Itiuorquédi – uma fábula sobre o combate ao analfabetismo escolar

Era uma vez um reino distante e vasto, com um poderoso mandatário. Ele tinha uma filha querida que era professora e que precisava de uma mãozinha para para seus projetos de educação. Como ele era muito poderoso, os chefes de guildas produtivas não tardaram a contribuir com a valorosa iniciativa real. No auge de sua fama, rapidamente conquistada por meio dos resultados de programas educativos que ajudaram o reino longínquo e imaginário a se livrar da praga do analfabetismo escolar (e absolutamente não pelas verbas publicitárias das tais guildas), a princesinha benemerente declarou para especialistas estrangeiros, de que forma ela se certificava de que suas intervenções eram eficazes: itiuorquédi, detixersrilililaiquedi. Essas eram as palavras mágicas que revelavam, em inglês, o segredo da causalidade que justificava a existência de programas aleatórios para resolver o problema sistemático do analfabetismo escolar do tal reino.

Mas havia um probleminha. O feitiço não funcionava quando as crianças faziam provas. A alfabetização aparecia apenas em fotos em que elas estavam sorrindo e mostrando desenhos, ou em vídeos em que contavam seus sonhos para o futuro. Era muito esquisito, mas quando tinham que ler e escrever textos, o feitiço se quebrava e elas voltavam a ser analfabetas.

As amigas da princesinha não se importavam com isso, o que contava é que as palavras mágicas “itiuorquédi e detixersrilililaiquedi” quando faladas, com convicção – em qualquer idioma – , eram muito poderosas: faziam qualquer pessoa de bom coração ver crianças alfabetizadas e felizes.

Só que algumas crianças, as que não apareciam em fotos ou vídeos de programas educacionais vagos, aprendiam realmente a ler e conseguiam fazer provas com sucesso. É verdade que elas eram bem poucas, mas, mesmo assim, a existência delas fazia com que muita gente, em muitos reinos diferentes, acreditasse que o feitiço de alfabetização era realmente poderoso e permanente.

A explicação para isso é que a bruxa boa que desenhou o feitiço para fazer ações desconexas e desconectadas de “alfabetização” ensinarem alunos a ler e a escrever era meio biruta. O tal encantamento alfabetizatiço que ela inventou só funcionava quando mães, fonoaudiólogas, psicopedagogas e explicadoras em geral, usavam métodos secretos para ensinar alunos a ler a ponto de entender textos mais longos e a escrever idem. Esses métodos secretos eram realmente desconhecidos da maioria das pessoas. E ninguém gostava de falar neles, por que tinham sido atribuídos a povos formados por gente muito má, que costumava habitar lugares mais frios, nos quais se usava uma ciência obscura para avaliar intervenções, cujo nome as bruxinhas boas não podiam pronunciar, sob pena de imediatamente serem transformadas em pó – a Estatística.

A verdade é que a bondosa princesa fazia parte de uma famosa escola de bruxinhas fofas, mega engajadas no combate mundial ao analfabetismo escolar. Elas eram muito poderosas e gostavam de morar em reinos com clima quente e úmido de um planeta plano imaginário, no qual a tal da ciência não pronunciável, a Estatística, não tinha muita vez. As ilustrações da época mostram que elas podiam ser facilmente reconhecidas porque usavam roupas largas, que enfeitavam com colares feitos de sementes mágicas e coloridas. Elas falavam uma língua cheia de códigos que só elas entendiam, para que seu segredo da alfabetização mágica – a que não pode ser revelada por provas, mas que aparece em fotos e vídeos – nunca fosse revelado.

Esta primeira temporada da fábula itiuorquédi termina aqui. Aguardem as próximas, nas quais, possivelmente, a fórmula mágica da alfabetização que só aparece em fotos e vídeos, talvez seja finalmente trazida à luz.

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