Para não levar gato ao invés de lebre

Reportagem de capa do Jornal O Estado de S. Paulo deste domingo, 7/1/2018, aborda uma tendência que se consolida no mercado educacional brasileiro para a educação básica: a super segmentação dos nichos de clientela, para exploração máxima de cada perfil de renda. A reportagem da Jornalista Renata Cafardo mostra em maiores detalhes um desses nichos, que é o que visa captar a clientela de altíssima renda, disposta a pagar mais de R$5.000 por mês pela escola de cada um de seus filhos, gastos em geral acrescidos de outras despesas complementares como taxas de “luvas” não reembolsáveis e aulas extras.

Todas elas, sem exceção, jogam forte com recursos de marketing educacional que incluem sempre, pelo menos, os seguintes itens:

a) ensino da Língua Inglesa em paralelo com a Língua Portuguesa;

b) uso massivo de tecnologia desde o início da escolarização;

c) instalações modernas, com alto investimento em arquitetura e design;

d) nomes esdrúxulos de práticas educativas que constituem o seu “diferencial mercadológico”;

e) a contratação de professores, coordenadores e diretores de escolas tradicionais e famosas.

Mas, da mesma forma que somos frequentemente enganados por recursos de marketing de “sofisticação” como lojas lindas, de design arrojado (lojas âncora em shoppings, ou “flagship stores”, por exemplo), que, paradoxalmente, vendem produtos altamente industrializados e de massa, muitas vezes produzidos em condições desumanas inaceitáveis em países desenvolvidos, desde o século passado, podemos ser ludibriados por escolas.

Soa terrível, não? A escola, que é uma instituição ainda respeitada no Brasil, pelo menos como conceito, entrar na corrida para sugar o máximo de seu dinheiro, entregando muito pouco em troca é uma imagem incômoda. Tão incômoda como aquela sensação desagradável de ter sido feito de trouxa depois de pagar a conta em algum restaurante da moda, que junta recursos previsíveis como design minimalista (e barato) com garçons de ar blasé, que falam difícil e parecem saídos de agências de modelo, mas que não sabem servir à mesa sem errar seu pedido, com discrição e gentileza.

Bem, ninguém está livre de passar por isso com a escola de seu filho. Não é que seja novidade: escolas privadas pseudo moderninhas também passem a mão na sua grana e ensinam muito pouco a seu filho,  a ponto de você descobri-lo cometendo erros crassos de ortografia e de construção de frases no 8º ano e pensar: onde foi que EU errei? A novidade é que agora essa competição pela sua suada renda disponível e pela sua desesperada propensão a gastar com educação para salvar seu filho do desemprego no futuro está sendo operada por empresas grandes, com grande potencial de consolidação de mercado (ou seja, comprar a concorrência sob o olhar complacente do CADE) e ações agressivas de marketing.

Diferentemente dos hambúrgueres, cuja qualidade hoje em dia qualquer brasileiro é capaz de julgar para fazer uma análise mínima de custo vs. benefício, educação escolar formal de qualidade é um produto praticamente desconhecido aqui no Brasil. Mesmo as famílias de altíssima renda, com raríssimas exceções, não têm ideia do que seja um ensino de qualidade a partir de um currículo acadêmico rigoroso. Os critérios networking + instalações são o que contam mais – a escola, na cabeça da maior parte das famílias, não se diferencia muito de um clube. Quanto mais caro e seletivo, melhor, e se for bonito, com boas instalações esportivas, tudo resolvido.

O que está acontecendo?

Empresas educacionais nacionais e estrangeiras, de conglomerados ou não, resolveram explorar o mercado de serviços educacionais brasileiro. Esse mercado educacional esteve, durante bastante tempo, praticamente restrito à produção editorial para livros didáticos vendidos no varejo ou para o gigantesco programa de distribuição de livros do governo federal (PNLD). Muitas dessas empresas entraram na área de serviços educacionais pela porta do ensino superior e agora exploram o vácuo deixado pela educação pública de péssima qualidade.

As famílias, desesperadas por vislumbrarem os empregos de seus filhos irem para o ralo por falta de uma educação de qualidade, topam pagar o máximo que sua renda permitir para salvar seus filhos de um futuro incerto. A questão é que o contexto brasileiro é muito propício para a enganação porque as famílias não têm a menor ideia do que significa uma educação de qualidade, o governo federal e os estaduais são, em geral, politicamente frágeis e tecnicamente despreparados para regular a qualidade e as empresas educacionais, ao contrário, são super competitivas e competentes: vão lhe tirar o máximo e vão lhe dar o mínimo…

Por quê?

O que faz a educação de qualidade é a combinação de itens muito caros como professores muito bem formados para dar aulas e monitorar o aprendizado dos alunos, um currículo detalhado e exigente e material de excelente qualidade, que faça os alunos trabalharem MUITO.

Nenhuma das empresas oferece isso, exatamente porque esses componentes custam caríssimo e obviamente diminuem suas margens de lucro! Do mesmo jeito que comemos 15 gramas de carne seca com abóbora no restaurante chique e pagamos preço de lagosta, podemos comprar o acesso a prédios lindos e Ipads, sem levar para casa os outros itens que realmente importam. A lagosta é mais rara de ser encontrada, pescada, transportada e conservada que o charque, mas se as firulas estiverem no lugar certo, nós pagamos charque a preço de lagosta. Da mesma forma, em particular no Brasil, professores bem preparados e material de alta qualidade quase não existem, portanto, são caríssimos. Por isso é comum o truque do jabá com jerimum a preço de Termidor: muitos alunos por professor, muita tecnologia idiotizante para não precisar investir em acervo físico e no uso realmente desafiante dos cérebros e do tempo dos alunos na escola.

Então como saber o que observar nas escolas caras, para não levar algo que não vai fazer com que seu filho seja realmente competitivo, mesmo que o preço seja caro:

1) número de alunos por turma: escola cara não pode ter mais que 10/15 alunos por turma na educação infantil, e 20 no fundamental, já com 2 professores na sala para garantir um ensino altamente individualizado, uma das características da educação de qualidade;

2) professores formados ou com alguma experiência séria (graduação, mestrado ou doutorado) em instituições de renome em países desenvolvidos;

3) tecnologia NÃO PODE SER O CENTRO DA EDUCAÇÃO, o foco é o desenvolvimento do cérebro do SEU FILHO e não o bolso das empresas criadoras de apps educacionais que em geral só deixam seu filho preguiçoso;

4) a arquitetura só ajuda se for para ter salas de aula amplas, que possibilitem aos professores circular entre os alunos enquanto eles trabalham, para observar e auxiliar seu aprendizado;

5) vá visitar a biblioteca real, de livros de papel e tinta: veja a variedade, quantidade, qualidade e a disponibilidade de títulos PARA CADA SÉRIE, começando pela educação infantil.

6) Por fim, o mais importante: o currículo. De onde foi que saíram os objetivos pedagógicos de cada ano, semestre, mês e aula? Quem controla, como esse currículo se compara com o da Inglaterra, França, Portugal e Alemanha? Em que ano seu filho vai aprender fração, estatística, vai fazer uma redação argumentativa do tipo da que cai no ENEM e na Fuvest? Como é feito o acompanhamento da produção escrita dos alunos?

Isso sim vai ajudá-lo a escolher a melhor escola que seu dinheiro pode pagar. Não tenha medo de perguntar, é seu direito como consumidor!

Normalmente, quando o resultado final de uma educação privada e cara não funciona, colocamos a culpa nos alunos, que são preguiçosos, malandros, o que pode até ser o caso. Ninguém pára para pensar que o problema pode estar na escola, e não na sua casa. Uma certa síndrome de vira-latas nos impede de ir lá e confrontar o super chef tatuado e uberizado, ou o Diretor de uma escola super cara. É o mesmo constrangimento que nos impede de ir à escola e pedir para que seu filho aprenda conceitualmente o Teorema de Pitágoras e a lista das preposições, ou que seja alfabetizado na idade certa. Cai mal, dá uma vergonha…SQN: é seu direito!

6 Respostas

  1. Luciana Paradela Glad | Responder

    Não tenho palavras para agradecer está publicação e trabalho de excelência. Estou maravilhada com tantas reflexões e só tenho a agradecer imensamente. Muito obrigada.

    1. Obrigada!! Estou aqui para ajudar. Fico feliz (muito!!) quando funciona. Qualquer dúvida específica, pode me mandar.

  2. ana paula valinho agostinho | Responder

    Te admiro muito Ilona, você tira todos da zona de conforto. Tinha lido a reportagem da jornalista Renata e a unica coisa que me animou foi o aumento salárial dos professores,pois parece que estão percebendo a importância de pagar bem este profissional .
    um abraço

    1. Ana Paula, um montão de gente me detesta exatamente por causa disso!
      ;)) mas acho que mostrar que as coisas não estão indo bem e que podem não melhorar exatamente como a gente imagina ou gostaria é algo que pode contribuir…
      O aumento de salário possivelmente virá, mas também deve vir uma acomodação. Faltam profissionais bons na educação brasileira e ainda mais que sejam bons E AINDA POR CIMA deem aulas em inglês! Mas se o MEC/CNE e Secretarias flexibiliza um pouco a lei, pode ser que haja uma enxurrada tipo mais médicos por aqui…o que não seria mal para os alunos, mas seria profundamente incômodo para os professores…

  3. Caríssima educadora, primeiramente além de ler as colocações também ouvi os seus comentários na rádio CBN. Entretanto há a outra face da moeda. Pais com recursos escolhem as escolas consideradas boas e minha pergunta é quem dá este crédito? O boca a boca? Os pares? A mídia?
    Na faixa escolar do ensino médio, os jovens decidem onde estudar e os pais nem pestenejam em matricular os seus filhos, afinal hoje a criança manda, não pede.
    No balcão de negócios da venda mercadológica educacional surge a figura de aluno-cliente fomentando verdadeiros absurdos. Tive um aluno que obrigou a escola a demitir a professora de geografia porque ela tinha dado zero para o aluno! O aluno-clinte e líder da turma habilmente convenceu a coordenadora da demissão ameaçando de mudança de escola de 15 alunos da classe! Sou testemunha deste caso.
    Preparar melhor o professor como foi mencionou é apenas uma faceta. Fui supervisora de estágio e tive alunos trabalhando seriamente com projetos em escolas públicas que não recebiam nem o passe de ônibus para cumprir o estágio obrigatório. Em qualquer outra profissão, o estagiário recebe um bônus, ajuda , mas o estagiário -futuro professor- tem de bancar o estágio produzindo material de graça para os alunos , pagar ônibus e a prórpia alimentação!
    Admiro o seu trabalho, a sua perseverança em transformar a educação em um valor maior do cidadão brasileiro, mas quem compra gato por lebre, vai com certeza, culpar o vendedor de usar de lábia para enganá-lo, no final de caça às bruxas, vai sobrar mesmo para o professor.
    Abraço, Eli

    1. Elisabeth, exatamente porque os pais não sabem o que estão “comprando” é que situações absurdas como essa que vc descreve podem acontecer. Se valorizássemos mais o aprendizado profundo a partir da escola, os professores seriam mais valorizados, o que, entre outras coisas, resultaria em uma melhor formação…

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