILONA E PAULA,
    a atuação de vocês merece todo o incentivo e aplauso.
    Afinal, estão tentando ressuscitar um ente em choque anafilático.
    O antígeno causador e insidioso – a mediocridade – é acolhido pela sociedade como catalizador da inclusão e da igualdade. O perigo reside exatamente aí, acobertado pelos discursos demagógicos e cínicos.
    Não esmoreçam: a guerra é cruenta e longa. Estou na batalha, desde a Reforma Capanema!!!
    Feliciano Ribeiro

    1. Obrigada, Feliciano! Não pretendemos esmorecer.

Obrigada por enviar seu comentário objetivo e respeitoso.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: