Link para o livro “Da linguagem oral à língua escrita”

Presentinho de véspera de Dia do Trabalho, com uma homenagem nossa todos os trabalhadores, particularmente aos trabalhadores da educação! Mas o livro é muito legal para pais também!

Trata-se do livro Da Língua Oral à Língua Escrita: desenvolvimento dos 3 aos 6 anos para pais e professores das fonoaudiólogas Renata Mousinho, Evelin Schmid, Fernanda Mesquita e Gladis dos Santos que são fonoaudiólogas, especialistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ligadas ao Projeto ELO – escrita, leitura e oralidade. Esse projeto fica localizado no Centro de Referência em Dislexia da UFRJ, localizado no Instituto de Neurologia Deolindo Couto da mesma universidade, no campus da Praia Vermelha, pertinho do Pão de Açúcar no Rio de Janeiro. O Projeto ELO atende 50 crianças em idade escolar em um ambulatório de transtornos da leitura e da escrita, oferece também orientações a pais e palestras para profissionais.

As quatro profissionais do Projeto escreveram o livro e disponibilizaram a versão em PDF para que as famílias e profissionais da educação pudessem ter acesso sem custo. A versão em papel foi distribuída gratuitamente, entre outras, para os profissionais da educação da Prefeitura do Rio de Janeiro. Quem se interessar, pode baixar o arquivo e imprimir o seu para grupos de estudo, por exemplo. Esse projeto teve o patrocínio do Instituto ABCD (do qual sou conselheira), que trabalha o tema da dislexia e transtornos de aprendizagem em várias frentes.

O livro explica em termos super simples o que é a linguagem oral e a escrita e como elas são inerentes à convivência social entre seres humanos, embora aprender a se comunicar oralmente seja bem mais fácil e natural que a ler e a escrever. COmentário meu: essa diferença é a raíz de um dos problemas mais sérios da educação brasileira – tem muita gente da área que acha que é quase a mesma coisa….aí todo mundo aprende a falar, mas só a metade dos brasileiros que frequentam a escola aprendem a ler e a escrever corretamente.

A linguagem e suas formalidades não são algo feito para encher a cabeça ou oprimir quem não fala corretamente, uma percepção bastante difundida, mesmo entre educadores, que, por exemplo, acham que Gramática é algo menos importante. As regras de cada língua ajudam a organizar as ideias para que se possa comunicar de maneira efetiva. Esse processo começa com os bebês!

O livro explica em detalhes cada etapa do desenvolvimento das crianças, dos 3 aos 6 anos de idade, com exemplos bem simples para que qualquer um possa acompanhar. A terceira parte explica como cada tipo de brincadeira ajuda no desenvolvimento global das crianças. As inocentes brincadeiras fazem parte da intenção de desenvolver as crianças e fazer com que elas aprendam….

 

Boa leitura!

Finlandês não abraça árvore para educar seus alunos!

Embora escandinavos amem a natureza e apresentem um comportamento civilizado e colaborativo que, para nós brasileiros superixpertus, pode parecer um pouco ingênua e utópica, na Finlândia, a impressão de que é um ensino solto, bagunçado e espontâneo que levou seus alunos ao topo do Pisa é totalmente equivocada!!!

Nesta segunda feira a Folha de S. Paulo publicou uma entrevista com o Prof. Pasi Sahlberg, que foi Diretor Geral do Ministério da Educação da Finlândia. Quem entrevistou o Prof. Pasi Sahlberg foi o jornalista Fábio Takahashi e eles abordaram a questão polêmica do uso de celulares e smart phones em escolas. Ele está no Brasil e explicou direitinho o que conta em seus livros, dois deles lançados no Brasil. Um deles, hoje: a versão em Português de seu livro Lições Finlandesas 2.0 no I CONGRESSO DE EDUCAÇÃO, TECNOLOGIA E CONHECIMENTO DO SESI-SP.

O evento acontece hoje e amanhã no prédio da Fiesp em São Paulo, com transmossão ao vivo pela internet.  Eu gostaria de comentar quatro aspectos sobre a política educacional da Finlândia e o que o Prof. Sahlberg tem a contar que podem interessar aos educadores brasileiros :

1) o congresso do Sesi parece ser muito interessante, recomendo muito que quem não possa ir que o assita pela internet. É só procurar no Google pelo nome do Congresso: I CONGRESSO DE EDUCAÇÃO, TECNOLOGIA E CONHECIMENTO DO SESI-SP, ou entre direto no link ao vivo: http://cetec.sesisp.org.br/aovivo.html

2) Eu não li o livro novo do Prof. Sahlberg, mas, sim, li o livro anterior – Lições Finlandesas: o que o mundo pode aprender com a mudança educacional da Finlândia (2010) que já está traduzido para o Português pela Editora da Universidade Federal Fluminense e pode ser comprado pelo site da editora:

http://www.eduff.uff.br/index.php/livros/733-licoes-finlandesas-o-que-o-mundo-pode-aprender-com-a-mudanca-educacional-na-finlandia

Embora eu não tenha a versão em Português, portanto, não tenha como saber se a tradução é boa, o livro original é sim muito bom para compreender a política educacional da Finlândia.  Portanto, recomendo fortemente a sua leitura. Ultimamente, vários artigos vêm trazendo uma percepção equivocada sobre a educação na Finlândia, alguns até sendo usados como marketing de escolas privadas que dizem ter formado seus professores na Finlândia ou seguindo “princípios finlandeses”. Se alguém quiser saber quais são esses princípios, é bom ler o livro e, principalmente, os currículos antigos do governo finlandês, que estão na internet (links logo baixo). Os novos, infelizmente, estão disponíveis online, mas é preciso comprá-los.

3) Recentemente o Prof. Sahlberg ficou no meio de uma polêmica sobre o banimento de celulares e smart phones em escolas. Em resposta a um crescente movimento de governos de alguns países no sentido de banir o uso desses aparelhos em ambientes de ensino para crianças e jovens, ele recomenda que os alunos aprendam com seus professores a melhor forma de usá-los. Mesmo que ele encare com grande preocupação o uso indiscriminado de aparelhos eletrônicos com acesso a internet por pessoas sem maturidade suficiente e que concorde que a forma mais simples de resolver esse problema seja o simples banimento, ele não acha que seja a melhor solução, apenas a mais simples. Para acompanhar a polêmica, é melhor ir para o site do Prof.:

https://pasisahlberg.com/

4) o último ponto é justamente o que é central na política educacional da Finlândia: O CURRÍCULO! O próprio Prof. Sahlberg explicou hoje em sua palestra que essa história de que a Finlândia vai abolir as disciplinas em seu currículo é totalmente fake news. Assim como dizer que finlandês não faz lição de casa! Ele diz que é impossível alguém jogar bem futebol sem treino, assim como é necessário praticar muito para ir bem nas disciplinas. Ele conta que essa confusão toda se deu por causa de um documentário do Michael Moore “Where to Invade Next”.

https://en.wikipedia.org/wiki/Where_to_Invade_Next

O endereço para o verdadeiro segredo dos finlandeses – os seus currículos super especificados – a partir dos quais são formados seus professores e toda a cadeia de planejamento e operação pedagógica, está aqui:

http://oph.fi/english/curricula_and_qualifications/basic_education/curricula_2004

Mas aqui vai uma “palhinha” sobre o quão detalhado é o currículo na Finlândia:

Curriculo_Finlandia

Ouvinte atento achou uma edição traduzida da Taxonomia de Bloom para LP

Aqui vai o link para a Estante Virtual.

https://www.estantevirtual.com.br/livros/benjamin-s-bloom-e-outros/taxionomia-de-objetivos-educacionais-1-dominio-cognitivo/716357273

Procuramos exaustivamente por essa tradução durante a produção do currículo de Sobral e dei mais uma busca hj antes de escrever o post. Mas não surgiu em NENHUMA busca. Nada como ter uma audiência qualificada para melhorar o nosso conteúdo. Obrigada!

A Taxonomia de Bloom e a construção dos currículos

No dia 23 de março o Ministério da Educação anunciou a formação de um Comitê Nacional de Implementação da Base Nacional Comum Curricular será, formado por membros titulares do Ministério da Educação (MEC), do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime).

O Comitê terá as seguintes funções (Art. 3º) :

I – propor debates, eventos e ações relacionados com a implementação da BNCC pelas redes de ensino e escolas;

II – estipular definições, orientações e diretrizes para a condução das ações conjuntas do MEC, do Consed e da Undime, com vistas à implementação da BNCC; e

III – convidar especialistas para discutirem temas específicos relativos aos desafios da implementação da BNCC.

Que bom né? Mas bom mesmo será ver que a dinâmica de produção curricular no Brasil mudou. Acho difícil, mas torço. Não sabemos se a lógica vai mudar. Não mudando, não muda o produto final: os alunos brasileiros sempre perdem para seus colegas de países desenvolvidos.

O processo de construção da BNCC foi truncado desde o início. De um lado, tínhamos, desde a LDB, portanto, desde 1996, uma certa leniência para estabelecer padrões de ensino para o Brasil alinhados com padrões internacionais de países mais desenvolvidos. Isso, apesar de contarmos com a bússola Pisa desde 2000. Pelo menos, foram elaborados os Parâmetros Curriculares Nacionais, melhor que nada, mas acanhados e muito pouco claros. Durante todos esses anos, enquanto os países desenvolvidos estudavam e aprimoravam os mecanismos curriculares que compõem um documento curricular competente, tais como a clareza na escrita das habilidades, a melhor forma de estabelecer a progressão explícita do aprendizado e a incorporação das pesquisas sobre como os alunos aprendem na estrutura curricular, o Brasil fazia política rastaquera com o tema.

A elite econômica e intelectual brasileira, como sempre, deu sua inestimável contribuição para salvar manter os pobres (nesta questão, os não pobres também) na ignorância: de um lado, o grupo da elite ligado à iniciativa privada esmerou-se na arraigada prática de transformar uma necessidade de política de interesse público em interesses privados, acumulando milhas de companhias aéreas, palpitando nos enormes desafios das autoridades do governo sem botar dinheiro novo e substancial nosproblemas, organizando eventos cheios de tecnologias e compartilhando likes. De outro, a elite dos funcionários públicos de alto escalão, nesse caso representada pelos acadêmicos da educação, dedicaram-se a sabotar a existência do próprio documento. Como já não pegava bem posicionar-se contra um currículo nacional, uma vez que a maior parte dos estados já tinha o seu, resolveram sabotar o processo com tumultos ideológicos, brigas irrelevantes e argumentos toscos.

Assim, nasceu um documento com alguns méritos técnicos sim, mas celebrado publicamente apenas porque tinha sido fruto de ampla consulta. Como sabemos, só se pergunta algo para se saber o que ainda não se não se sabe: neste caso, era inútil perguntar para professores brasileiros como fazer um currículo. As consultas foram muito bem utilizadas para tumultuar o processo. Depois que o processo de produção ficou mais organizado e honesto, a equipe passou a consultar documentos de países desenvolvidos, além de algumas produções locais que, embora frágeis, iam na direção certa, a tal consulta pública virou apenas o que deveria ser: uma narrativa.

Um dos argumentos para sabotar a elaboração de um currículo nacional era o de que o currículo “amarra” os professores. Onde? com o quê? Para quê? A questão é que é a FALTA de um currículo bem estruturado amarra. Amarra muito. Tanto professores, quanto alunos, à ignorância e à incapacidade de compreender o mundo!

Uma das barbaridades que fizeram com a BNCC foi estabelecer o processo de alfabetização de maneira equivocada e atrapalhada. Outra, que contaminou todo o currículo, foi ter usado muito mal a forma de escrever as habilidades. É impossível montar um plano de estudos para uma rede ou escola a partir da BNCC. Daí a necessidade de um comitê para controlar a REESCRITA da BNCC no nível das redes estaduais e municipais.

Explicando.

Apesar de o MEC apresentar, na pg. 29 da BNCC, quais são os componentes para se elaborar uma habilidade = VERBO, COMPLEMENTO E MODIFICADOR (OU CONTEXTO), o próprio não seguiu essa fórmula:

As habilidades expressam as aprendizagens essenciais que devem
ser asseguradas aos alunos nos diferentes contextos escolares. Para
tanto, elas são descritas de acordo com uma determinada estrutura,
conforme ilustrado no exemplo a seguir, de História (EF06HI14).

Diferenciar escravidão, servidão e trabalho livre no mundo antigo.

Verbo(s) que explicita(m) o(s) processo(s) cognitivo(s) envolvido(s) na habilidade. Complemento do(s) verbo(s), que explicita o(s) objeto(s) de conhecimento mobilizado(s) na habilidade. Modificadores do(s) verbo(s) ou do complemento do(s) verbo(s), que explicitam o contexto e/ou uma maior especificação da aprendizagem esperada.

Assim, sabemos que, para Língua Portuguesa com certeza e, em parte para Matemática, a BNCC propõe um ensino mais ambiciosos para os alunos do Brasil até o 9º ano, mas não sabemos ainda como exatamente isso será feito em sala de aula.

O principal desafio para elaborar fazer um currículo competente é conseguir que todas as milhares de habilidades necessárias para compô-lo sigam a estrutura acima. Para tal, é preciso tempo para colocar a massa cinzenta de seus elaboradores para funcionar de maneira rigidamente disciplinada. O MEC não teve tempo, pois a equipe que se propôs a usar essa fórmula foi a que entrou com a mudança de comando no Governo Federal, que sabia que tinha pouquíssimo tempo para arrumar a casa.

Outro desafio é conhecer bem e utilizar os mecanismos curriculares. Para conhecê-los também é preciso tempo. Tempo de estudo árduo, para recuperar o que foi perdido nas últimas décadas, enquanto os docentes e gestores de países desenvolvidos conversavam entre si, faziam pesquisa educacional relevante, incorporada à sala de aula, aos currículos e aos rubrics.

Vou explicar um deles hoje: a Taxonomia de Bloom. A Taxonomia foi publicada em 1956 a partir de estudos de Psicometria por um grupo de pesquisadores das Universidades de Chigago e Michigan. Já basta para explicar porque os educadores brasileiros nunca se preocuparam em ler, traduzir ou estudar a fundo esse conjunto de obras seminal para a produção curricular e para os estudos de avaliação de aprendizagem, simplesmente a base de uma “nova” área da ciência da educação. Ora, era obra de porcos capitalistas, de imperialistas ianques que sempre estão à espreita para dominar as cabeças férteis dos brasileiros. É o típico argumento que eu classifico como cafonice educacional: muuuuito fora de moda…

Enquanto isso no Brasil, a referência para ensinar os alunos é Bourdieu e Paulo Freire. Cada povo tem a elite educacional a as referências bibliográficas que merece. Não proponho descartá-los sem lê-los. Proponho lê-los com atenção para poder colocá-los em seu devido lugar. Cada um escolhe onde as aplicar, desde que não seja no currículo.

Voltemos à Taxonomia. Vou ficar com a original. Para entender direitinho do que se trata, sem ter que ler o original, proponho este texto aqui:

FERRAZ, Ana Paula do Carmo Marcheti; BELHOT, Renato Vairo. Taxonomia de Bloom: revisão teórica e apresentação das adequações do instrumento para definição de objetivos instrucionais. Gest. Prod.,  São Carlos ,  v. 17, n. 2, p. 421-431,    2010 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-530X2010000200015&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  26  Mar.  2018.  http://dx.doi.org/10.1590/S0104-530X2010000200015.

Mas se quiserem ler o original, JAMAIS traduzido para o Português do Brasil, aqui vai a referência:

BLOOM, Benjamin Samuel et al, Taxonomy of educational objectives: the classification of educational goals Handbook I: Cognitive Domain, London: Longman, Green and Co., 1956.

Bloom e seus colegas propuseram seis níveis de aprendizado visível, ou mensurável que deveriam ajudar a estruturar currículos e atividades pedagógicas. São eles, na ordem do menos para o mais sofisticado:

  1. Conhecimento
  2. Compreensão
  3. Aplicação
  4. Análise
  5. Síntese
  6. Avaliação

Essa Taxonomia deve ser usada de acordo com o objetivo pedagógico e com o conceito inerente à disciplina que se quer trabalhar com o aluno. Em Matemática, a progressão se dá de forma diferente da que ocorre com compreensão textual, por exemplo. Em Matemática, a progressão segue muito o conteúdo em si. Por exemplo, para aprender fração, o aluno precisa conhecer os números, compreender o significado de quantidade e de categorias de coisas, objetos concretos, pois as operações Matemáticas se dão entre itens iguais. Não se divide laranjas por bananas. Em geral o aprendizado da Matemática na escola vai até o nível da aplicação, enquanto que, na compreensão textual, pode-se ir com o aluno até os níveis mais abstratos ou elevados de cognição, desde a educação infantil. É isso que forma um cidadão crítico, reflexivo e assim por diante.

Vejamos.

A história da Chapeuzinho vermelho que todos conhecemos, é trabalhada com as crianças desde a educação infantil. Vamos aplicar a Taxonomia de Bloom à história da Chapeuzinho:

  • Conhecimento – identificar a informação explícita no texto: qual a cor da capa da Chapeuzinho?
  • Compreensão – inferir informação não explícita no texto: o que a mãe da Chapeuzinho estava fazendo logo antes de chamar a filha para levar a cesta de piquenique para a avó?
  • Aplicação – identificar características sistemáticas de maldade de uma pessoa: como sabemos que uma pessoa é má como o Lobo Mau? Toda pessoa feia ou estranha é má? Todas as pessoas lindas e arrumadinhas são boas?
  • Análise – identificar e decompor a questão principal da história (uma menina que se expõe ao perigo porque não obedece à mãe), para recompô-la: reconte a história trocando a parte que a Chapeuzinho resolve acreditar no Lobo, ao invés de seguir o conselho da mãe, por um comportamento ou situação alternativa.
  • Síntese – elaborar uma nova proposta de solução para o caso da avó da Chapeuzinho que foi comida pelo Lobo: analisar a sequência de eventos e perceber o que pode ser mudado para que a avó não termine na barriga do Lobo Mau e o que fazer se tudo der errado, sem ter chamar o Caçador para matar o Lobo.
  • Avaliação – comparar a história da Chapeuzinho com outras como João e Maria e os Três Porquinhos: quais as soluções que se pode dar para se livrar para sempre de algo mau, sem ter que matar cada Lobo ou Bruxa?

O problema é que nossos professores e livros didáticos só trabalham os textos com os alunos até o nível 2, a partir de uma alfabetização muito precária, que não leva em conta os métodos mais eficazes utlizados no mundo todo. Assim, nunca chegaremos ao nível de aprendizado dos alunos de países desenvolvidos. Não porque não gastamos como eles, mas porque não fazemos as mesmas perguntas desafiadoras que seus professores fazem aos alunos…

 

“”Caça”” aos alunos que estão fora da escola com ajuda da tecnologia e do TCU

No dia 7/2 conversei no CBN Madrugada com a Andreia Ferreira, âncora do Programa, sobre educação (óbvio). O tema era um relatório do TCU sobre a universalização da Educação Infantil, de 16 de dezembro de 2017:

“Relatório de auditoria de Fiscalização de Orientação Centralizada (FOC) para avaliar, sob aspectos operacionais, ações governamentais relacionadas ao acesso à educação infantil (Meta 1 do Plano Nacional de Educação), com foco no Programa Nacional de Reestruturação e Aquisição de Equipamentos para a Rede Escolar Pública de Educação Infantil (Proinfância) e na transferência de recursos financeiros da União para os municípios e o Distrito Federal com a finalidade de prestar apoio financeiro à manutenção de novos estabelecimentos públicos de educação infantil (EI Manutenção).”

Eu resolvi falar novamente sobre o tema no Missão Aluno e trazer aqui para o blog, porque é um assunto de alta importância e as referências que trago aqui (o relatório do TCU e a inciativa do Instituto Tim) são muito importantes para os diretamente interessados no problema.

O relatório faz recomendações muito bem detalhadas e determina “que os Ministérios da Educação e do Desenvolvimento Social, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e a Casa Civil da Presidência da República encaminhem ao TCU, no prazo de 90 (noventa) dias, ou seja, até 16/3/2018, um plano de ação para implementação das recomendações, informando prazo e unidade responsável pela implementação de cada recomendação considerada conveniente e oportuna e justificativa para a não implementação de cada uma considerada não conveniente ou não oportuna.”

Assim, para quem trabalha nas Secretarias de Educação dos Municípios, a leitura do relatório é essencial. Mesmo quem está com a demanda atendida, a leitura do relatório permite uma visão bem clara e articulada do desenho da política de universalização da educação infantil. A Relatora, Ana Arraes, comenta inclusive que a expansão do atendimento deve levar em consideração as previsões de população para cada faixa etária e diz, textualmente:

Vive-se uma delicada situação fiscal nos estados e municípios. As dificuldades para construir e manter pré-escolas e creches é uma realidade que não pode ser desprezada. A tendência de diminuição da população na faixa etária da educação infantil, como os indicadores populacionais estão a indicar, também induzem a questionar se a construção desenfreada de unidades escolares seria a melhor solução.

Recomendando que a expansão possa ser feita em articulação com entidades de assistência social e afins, para que não se desperdice os parcos recursos públicos na construção de prédios que poderão tornar-se desnecessários ou superdimensionados em um futuro próximo.

A auditoria do TCU teve como foco a investigação sobre três processos principais envolvidos na universalização da educação infantil: (i) busca ativa [ por alunos que ainda não estão matriculados]; (ii) redução da diferença de acesso a creche entre as crianças mais pobres e mais ricas [o que reforça a necessidade do item anterior, dados que as crianças de famílias mais pobres e vulneráveis são as que têm maior probabilidade de ficar fora da escola]; e (iii) acompanhamento da frequência escolar das crianças beneficiárias de programas de transferência de renda [não basta matricular…].

Aí vemos como a situação dos municípios é desafiadora, para não dizer difícil mesmo. Além da enorme responsabilidade de prover os serviços de creche, educação infantil e pelo menos o fundamental até o 5º ano, não pode deixar ninguém de fora, tem que focar nas famílias mais pobres, que à vezes, por razões diversas, nem mandam seus filhos para a escola e lidar com todo o tipo de problema que gerir uma rede escolar gera.

Acho que precisamos ser mais solidários com Prefeitos de cidades pequenas e com menores recursos para fazer com que a educação das crianças seja vista realmente como um problema de todos, e não apenas do setor público, do chefe do Poder Executivo local.

Em relação a isso, encontrei no mesmo relatório uma solução muito interessante elaborada em conjunto pelo Instituto Tim e pela Unicef. Trata-se do site: Busca Ativa É um portal de conteúdos sobre busca ativa de alunos fora da escola, com muita informação útil e desenhos de soluções para ajudar as prefeituras a “caçar alunos” para levá-los, não à força, mas com força e com vontade para as escolas, todos os dias do ano.

O fluxo da Busca Ativa Escolar funciona assim:

  1. A plataforma mobiliza a rede de profissionais do setor público que atua em campo (assistentes sociais, agentes de saúde, conselheiros tutelares etc.). Esses profissionais identificam as crianças fora da escola e o motivo por que isso acontece, e registram esses alertas no sistema por meio de SMS, aplicativo ou da interface web.

  2. Cada caso é atribuído a um técnico, que vai a campo e faz uma pesquisa aprofundada sobre a criança e sua família.

  3. As informações coletadas são encaminhadas a grupos solucionadores – que atuam para resolver o problema que impede a criança de ir à escola – para que a criança seja (re)matriculada.

  4. Ela será acompanhada durante todo o ano letivo, para garantir sua permanência na sala de aula.