Comissão de Educação da Câmara dos Deputados debate a BNCC

Ontem (31/5), na Câmara dos Deputados, a Comissão de Educação iniciou um ciclo de debates sobre a Base Nacional Comum Curricular. Segue abaixo o link para o evento, inclusive com as apresentações (em ppt) de quem se dispôs a fazê-lo, como eu.

Este é o resumo que a Câmara preparou sobre o evento, de onde se pode baixar as apresentações em ppt, incluindo a minha.

http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/ce/noticias/programacao-para-o-ciclo-de-debates-sobre-o-bncc-dos-dias-31-05-e-02-06

Lamentável o nível das discussões. Alguns convidados foram lá apenas para falar para suas bases, o que até é normal em um contexto de discussão política, mas não deixa de ser reprovável, pela oportunidade que se perde de fazer uma interlocução séria e relevante que faça o tema avançar. Não acho que seja nem atribuição, nem a melhor opção para desenhar essa importante política pública que é o currículo, debatê-la no Congresso. Mas mostra que há um interesse em saber o que foi fabricado em relação ao tema durante os últimos governos, uma vez que há importantes críticas aos documentos até aqui divulgados.

Além da superficialidade das intervenções, o assunto” Escola sem Partido” dominou o cenário com suas duas vertentes patéticas: os órfãos do poder procurando assunto para se manter nas paradas de sucesso e os radicais do conservadorismo também agitando o ambiente para marcar posição. Falarei algum dia sobre esse assunto inútil e irrelevante, mas que tem ocupado espaço de ouro no debate que deveria, prioritariamente, oxigenar o ensino da Língua Portuguesa e da Matemática.

Os alunos brasileiros hoje mal aprendem a ler e a escrever. Muitos deles saem da escola antes de cumprir todas as etapas obrigatórias. Ao invés de irmos consultar os currículos e as reformas educacionais de países desenvolvidos, para saber o que andamos fazendo de errado e que opções existem para consertar, ficamos debatendo o sexo dos anjos.

Nesse sentido, a melhor intervenção, a que me pareceu mais honesta e pertinente, foi a do Dep. Eduardo Cury, do PSDB de SP (ele foi Prefeito de São José dos Campos por 2 mandatos), que fez um “desabafo sobre a pouca ênfase que se dá à Língua Portuguesa e à Matemática”, que deveríamos “parar tudo e centrarmos” nas duas disciplinas para formar “uma boa base para se aprender as outras coisas”. Disse o Deputado: “Eu sinto vergonha do que ensinamos de Português e de Matemática. Nós fugimos disso porque é muito mais difícil formar um professor de Português e Matemática do que ficar inventando um monte de coisas paralelas, é muito mais barato para o poder público fazer.”

Mas melhor ainda foi o que ele disse sobre a “hipocrisia da classe política: quando nós, a classe política, ganhamos um salário de 25 mil Reais, que é o que um deputado ganha, nós deixamos de ser de esquerda, pegamos nossos filhos e os colocamos na escola privada, porque teoricamente achamos que lá é o melhor para o meu filho. Mas na hora de consultar e ouvir quem tem o melhor sistemas de ensino, a gente não pode consultar por ideologia.”

E continuou:  “Essa decisão da classe política tem que ser a mesma decisão que eu tomo quando estou dentro da minha casa, quando eu tomo a decisão para os meus filhos eu tenho que também fazer para o público: não faça no público aquilo que você não faz na sua casa.”

Este é o link para os vídeos de todas as intervenções, inclusive dos debates, onde aparece a intervenção do Dep. Eduardo Cury: http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/ce/videoArquivo?codSessao=56336

E este é o link para baixar o vídeo dele: http://vod2.camara.gov.br/cod/rest/download?p=nul3vmxygwkazfby–uvfa&d=1

É isso, as pessoas que defenderam a alfabetização aos 8 anos para o filho DOS OUTROS normalmente têm os seus na escola privada, onde a alfabetização se dá logo no início da escolarização. A BNCC foi feita para não funcionar, para não incomodar quem forma os professores que sabem pouco sobre o que e como ensinar, mas que se sentem à vontade para apresentar suas convicções políticas para seus alunos. Parece que vivemos um momento de questionar tudo. Pode ser que isso atrapalhe o desenho da BNCC. Vai depender do senso de urgência e do compromisso do MEC com um documento que equipare os filhos e netos de seus quadros técnicos aos filhos e netos dos trabalhadores e servidores de escalão mais baixo. A ver…

 

6 Respostas

  1. Thelma de Carvalho Guimarães | Responder

    Ilona, recentemente tive a oportunidade de assistir à sua apresentação durante o Seminário “A BNCC e a definição de currículos, conteúdos e materiais didáticos”, organizado pela Abrale/Abrelivros. Também vi os vídeos com suas intervenções durante esse assustador seminário da Câmara e, a propósito, parabenizo-a por ter mantido a calma e tentado explicar àqueles desinformados a importância do currículo nacional (será que entenderam?). Gostaria de lhe perguntar como a senhora vê o perigo de a BNCC ser decidida pelo Congresso. A nova versão da Base ainda não está perfeita, é claro, mas pelo menos foi e está sendo discutida por especialistas – coisa que nossos caros deputados estão muito longe de ser. O que podemos fazer para impedir que todo esse trabalho seja jogado no lixo (a meu ver, é o que acontecerá se for parar no Congresso)?

    1. Telma, peço mil desculpas por só responder agora. Eu faço meu blog no meio das dezenas de obrigações profissionais e estou aprendendo a lidar com esse meio aos poucos. Acho que a versão nova vai ficar mesmo só com o CNE. Me parece que o Congresso agora já tem coisas demais em suas mãos e o documento já está bastante bom para ser aprovado como está.

  2. Sabe qual é o verdadeiro mal: a COMODIDADE, seja política ou de pais e mestres.
    Políticos querem lucrar com aprovação de novos projetos, nem que seja para criar novos temas. Professores se abonam com a mesmice sem aprofundamento prático, mais estudo e criatividade. Pais, que na maioria das vezes, se quer se interessam em conhecer a grade curricular dos filhos, e se realmente está sendo cumprida com proveito. Muitos por ignorância e na maioria das vezes por indiferença.
    Parabéns pela Luta sua e da Paula, que ainda defendem a Educação no país.
    Higia Faetusa

    1. Obrigada Higia, é verdade. Estamos acomodados demais. Espero que um dia acordemos para nos educar de verdade!

  3. moises espirito santo | Responder

    Infelizmente com a maioria expressiva,dos políticos, é sempre uma hipocrisia! a educação,que para eles é uma vantagem a ignorância total,pessoas ignorantes,e despreparadas😞!!!

    1. Moises, os políticos refletem as escolhas da sociedade. Faltam lideranças para mostrar que é possível fazer diferente e como fazê-lo. As referências existem, a questão política é qual a referência escolhemos.

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