Um currículo do sertão para o Brasil. Fica a dica, prefeitos novos!

Passadas as eleições municipais, com os novos mandatários escolhidos na maior parte dos municípios do Brasil e alguns candidatos que ficaram afiando o discurso para a nova rodada de votação, gostaria de completar aqui no blog a apresentação do trabalho que a equipe técnica da Secretaria de Educação do Município de Sobral, no Estado do Ceará, coordenada pela Paula Louzano e por mim, produziu como nova proposta curricular de Língua Portuguesa.

No post “Um currículo para guiar a busca por novos caminhos” já apresentei a estrutura do novo documento curricular da localidade e hoje gostaria de apresentar os perfis de saída da educação infantil e do 9º ano. Todas as séries da educação básica são, obviamente, essenciais para preparar o aluno para sua vida pós-escolar, ou o conjunto delas não se chamaria “educação básica” e não seria obrigatoriamente oferecida pelo Estado! Exatamente por causa disso, olhar para cada etapa, com uma inspiração estratégica para delimitar a contribuição de cada uma delas para o que se espera desse investimento brutal da sociedade, é fundamental.

Foi isso que fizemos durante todo o processo de criação do documento, que demorou quase dois anos para ficar pronto: pensar estrategicamente em como produzir um guia de planejamento pedagógico para cada escola ou rede que resolver implementá-lo. Aproveitamos os resultados das eleições para convidar os novos prefeitos a pensar estrategicamente também e a conhecer o que estamos propondo. Aí vai.

Como quem leu o post anterior já sabe, o currículo foi dividido em 4 eixos: Oralidade, Leitura, Escrita e Gramática. O aluninho que sai da educação infantil deverá estar pronto para a vida escolar formal que se inicia e chamamos esse nível (que agrega de forma lógica os quatro eixos) de “Expectativas de introdução à lógica escolar acadêmica”. Isso quer dizer que esperamos que a criança na educação infantil tenha conseguido, em média, o seguinte:

1.1.1 Desenvolvido a consciência fonêmica e 2.1.1 Desenvolvido a consciência alfabética

2.1.2 Decodificar

3.1.1 Desenvolvido as habilidades motoras finas e a 3.1.2 Apropriar-se do sistema de escrita

4.1.1  Incorporado, de modo funcional, as regras fonéticas e fonológicas e 4.1.2 Incorporado, de modo funcional, as regras morfológicas

Detalhando, significa que o aluno, ao entrar no 1º ano do ensino fundamental será capaz de:

Análisar quase autonomamente palavras do padrão canônico e não canônico,

a) identificando os sons de suas letras;
b) identificando os seus pares mínimos;
c) operando na contagem, pronúncia, junção, separação e repetição de suas letras e sílabas em trissílabas;
d) pronunciando-as de forma audível, articulada e correta.

Respeitar quase autonomamente, as regras de cortesia, combinadas pelo grupo, nas diversas situações de interação,

a) ouvindo sem interromper;
b) demonstrando atenção no interlocutor;
c) adequando a sua linguagem corporal;
d) pedindo a palavra para expor suas ideias;
e) modelando o tom de voz nas interações comunicativas;
f) utilizando as formas de tratamento adequadas;
g) colaborando com a elaboração do conjunto dos valores e das regras de convivência da classe, escola e/ou rede.

Realizar, quase autonomamente, apresentações orais  planejadas e/ou ensaiadas previamente,

a) desenvolvendo eloquência;
b) utilizando recursos visuais, quando necessário.

Expressar-se, quase autonomamente, de maneira efetiva nas diferentes interações,

a) pronunciando, de forma articulada e com clareza palavras, frases, perguntas, queixas, opiniões ou manifestações gerais;
b) utilizando vocabulário familiar de forma correta;
c) fazendo uso da persuasão, sem coação, quando conveniente;
d) mantendo-se no tema abordado.

Compreender texto oral,

a) reconhecendo o tema geral abordado;
b) selecionando alguns de seus elementos e/ou informações principais.

Desenvolver a consciência alfabética, quase autonomamente:

a) identificando o nome da maior parte das letras do alfabeto, nas diferentes formas de grafia (maiúscula e minúscula, não cursiva e cursiva);b) diferenciando letras de algarismos arábicos, de símbolos e marcas de seu cotidiano, fazendo leitura de textos verbais e não-verbais; c) reconhecendo pares mínimos em palavras do padrão canônico e não canônico em estudo; d) identificando sílabas, inicial e final, de palavras do padrão canônico e não canônico em estudo; e) operando na contagem, pronúncia, junção, separação e repetição de letras e sílabas de palavras do padrão canônico e não canônico.

Decodificar, quase autonomamente, palavras de até 4 sílabas do vocabulário familiar, formadas por fonemas em estudo, desenvolvendo a automação e a fluência.

Ler, quase autonomamente, palavras de até 4 sílabas do vocabulário familiar, de forma audível e compreensível, respeitando os princípios da precisão e prosódia.

Compreender, a partir da leitura, textos não verbais ou frases curtas, localizando informações explícitas.

Analisar texto narrativo não verbal, identificando a) as situações inicial e final (Enredo); b) os grandes eventos (Sequência/Tempo); c) os principais cenários e lugares (Espaço); d) os personagens principais (Personagem).

Desenvolver, quase autonomamente, as habilidades motoras finas, escrevendo palavras e frases curtas com escrita não cursiva, em suporte de pauta simples ou dupla.

Apropriar-se do sistema de escrita, escrevendo a) o próprio nome completo e correto na forma cursiva; b) reconhecendo diferentes formas de grafar a mesma letra; c) palavras, frases e sequências de frases, com escrita não cursiva de nível silábico-alfabético.

Copiar orientações simples curtas.

Registrar informações coletadas a partir de uma fonte de pesquisa, combinando desenhos, ilustrações e escrita própria.

Produzir pesquisa referente a um assunto de seu cotidiano, transcrevendo perguntas e hipóteses formuladas a partir da discussão, em sala, sobre o tópico a ser pesquisado.

Construir uma narrativa, a partir da combinação de desenhos, ilustrações e escrita própria, a) contando um único evento ou vários eventos pouco conectados entre si (Estrutura/Enredo); b) usando, no mínimo, um evento simples em sequência de ordem cronológica (Sequência/Tempo); c) apresentando, no mínimo, um espaço físico (Espaço); d) descrevendo, no mínimo, um personagem plano com características físicas muito gerais (Personagem).

Construir um texto injuntivo, quase com autonomia, a partir da combinação de desenhos, ilustrações e escrita própria ou coletiva, a) instruindo o leitor acerca de um procedimento; b) induzindo que o leitor proceda de uma determinada forma; c) utilizando linguagem simples; d) descrevendo ações.

Incorporar, de modo funcional, as regras e os mecanismos de estrutura e formação das palavras de padrão canônico e não canônico, para decodificá-las corretamente, diferenciando, encontros vocálicos; dígrafos vocálicos; dígrafos consonantais (LH, CH, NH, SS e RR); /s/ (S, C e SS); /R/ (R e RR); /ʃ/ (X e CH); /k/ (K e C); /Ʒ/ (G e J); • /z/ (Z e S).

E já que estamos em época de reforma do ensino médio, acreditamos que as alterações que foram propostas pelo Governo Federal só vão ser boas para os alunos brasileiros e para o Brasil se os alunos estiverem aptos a performar o mesmo que estamos propondo para os alunos de Sobral:

Respeitar as regras de cortesia, combinadas pelo grupo, nas diversas situações de interação,

a) ouvindo sem interromper;
b) demonstrando atenção no interlocutor;
c) adequando a sua linguagem corporal;
d) pedindo a palavra para expor suas ideias;
e) modelando o tom de voz nas interações comunicativas;
f) utilizando as formas de tratamento adequadas;
g) colaborando com a elaboração do conjunto dos valores e das regras de convivência da classe, escola e/ou rede;
h) evitando o uso de palavras com potencial ofensivo;

i) reagindo de forma pacífica diante de conflitos;
j) respeitando a opinião dos demais.

Realizar apresentações orais planejadas e/ou ensaiadas previamente,

a) desenvolvendo eloquência;
b) utilizando diferentes tipos de recursos, quando necessário;
c) assegurando introdução, desenvolvimento e breve conclusão, no caso de explanação de trabalhos;
d) expondo, detalhadamente, os temas abordados em uma sequência lógica;
e) adequando a linguagem ao contexto;
f) integrando o espectador à apresentação;
g) apresentando, quando necessário, seu posicionamento diante da opinião de outros, de forma respeitosa;
h) sintetizando os pontos abordados.

Expressar-se de maneira efetiva nas diferentes interações,

a) pronunciando, de forma articulada e com clareza palavras, frases, perguntas, queixas, opiniões ou manifestações gerais;
b) utilizando vocabulário familiar de forma correta;
c) fazendo uso da persuasão, sem coação, quando conveniente;
d) mantendo-se no tema abordado;
e) conectando o tema abordado com suas próprias ideias;
f) corrigindo sua fala mediante percepção de erro;
g) explicando seu raciocínio aos interlocutores;
h) reformulando o que lhe foi dito pelo interlocutor;
i) apresentando, quando necessário, seu posicionamento diante da opinião de outros;
j) avaliando a extensão da fala;
k) questionando pontos de vista, com argumentos, de maneira coerente ao contexto;
l) sintetizando os pontos abordados.

Compreender, a partir da leitura, texto não verbal, verbal ou que articula elementos verbais e não verbais. a) localizando informações explícitas ou parcialmente explícitas e os trechos que as comprovem; b) inferindo informações e, a partir de trechos, comprová-las; c) reconhecendo as relações lógico-discursivas, repetições ou substituições estabelecidas por recursos coesivos, por meio de trechos que os comprovem; d) apreendendo o sentido e o efeito do sentido de palavras ou expressões; e) reconhecendo o efeito de sentido decorrente do uso da pontuação ou dos recursos tipográficos, estilísticos e morfossintáticos; f) estabelecendo relação de causa e consequência entre as partes de um texto; g) reconhecendo o efeito de humor ou ironia em textos diversos; h) distinguindo um fato de uma opinião relativa a este fato, por meio de trechos que os comprovem; i) diferenciando a informação principal das secundárias, por meio de trechos que a comprovem.

Analisar texto narrativo, a) explicando a construção dos diferentes momentos do enredo e as escolhas feitas pelo autor, por meio de trechos que as comprovem (Enredo); b) identificando como a interligação dos eventos ajuda a construi-los e caracterizá-los, por meio de trechos que as comprovem (Sequência/Tempo); c) comprovando, por meio de trechos, como a construção dos diferentes espaços influencia no desenvolvimento (Espaço); d) identificando a conexão entre os diferentes papeis exercidos pelos personagens, por meio de citações do texto, e como suas ações e características individuais e coletivas contribuem para a construção do enredo (Personagem); e) identificando o narrador e sua perspectiva (1ª/3ª pessoa) ou opinião sobre os acontecimentos e personagens, com reflexão de quando e por que muda de ideia, se for o caso, por meio de trechos que o comprovem (Narrador).

Comparar textos escritos, de temática e gêneros idênticos ou não, a) reconhecendo como este tema é abordado por diferentes autores, ou em culturas ou épocas distintas, por meio de trechos que os comprovem; b) analisando semelhanças e diferenças entre estruturas, elementos e informações; c) identificando posições distintas entre duas ou mais opiniões relativas a um mesmo fato ou tema, por meio de trechos que os comprovem; d) integrando aspectos complementares, quando apresentados, por meio de trechos que os comprovem; e) comprovando evidências ou interpretações diferentes, por meio de trechos.

Anotar os pontos principais de orientações, explicações ou exposições, a) selecionando questionamentos para discussão posterior; b) destacando a conexão entre eles; c) construindo esquema que contenha uma sequência lógica; d) fazendo o uso de paráfrase.

Registrar informações coletadas a partir de diversas fontes de pesquisa, a) anotando pontos relevantes; b) listando as referências utilizadas. c) estabelecendo categorias conforme as evidências; d) citando partes que confirmem sua credibilidade e veracidade; e) fazendo uso de paráfrases e citações, sem plágio.

Produzir pesquisa, com método científico, referente a um assunto de seu interesse, a) formulando perguntas e hipóteses, a partir da reflexão sobre o tema; b) coletando dados e informações; c) citando partes que confirmem ou refutem as hipóteses levantadas; d) complementando, com suas próprias ideias, a análise das informações; e) elaborando uma conclusão.

Redigir texto narrativo a) contando os eventos reais ou imaginários, com a capacidade de estabelecer uma situação inicial, detalhes relevantes no desenvolvimento e uma ideia para o seu encerramento que seja consequência dos eventos narrados anteriormente (Estrutura/Enredo); b) usando vários eventos bem elaborados em sequência de ordem cronológica, histórica e/ou psicológica com uma variedade de marcadores de tempo e a transição entre eles (Sequência/Tempo); c) apresentando, vários espaços com detalhes de suas características físicas e sensoriais, bem como a transição entre eles (Espaço); d) descrevendo pelo menos um personagem redondo, com sua descrição física, psicológica e social e a relação e a percepção da hierarquia (personagem principal, secundário, antagonista, etc.) entre eles na história (Personagem); e) usando narrador observador, personagem ou onisciente, com demonstração/mudança de seu ponto de vista ou não, em discurso indireto e/ou direto (Narrador).

Redigir uma dissertação-argumentativa, a) expondo o tema principal do texto, de forma específica, buscando delimitá-lo; b) expondo algumas hipóteses sobre o problema apresentado (Hipótese); c) explicitando o ponto de vista central defendido no texto sobre o qual se pretende convencer o interlocutor, a partir das hipóteses levantadas (Tese); d) usando pelo menos três argumentos que justifiquem, com evidências, a opinião exposta e a hipótese escolhida (Argumentos); e) usando pelo menos um contra-argumento, quando convier, que refute alguns dos argumentos (Contra-Argumentos); f) construindo uma conclusão, a partir dos argumentos apresentados, e da confirmação ou refutação da hipótese escolhida (Conclusão).

Fica a dica, pessoal! Quem quiser receber o documento completo quando ele ficar pronto, por favor escreva para ilona@exequi.com. Até breve!

 

2 Respostas

  1. Maria Leticia Fonseca | Responder

    A cada dia que passa fico mais apavorada! Optei por estudar para ajudar meu filho de 5 anos e não ser mais um dado estatístico de fracasso! Comecei com um curso de método fônico, que foi extremamente revelador e ajudou MUITO meu filho a adquirir a consciência fonêmica. Ele estava apenas decorando as palavras e aí esbarro na metodologia da escola! O que eles estão fazendo la?? E é cara a escola viu?! E o pior que não vejo saída! A melhor nota de redação do Enem da minha cidade girou em torno de 820 pontos! Isso porque a mensalidade da melhor escola da cidade é quase 5 mil por mês! Pesquisei todas as escolas! Uma por uma! Plano pedagógico, estrutura e resultados! Acho que fazer meu filhote saber ler, compreender e escrever corretamente, vai ficar mais por minha conta e do meu marido! Esse plano diretor que vocês detalharam aqui é muito completo e fiquei triste porque não acredito que meu filho seja capaz de preencher todos os requisitos para avançar! Ele ainda tem mais um ano antes de ingressar no 1 ano do ensino fundamental. Uma fase tão importante, com decisões tão difíceis pra tomar! Obrigada.

    1. Maria Leticia,

      Só posso, além de agradecer sua mensagem, me solidarizar com ela e com sua aflição. Eu troquei minha filha de uma escola brasileira e cara aqui em São Paulo para a Escola Britânica depois que voltei de Sobral a primeira vez. O pior é que tem gente que por razões políticas, ideológicas e até por inveja, investe tempo em falar mal de Sobral, ao invés de ir conhecer o projeto mais de perto. Acho que você pode confrontar a escola com o material que preparamos para lá, conversar com outras mães dependendo da abertura delas. A comparação dos nossos filhos com seus pares de mesmo nível socioeconômico em países desenvolvidos é de cortar os pulsos. Quando pensamos na China, então, dá realmente medo. Ninguém aqui no Brasil fala disso abertamente. Muitos interesses escusos em jogo. Realmente, ou os pais se mobilizam, ou nossos filhos vão pagar um preço muito alto.

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