Sugestões que valem para qualquer Ministro da Educação do Brasil

Com o cai não cai do Ministro Velez, espetáculo dispensável que somos obrigados a assistir perplexos por meio da hiper realidade que as conexões online criam, vou dar a minha contribuição para o debate público sobre o que acho que deveriam ser as prioridades educacionais de qualquer governo, durante a próxima década. Não se trata apenas de mirar no atual Governo Federal, mas de declarar a minha opinião sobre o que deveria ser feito pela União para ajudar estados e municípios a cumprir, EM REGIME DE COLABORAÇÃO, cada uma de suas funções educacionais, de acordo com o artigo 211 da nossa Constituição Federal.

Título VIII – Da Ordem Social Capítulo III Da Educação, da Cultura e do Desporto Seção I Da Educação

Art. 211. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino.

§ 1º A União organizará o sistema federal de ensino e o dos Territórios, financiará as instituições de ensino públicas federais e exercerá, em matéria educacional, função redistributiva e supletiva, de forma a garantir equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios.

§ 2º Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil.

§ 3º Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e médio.

§ 4º Na organização de seus sistemas de ensino, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios definirão formas de colaboração, de modo a assegurar a universalização do ensino obrigatório.

§ 5º A educação básica pública atenderá prioritariamente ao ensino regular.

Como vemos, não é responsabilidade do Governo Federal operar escolas de educação básica. Então não faz sentido argumentativo, dentro da desejável honestidade intelectual, relacionar o governo federal com a péssima estrutura das escolas das redes subnacionais ou com o pífio aprendizado dos alunos. Embora haja a rede Pedro II que “sobrou” de um processo histórico e o investimento na desvinculação dos antigos Cefets em Institutos Federais de Educação Profissional, Científica e Tecnológica que lhes conferiu um status próximo ao das universidades federais, melhorando a carreira de seus docentes durante do Governo Federal do PT, o Governo Federal é apenas indutor de qualidade e eficácia.

E o que o Governo Federal pode fazer para ajudar os alunos brasileiros de educação básica, como sua ÚNICA e EXCLUSIVA preocupação moral, técnica e financeira? (Sim, eu acho que as universidades federais devem começar a pensar em outros modelos de “autonomia” financeira que dependam menos do governo e mais de sua própria competência!)

O DECRETO Nº 9.465, DE 2 DE JANEIRO DE 2019, que apresentou a anova estrutura do Ministério deu uma ideia do que foi planejado para a pasta, só que sua materialização depende de se combinar com o grande russo que é o Ministro da Educação, quando ele se dispuser a trabalhar de forma objetiva, mesmo que, para isso, seja preciso fazer ainda algumas substituições no Ministério. Acho o Decreto bom e objetivo e que deveria ser seguido à risca! O ME e suas duas grandes autarquias de gestão das políticas educacionais da educação básica, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) podem juntos, fazer muito pelos entes subnacionais: estados e municípios. INFELIZMENTE, o decreto acima não trouxe os detalhes de funcionamento desses importantes órgãos: o da grana (FNDE) e o das avaliações e dados objetivos (INEP).

Então, já fica a primeira sugestão: apresentar um plano de trabalho e de prioridades para alinhá-las à gestão estratégica do tal Ministério que todos DIZEM ser importante, mas que, na verdade, é tratado pela autoridades federais como um estorvo necessário, assim como o é em estados e municípios, uma vez que é fonte das maiores dores de cabeça de qualquer gestor, dadas as caraterísticas de seu tipo de operação.

NÚMERO 1 – Plano Nacional de Alfabetização: tomando como base o existente PNAIC (Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa), organizar todas as correções técnicas para a orientação dos docentes e afins, assim como apresentar materiais didáticos que finalmente incluam as recomendações mais atualizadas e fruto de consensos internacionais (valorizar a etapa fonológica e fonêmica, a construção estruturada de vocabulário e gosto pela leitura) do processo de alfabetização, que levam em conta as evidências sobre como se aprende a ler e a escrever e como se adquire fluência leitora. Esta, a fluência, deve ser O PRINCIPAL INDICADOR de proficiência dos alunos e de impacto de programas para a os primeiros anos do ensino fundamental. Existe técnica para fazer isso, pois textos e palavras devem ser escolhidos com base no que os alunos vão conseguindo ler aos poucos, mas a fluência deve ser acompanhada de perto TODOS OS DIAS pelos docentes e REGULARMENTE por coordenadores pedagógicos, diretores e secretários de educação, como é feito em Sobral e no Ceará (veja aqui o tipo detalhado de registro para para fazer isso).

Além disso, a alfabetização e a medida de fluência devem ser transformadas em mania nacional, com um plano de comunicação amplo e competente de disseminação de boas práticas em sala de aula e engajamento das famílias e organizações sociais no estímulo à formação de vocabulário e, principalmente, o desenvolvimento do gosto pela leitura que pode e deve ser estimulado para além da escola.

NÚMERO 2 – o FNDE deve ter como estratégia (como aliás, já foi anunciado por seu Presidente Carlos Alberto Decotelli da Silva) de fazer os repasses de forma melhor condicionada, com maior indução de boas práticas. Vários de seus programas são baseados na lógica de eficácia escolar, mas deveriam ser geridos de forma mais clara. É fundamental explicitar o que são as práticas de eficácia escolar, que também já viraram carne de vaca no mundo todo, menos aqui, porque o povo que usa disfarce de progressista para proteger interesses restritos conseguiu colar o termo “neoliberal” nesse tipo de iniciativa e aí transformá-lo em radiativo. Os componentes de eficácia escolar devem fazer parte de um amplo programa de comunicação e educação, não apenas para quem recebe os recursos, mas para a população em geral, de forma que se possa cobrar, de forma objetiva, a sua materialização nas escolas brasileiras.

E, por último, o mais complexo de explicar que é o papel do INEP. Até o advento da BNCC (e deve continuar pq os descritores contidos alí estão mal redigidos e especificados), os principais indutores dos currículos, por meio dos livros do PNLD eram os descritores da Prova Brasil e do ENEM. Uma grande contribuição que o órgão pode dar é refazer os descritores e melhorar a qualidade dos itens de prova, de maneira que a indução seja feita em um aumento de complexidade das questões, respeitando os conceitos formulados por Bloom (Taxonomia de objetivos de aprendizagem). A BNCC aponta nessa direção, mas como tanto a estrutura, quanto descrição das habilidades (sua qualidade como especificador do que deve ser aprendido) são muito frágeis, o INEP daria enorme contribuição se fizesse uma boa reforma aí.

Para 4 anos está bom demais, mas ainda é necessário, depois do que for feito acima, principalmente depois do movimento do INEP, fazer o seguinte: 1) adequar os livros didáticos, aumentando o nível de mobilização cognitiva que se exige dos alunos e expandindo o horizonte de informações e conteúdos disciplinares que apresentam para as salas de aula brasileiras; e 2) melhorar as diretrizes de formação docente (nisso eu e a Márcia Sebastiani já estamos trabalhando!)




10 Respostas

  1. Ilona, como vai? Muito bom ‘ouvir’ você! Comento, a seguir, duas de suas afirmações.

    (a) Sim, eu acho que as universidades federais devem começar a pensar em outros modelos de “autonomia” financeira que dependam menos do governo e mais de sua própria competência!

    (b) É fundamental explicitar o que são as práticas de eficácia escolar, que também já viraram carne de vaca no mundo todo, menos aqui, porque o povo que usa disfarce de progressista para proteger interesses restritos conseguiu colar o termo “neoliberal” nesse tipo de iniciativa e aí transformá-lo em radiativo.”

    Um dos motivos pelos quais as universidades/cefets/ifs detestam (ficam horrorizados com) essas ideias, é que, via de regra, eles não têm compromisso com programas de avaliações e/ou processos de avaliações dos seus respectivos projetos de pesquisa. Ora, bem sabemos que, na iniciativa privada, os projetos precisam ter, minimamente, viabilidade econômica e técnica comprovadas – esta não é a realidade de muitos projetos conduzidos várias destas instituições. De fato, há projetos sem o mínimo fundamento técnico e sem a mínima viabilidade econômica – afinal, tais projetos não têm o olhar daqueles que têm a experiência e, portanto, a capacidade de execução (esse é um dos motivos).

    Ademais, muitos dos docentes que temos, não possuem o real e profundo interesse em formar profissionais para o trabalho (para a realidade), com comprovada competência em projetos ‘reais’ e exequíveis pela iniciativa privada. Assim, obviamente, estes não têm (e não terão) capacidade de atrair intessados nos ‘seus projetos’. E, vale observar, não se trata de fazer migrar os docentes da atividade de docência para o empreendedorismo, como dizem. Trata-se, antes, de desenvolver projetos aplicáveis e exequíveis, que possibilitem e fomentem o bem comum à socidade civil. Esta deve ser a primeira função das universidades públicas. No mais das vezes, o que se percebe, é que há docentes mais preocupados com sua “contínua formação e progressão em titulações”.

    1. Marcus, acho que vc tem razão nas duas afirmações. Entretanto, na primeira, sobre a viabilidade econômica, eu acrescento que não deveria ser o único critério, mas mais um, o qual, combinado com outros, como por exemplo relevância científica, mesmo que seja para pesquisa não aplicada, formaria uma espécie de compromisso de cada departamento ou universidade do com progresso social, econômico e científico do País.

  2. Cara professora Ilona, boa noite!

    Gostaria de saber sua opinião: você acredita que enquanto houver o imenso Corporativismo, bem como toda a imensa Corrupção, junto ao MEC, às Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, será possível acreditar que as mudanças que desejamos para a Educação do país possam se concretizar?

    Sou professor de Física, e meu pai foi professor de Matemática em Escolas Públicas de São Paulo durante mais de 15 anos. Tudo que ele já me relatou nos faz crer que o Sistema Educacional está tão amarrado, tão preso, a um Corporativismo, a Burocracias, a desvios de verbas, várias formas de Corrupção, que fica difícil acredita que conseguiremos ver algo de bom acontecer à Educação Brasileira como um todo, enquanto todas essas coisas ruins estiverem permeando a atividade Educacional.

    Agradeço imensamente se tiver lido até aqui!

    Saudações e parabéns pelo excelente trabalho, que procuro sempre acompanhar!

    1. Obrigada pelo comentário, Prof Soler. Estive longe do WordPress por muito tempo e peço desculpa pela demora em respondê-lo.
      Para responder à sua pergunta. Sim, essas caraterísticas “ismos” da sociedade brasileira, concentrada ainda mais no setor público, são sim barreiras para se avançar com a qualidade da educação. Mas não são intransponíveis. Líderes corajosos e hábeis podem vencê-las, mas custa caro politicamente!

  3. Rodrigo Gabriel Moisés | Responder

    Neste contexto penso o seguinte: o Ministério deve diminuir suas funções e fortalecer e transformar as duas entidades. O INEP poderia ser transformado no INSAES, um projeto que está engavetado no Congresso, e que visa criar uma Agência Reguladora do Ensino Superior. Da mesma forma o FNDE/FUNDEB poderiam se transformar em uma Agência de Avaliação e Financiamento do Ensino Básico. Duas agências, mais técnicas e específicas, cada um cuidando de um nível específico da educação, com o esvaziamento político da pasta da Educação. Este seria um caminho…

    1. Muito interessante a sua proposta!! Sabe o número do PL do INSAES? Nunca estudei esse assunto, mas acho que devo!! Obrigada.

      1. Rodrigo Gabriel Moisés

        Ilona tem um estudo muito bom do Observatório Universitário a respeito: http://www.observatoriouniversitario.org.br/documentos_de_trabalho/documentos_de_trabalho_104.pdf. O projeto não anda devido a resistência dos grandes grupos educacionais. O INSAES poderia concentrar a regulação e avaliação do ensino superior, assim como uma outra Agência as políticas de educação básica, e a CAPES as de pós graduação. Com isto diminuiria a captura do setor por interesses privados.

      2. Obrigada por seu comentário. Desculpe a demora em responder. Você viu que as reformas para a avaliação das universidades, cursos e bolsas estão andando. É importantíssimo acompanhá-las de perto e participar de seu desenho.

  4. Joao Batista Oliveira | Responder

    Ilona

    concordo plenamente, se o MEC fizesse isso já estaria de bom tamanho,

    João

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