Conhecer os jovens é fundamental para termos escolas melhores e um País melhor

Está sendo lançado pela FLACSO (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), em parceria com a OEI (Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura) e o MEC/Brasil, o livro “Juventudes na escola, sentidos e buscas: Por que frequentam?” coordenado por Miriam Abramovay.

A FLACSO é um organismo internacional, intergovernamental, autônomo, presente em 19 países, com atividades que abrangem programas, estudos, pesquisas e formação, inclusive na área de educação.

O livro é a apresentação de uma pesquisa de campo que usou questionários e grupos focais para entender como pensam os jovens de 15 a 29 anos de idade frequentando em redes municipais ou estaduais o ensino médio em idade regular (de 15 a 18 anos) ou EJA ou Projovem Urbano, etapas e programas de ensino fundamental e médio para quem já passou da faixa etária de frequentar a escola – a partir dos 19 anos. A principal pergunta que o estudo queria responder é “porque alguns jovens permanecerem na escola e outros a abandonam?”.

Do ponto de vista formal, no Brasil são chamadas de jovens as pessoas que têm idade na faixa etária entre os 15 e 29 anos. Antes disso são crianças e depois, adultos. Do ponto de vista social, jurídico e moral, é considerado adulto quem tem mais de 18 anos. Mas o conceito de jovem é uma construção de cada sociedade e varia nas diferentes culturas, que podem aceitar ou não, conviver harmônica ou não harmônicamente com comportamentos típicos desta faixa etária, tais como encontrar sua identidade pessoal, achar um parceiro, reproduzir-se, sair da casa dos pais, terminar os estudos, etc.

O que ocorre nesta etapa da vida é o que é chamado pelos autores citados no livro de moratória social, período no qual as pessoas que já têm “corpo de adulto” ainda podem se comportar sem as amarras e expectativas da vida adulta, como gerar seu próprio sustento, formar família e participar dos rumos de sua comunidade.

Cada sociedade tem seus códigos e expectativas e eles precisam ficar bem claros e ser bem negociados para que os conflitos decorrentes dessa convivência não coloquem em risco o futuro dos próprios jovens e, consequentemente, da própria sociedade.

A pesquisa foi feita a partir da seleção aleatória de estados nas cinco regiões admnistrativas do País e de um município do interior, entre as cidades da UF com mais de 100 mil habitantes (a capital do estado é autosselecionada), e depois de escolas com mais e 500 alunos matriculados, com o seguinte resultado:

Região Norte -Pará: Belém e Castanhal;
Região Nordeste – Bahia: Salvador e Feira de Santana;
Região Sul – Paraná: Curitiba e Ponta Grossa;
Região Sudeste – Rio de Janeiro: Rio de Janeiro e Volta Redonda;
Região Centro-Oeste – Mato Grosso: Cuiabá e Rondonópolis.

 

Tanto no questionário quanto nos grupos focais e entrevistas em profundidade, foram analisadas os seguintes pontos:
• perfil socioeconômico dos jovens e da família;
• história da vida escolar;
• percepções sobre a escola;
• relações sociais na escola (alunos, professores, direção);
• imagem de seu futuro e relação desse futuro com sua escolarização;
• por que permanecer ou sair da escola;
• relações entre estudo e trabalho;
• valores, gostos e hábitos;
• participação: tipologia, motivação e relacionamentos, lugar dos pares;
• principais demandas de como deveria ser a escola: propostas.

As conclusões são muito interessantes e um tanto perturbadoras em dois aspectos que considero os mais importantes:

a) a relação entre alunos e professores, que aparece como tensa e vista de por eles de forma crítica e

b) a percepção negativa em relação ao futuro do Brasil

Em relação aos professores, 33% acha que os professores são injustos com as notas; 10% acha que eles gostam dos alunos

“. . . uma consciência crítica que se afirma entrelinhas, qual
seja, considerar que o bom professor deveria saber desenvolver duas dimensões: saber fazer, isto é, ensinar, ter conteúdo, método para tanto e saber conviver, respeitar o aluno e cuidar da individuação deste, ou associar conhecimentos acadêmicos com civilidade e sensibilidade para com os modos de ser jovem.”

“O tema das faltas dos professores ou dos atrasos frequentes é recorrente nos discursos dos alunos do EM e da EJA, sugerindo que não são previamente avisados e reclamam que ficam muitas horas ociosos nas escolas: A gente fica até tarde, sendo que a gente chega cedo na escola e fica sem aula. Tem vez que a gente vem e fica até 6 horas sem professor, sentada, é a nossa sala sem ventilador, a menina passou mal com dor de cabeça. Neste sentido, reafirmam que não estabelecem um bom relacionamento, pois esses profissionais não se preocupam com a aprendizagem dos alunos, prejudicando-os de diversas formas, inclusive com a reprovação.”

Os alunos tê uma percepção bem clara do que seja um bom professor:

“Após os jovens relatarem todas as suas questões e problemas no que concerne ao tipo de relações sociais com os professores, questionamos o que seria para eles, então, um bom professor. Nesta seção, apresentamos casos que ilustram o porquê de os alunos gostarem e admirarem determinados professores. Os motivos são muitos: porque ensinam bem,
sabem explicar, passam a matéria de forma compreensível, são exigentes, conhecem as dificuldades dos alunos, são inovadores, têm relações pessoais e de respeito com os alunos, têm uma boa interação e são amigos.

Tais características não são somente enunciadas como ideais, mas relacionadas a algum ou a vários professores, tendo base as experiências vividas, portanto são qualidades possíveis: professores ativos que sabem brincar, conversar, interagir, incentivam a gente a aprender; dão boas aulas, trabalhos interessantes, respondem as dúvidas, sabem prender a atenção. Estes são termos repetidos por vários alunos. Nossa hipótese é de que um “bom  professor”, considerando tais parâmetros, pode ser uma das causas importantes para reter os alunos no espaço escolar.”

Quanto ao futuro do Brasil, o pessimismo e o desalento são bem claros:

“. . . no entendimento dos jovens, os políticos – apontados como os responsáveis pelos problemas dos brasileiros não irão mudar. Pela falta de atuaçãodesses, alguns alunos consideraram que pode haver um acirramento das desigualdades sociais, que levará até mesmo a uma guerra civil. Na fala de uma das estudantes, haverá mais mortes, consumo de drogas e bebidas, e a violência aumentará. Mesmo se houver melhoras, considera-se que as desigualdades e a corrupção permanecerão. A educação provavelmente não melhorará muito, assim como a saúde, o transporte público e as desigualdades sociais.”

Se ainda não estava claro, o livro ajuda a esclarecer: temos que conhecer como pensam, ouvir e dar mais espaço de participação aos jovens para que eles possam dar sua contribuição inestimável ao Brasil.

 

 

3 Respostas

  1. Carlos Andre de Jesus Campos | Responder

    Olá, Ilona Becskeházy, parabéns pelo site.

  2. ouvi a cbn, fui ao seu blog, mas não encontrei como baixar o pdf

    1. David, para chegar ao link com o PDF é só clicar em cima do título do livro

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