Os nossos alunos são menos capazes que os portugueses?
O Governo Federal lançou o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa no final de 2012 e no início deste ano disponibilizou para consulta pública o documento que o MEC preparou para embasar pedagogicamente a formação dos alfabetizadores e boa parte dos R$3 bilhões que vamos gastar para alfabetizar nossos alunos das escolas públicas até os 8 anos. Com mais de 80% das crianças já matriculadas na educação infantil, com as novas gerações que já contam com pais com escolarização mais alta, com a disponibilidade de brinquedos e material letrado a custo muito baixo (pelo menos nas cidades de porte médio para cima), não faz sentido deixar uma meta tão medíocre.
Será?
Para os Secretários Municipais de educação, principalmente os do Nordeste, é uma meta fácil de bater (para quem já conseguiu vagas para a educação infantil para seus munícipes), e não chega a ser uma ameaça, até porque não se tem um prazo apertado para batê-la. Além disso, quanto menos alfabetizadas e pedagogicamente acolhidas as crianças pobres forem, menor é a pressão para aumentar a qualidade dos níveis subsequentes de ensino e menor é a pressão pela emancipação que a educação de qualidade pode trazer. Para quem, por gerações, vem trazendo a população no “cabresto curto”, nada mais ameaçador que a educação com excelência e equidade. Este é o verdadeiro pacto da Alfabetização aos 8 anos: deixar tudo como está.
Está faltando gente no debate
A formação das políticas públicas de educação se dá principalmente nos gabinetes dos secretários de educação e de planejamento, do Ministro e nas equipes técnicas das secretarias de educação. Além disso, cada vez mais o Legislativo brasileiro vem ocupando espaço na formulação das políticas do setor, ora preenchendo o vazio deixado pelo Executivo, ora cedendo a pressões de determinados grupos de interesse. A imprensa tem papel importante nesta equação, pois, em grande medida, regula a opinião pública, que, por sua vez, influencia os demais atores. Por isso, é importante que o debate público, que se dá na imprensa formal, ou mais recentemente, em redes sociais como esta, abra espaço para que todos os interessados possam se manifestar, de acordo, EXPLICITAMENTE, com seus interesses. Hoje, no Brasil, alunos e seus pais estão sub representados. Os professores também, quando a sua opinião não reflete a do seu sindicato. Além deles, faltam os acadêmicos especializados na análise de políticas públicas que se baseiam em evidências bem construídas, sólidos conceitos e em referências atualizadas para formarem seu juízo.
Edição de janeiro de 2013 – O que se quer da escola
Quando decidimos colocar nossos filhos na escola, o fazemos por muitas razões diferentes. Há a lei que nos obriga. Há o desejo de que os filhos cresçam felizes e socializados. Há o desejo da convivência com pessoas parecidas. Há a expectativa do sucesso profissional no fim da linha. Há o sonho de sermos reconhecidos como bons pais. Essas expectativas são muitas vezes carregadas de emoções e irracionalidades, que deveriam estar melhor identificadas, tanto pelas famílias quanto pelas escolas, de forma a permitir que o processo educativo e de socialização escolar ocorresse com o mínimo possível de sobressaltos.
É possível que algumas escolas, que contam com equipes preparadas e experientes, já tenham definidos seus valores e sua cultura organizacional de maneira clara e objetiva. E que, além de definir, tenham sucesso em comunicar (interna e externamente) o que fundamenta sua prática educacional, até para permitir às famílias escolherem as escolas mais alinhadas com seus próprios valores. Mas isso é raro de encontrar. Então, se para os profissionais de educação, que recebem (ou que deveriam receber) preparo conceitual, teórico e prático para lidar com as interações sociológicas próprias do ambiente escolar, já não é trivial definir o que é mais importante nos processos educativos e socializantes da escola e com que princípios eles se dão, para os pais, que não têm esse conhecimento, é bem mais difícil saber exatamente o que querem da escola.
Cada família – e cada pessoa dentro de uma família – conta com conjuntos de valores, exemplos de vida e de sentimentos que regulam seu comportamento. Mas normalmente essas formas de pensar e de agir não são conscientes, principalmente para quem, como os alunos, ainda não chegou à vida adulta. Mesmo assim, as pessoas continuam tendo que agir em seu cotidiano de acordo com esses conjuntos e de forma bem diferente em cada contexto em que circula, como nas atividades escolares e as férias na casa da avó.
O problema é que nos diferentes contextos, por sua vez, circulam outras pessoas que agem com outros conjuntos de valores, exemplos e sentimentos. Como vivemos em cidades grandes e em um País pós-moderno, as classes sociais e seus subgrupos estão cada vez mais misturados na escola, na fila do cinema, na Disney e nos restaurantes. Aí os valores que regulam os comportamentos começam a entrar em contraste. E quando pessoas de comportamentos diferentes são obrigadas a conviver de forma intensa, como no dia a dia de um ambiente escolar, esses contrastes podem ganhar contornos assustadores.
A escolha da escola pelos pais pode estar carregada de expectativas de cerceamento das diferenças de comportamento entre os diferentes grupos que a compõem, mas não é razoável se supor que as diferenças serão totalmente neutralizadas. Então, o que fazer?
Em primeiro lugar, escola e família devem ter claramente definidos os seus papéis e limites. Bater no irmão pode ser aceito em casa, mas a agressão física não é aceita na escola. Resolver conflitos com as mãos ou com o diálogo é uma forma de comportamento que envolve valores e regras. A escola deve manter seus valores e sua cultura organizacional refletidos em regras por escrito que valem igualmente para todos.
O processo de comunicação, por sua vez, não é óbvio e nem simples. Escrever e divulgar um regimento bem-feito é só o começo. Tratar pessoas de classes sociais diferentes com o mesmo nível de cordialidade, por exemplo, é outro tipo de comportamento que envolve valores, mas a sua materialização no cotidiano envolve mais o comportamento exemplar dos adultos que a comunicação formal.
Além da comunicação e do exemplo pessoal dos adultos, temos que encarar as sanções quando emergem situações fora do combinado. Desvios graves de comportamento como furtos, assédios, cola nas avaliações e plágio acadêmico também envolvem valores de quem as pratica e se configuram grandes oportunidades – tanto de construção da cultura organizacional como de aprendizagem para os alunos e suas famílias. É justamente na firmeza e no nível das sanções que famílias e escolas costumam se desentender – e é aí onde a experiência da equipe escolar se faz mais presente. Mesmo que algumas dessas situações sejam previsíveis e possam estar identificadas e comunicadas em um bom regimento, juntamente com as penalidades atribuídas a cada uma delas, a reação de cada aluno e família não está. O trato pessoal, a transparência, a discrição e o senso de justiça são valores individuais que devem ser fomentados na equipe escolar a partir da direção, e dependem dela para serem permanentemente ajustados.
Finalmente, seria muito desejável que os valores que hoje relacionamos ao ambiente escolar, como o respeito ao próximo, a cordialidade incondicional, o respeito a regras de um grupo, a capacidade de resolver conflitos com o diálogo, o senso de justiça, o respeito às individualidades e às diferenças, a busca pela excelência acadêmica e o empenho no cumprimento dos deveres, para citar apenas alguns, fossem valores de nossa própria sociedade – e que os comportamentos decorrentes deles fossem vividos tanto dentro quanto fora das escolas.
Não é razoável supor que a escola seja muito diferente que a sociedade onde está inserida. A capacidade de uma comunidade escolar educar alunos sem um alinhamento com as famílias dos alunos é muito limitada. O que as escolas podem fazer é selecionar as famílias com valores mais próximos de sua cultura organizacional e vice-versa. Mas o poder público e as autoridades educacionais poderiam fazer muito mais para ajudar a sociedade a desenvolver esses valores a partir da escola.
Vivemos um momento do politicamente correto que, muitas vezes, é mal interpretado e transmite a impressão de que regras, sanções, direitos e deveres estão em desequilíbrio, com uma tendência grande à condescendência e à impunidade. Assim, se queremos uma sociedade melhor, famílias e escolas devem estar mais unidas em torno de um conjunto mais amplo de aspirações para o seu futuro.
Artigo publicado na edição de janeiro de 2013 da revista Gestão Educacional.
Edição de novembro de 2012 – A nova educação a distância
Educação a distância não é necessariamente uma grande novidade. Livros e catálogos pelo correio, programas educativos transmitidos por rádio ou TV são conhecidos das gerações anteriores às nossas. Mas duas mudanças impressionantes e complementares tornam o ensino a distância um assunto muito atraente nos dias de hoje: a queda vertiginosa no preço de acesso a dados, voz e imagem por meio eletrônico e o implacável desejo por novos saberes que a Era do Conhecimento configura.
Mas a educação escolar é bem diferente da educação profissional ou profissionalizante, do compartilhamento de informações entre pares, da aquisição de informações de curto prazo e da busca do conhecimento para entretenimento. A educação escolar é, obviamente, para pessoas em idade escolar, que aqui no Brasil são os indivíduos com idade entre 4 e 17 anos.
Nessa faixa etária, mesmo que de maneira decrescente, da idade mais tenra para a mais avançada, a supervisão e a mediação de adultos é crucial para garantir o sucesso de quase todas as atividades desempenhadas por essas pessoas. Da higiene pessoal ao equilíbrio nutricional, das atividades físicas ao estudo, deixar crianças e adolescentes escolherem o que, quando e como fazer, sem supervisão, não costuma dar bons resultados.
Com certeza não é diferente na educação a distância (estamos assumindo que pais e docentes estão em supervisão permanente no que é considerado educação presencial). A seleção dos conteúdos, o tempo de exposição àquele determinado canal de informação e a mediação do relacionamento quando a atividade envolve outros indivíduos de mesma faixa etária, requer dos adultos responsáveis pelo processo uma intensa participação.
Como em qualquer novidade, sempre haverá oportunistas de plantão querendo maximizar as “suas” oportunidades de lucro mistificando o impacto daquilo que vendem. Na educação pública, além de os lucros serem infinitamente maiores, dada a escala desse tipo de serviço, ainda há o lucro da exposição de imagem pessoal ao se propor soluções milagrosas para um problema estrutural: a péssima qualidade da educação oferecida pelo Estado brasileiro.
Então vamos devagar com o andor, porque as cabecinhas de nossas crianças ainda são de barro e não podem ser partidas na pressa novidadeira.
Jogos eletrônicos interativos a distância são uma diversão e uma forma de manter os neurônios azeitados. Uma escola que complementa seu conteúdo com pesquisas focadas, relevantes e imediatas na internet empodera alunos e professores na busca por conhecimento atualizado, por visões complementares de um mesmo tema, por imagens que sintetizem uma ideia complexa; são exemplos de “esbórnia” educacional a um custo bem baixo.
Entretanto, o fato de uma criança pequena ser capaz de mexer em um tablet pode parecer encantador, mas o que está lá dentro deve ser avaliado e dosado por seus pais e professores. Trocar o tablet pela oportunidade de se ensinar um filho a se comportar em um ambiente público é uma péssima ideia. Por outro lado, há coisas fantásticas para aguçar habilidades cognitivas infantis dentro desses aparelhinhos.
Em uma sociedade como a nossa, na qual os professores da educação básica não são muito bem vistos, disseminar a noção de que eles podem ser substituídos por telinhas é um desserviço à construção de um ambiente educacional mais profissionalizado e competente. Mas aulas de reforço e testes a distância para quem está se preparando para concursos, como os vestibulares universitários, são uma mão na roda.
A conclusão é que educação a distância, como tudo de bom na vida, não pode fugir ao princípio da parcimônia e da cautela.
Matéria publicada na edição de novembro de 2012 da revista Gestão Educacional.