1984 chegou. O que fazer agora?

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair (1903-1950), escreveu seu famoso romance “1984” ao fim da Segunda Guerra. Trata-se da história de um governo autoritário que não só tudo supervisiona, mas que também é capaz de alterar a verdade para fazer com que os cidadãos se sintam à vontade em uma ditadura. O enredo parecia uma simples ficção científica inverossímil à época, mas hoje realmente chegamos à era da verdade virtual, que pode ou não coincidir com o que acontece na realidade, exatamente como é retratado no livro. Finalmente estamos percebendo o que o escritor vislumbrou há 70 anos: que a dependência da vida eletrônica e informatizada tem um lado obscuro, com impacto em todas as áreas de nossas vidas, inclusive na política.

A parte boa nós já aproveitamos no dia a dia e é a que chega mais fácil à nossa atenção.

Os brasileiros ainda estão mais deslumbrados com o piscar dos aparelhinhos e com as facilidade que eles trazem à vida de cada um, do que apavorados com a possibilidade de perderem, voluntariamente, sua liberdade de expressão e de pensamento. Mas já há muita gente no mundo refletindo sobre como lidar com os problemas criados pela existência da internet e dos dispositivos que conectam quase toda a humanidade a ela, minuto a minuto. O mais importante, que é o que gostaria de lembrar hoje, cada click, cada like conecta você, seus alunos e filhos, AOS CONTROLADORES da Internet. Eles são Facebook, Google e Amazon, principalmente, as multinacionais Big Brother da atualidade. Além delas, governos, o seu e o de outros países. O autor do blog que apresento a seguir, John Naughton, mostra na sua Tese #9 que as maiores empresas da internet ficam com tudo o que interessa e que não há espaço para concorrência no mundo dos algoritmos, uma vez que sua utilidade depende justamente do volume concentrado de dados para processamento. Sem a ajuda dos governos, o sistema todo não funciona…

Então, o que diz o blog, cuja leitura atenta recomendo fortemente?

95theses.com.uk é uma iniciativa muito interessante e instrutiva criada pelo Professor John Naughton professor e jornalista, que participa dos projetos Conspiração e Democracia (Conspiracy and Democracy) e Tecnologia e Democracia (Technology and Democracy) da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

Assim como Martinho Lutero criou, em 1517, sob a forma de panfletos, as 95 teses que viralizaram pelo mundo de então com a tecnologia inventada por Guthemberg, mudando o curso da história ocidental, o Prof. Naughton criou um blog com 95 teses sobre tecnologia explicando vários aspectos interessantes sobre o tema. Destaco 5 deles para uma primeira reflexão, principalmente relacionada à tecnologia para a educação:

Tese #6 – Os smartphones, além de ser divertidos, são um instrumento de vigilância e controle:

O smartphone é o exemplo mais vívido disponível de como a tecnologia pode ser – simultaneamente – tanto boa quanto ruim, habilitando e desabilitando, inspirando e desiludindo. As capacidades técnicas dos telefones modernos são formidáveis e a engenhosidade dos aplicativos que aproveitam esses recursos são muitas vezes impressionantes. Mas, ao mesmo tempo, os smartphones também são dispositivos de vigilância feitos pelo demônio – máquinas caça-niqueis de bolso, que usam chips de GPS para rastrear todos cada movimento, clique, deslize e agito. E alguns dos aplicativos que funcionam neles são dispositivos feitos sob medida para perseguição, bullying, assédio e roubo – ao ponto que os pais que fornecem smartphones a crianças pequenas deveriam ser processados por negligência.

Tese #8: seu filminho na Netflix contribui para o aquecimento global

No momento (2017), esse ecossistema digital absorve cerca de 7% do consumo mundial de eletricidade. Prevê-se que aumente para 12 por cento até 2020 e deverá crescer anualmente em cerca de 7 por cento até 2030 – o que é o dobro do crescimento antecipado do fornecimento de eletricidade no mesmo período.

[…]

O que podemos fazer para reduzir nossa pegada de carbono online? Reduzir o consumo de filmes on-demand é provavelmente a melhor aposta. O streaming de vídeo é um tremendo driver do uso da nuvem e do tráfego de dados. Ele representou 63% do tráfego global de internet em 2015, e deverá atingir 80% até 2020. Netflix sozinho já representa mais de um terço do tráfego de internet na América do Norte e está se expandindo em todo o mundo.

Tese #10: o modelo de negócios da internet é vender os dados que os usuários entregam de graça para as empresas e elas fazem isso com a ajuda dos governos

Sobre essa tese, leiam a entrevista da Presidente da IBM nas Páginas Amarelas da Veja desta semana (Veja 2557 de 22 de novembro de 2017). Leiam as respostas de Ginni Rometty às perguntas sobre a estratégia da IBM e sua interação com o Governo desde muito tempo.

“É assim que o Google ganha dinheiro. Os dados são coletados pelas corporações como um subproduto do que fazem. As empresas de telefonia fazem isso. As empresas de cartão de crédito o fazem. Os bancos o fazem. E o governo também quer esses dados ” [citando o especialista em segurança Bruce Schneier].

Onde o governo não pode coletar os dados em si, ele conta com as empresas. Às vezes, as empresas os dão de bom grado (embora menos assim desde as revelações de Edward Snowden em 2013). Às vezes elas resistem e precisam ser obrigadas por meios legais. O problema não é apenas que as empresas da Internet deviam cumprir a lei, mas que também precisam de cooperação governamental – por exemplo, afastar o que vêem como leis de proteção de dados excessivamente restritivas.

Tese #19: o técnico é político – as empresas controlam a sua vida e os seus pensamentos!

A ideia de que a indústria de tecnologia existe, de alguma forma, “fora” da sociedade sempre foi uma concepção mal elaborada, mesmo quando a indústria estava em sua infância. Afinal, [essa tecnologia] foi construída nos bastidores do enorme investimento público em tecnologia de defesa, design de chips, redes e pesquisas realizadas em laboratórios corporativos como Bell Labs ou consultorias como a BBN. Mas em uma era em que tornou-se óbvio que o Google e o Facebook, intencionalmente ou não, influenciaram políticas e eleições democráticas, [essa concepção equivocada sobre internet independete] é realmente delirante. Chegamos ao ponto em [que devemos reconhecer que] que quase todas as questões “tecnológicas” criadas pelas cinco empresas gigantes de tecnologia também são um problema político que exige respostas políticas e possivelmente legislativas.

Tese #20: o Facebook não é um espaço público, é uma plataforma controlada por uma multinacional americana

Os usuários da Internet parecem pensar que o Facebook e outras mídias sociais (por exemplo, o Twitter) são como o Speaker’s Corner de Londres – um espaço no Hyde Park de Londres, onde é permitido falar,  debater e discutir publicamente, no qual os oradores podem conversar sobre qualquer assunto, desde que a polícia considere que seus discursos não infringem nenhuma lei.

Na superfície, as plataformas de redes sociais podem parecer assim. Mas não são. Elas são POPS (Privately-Owned Public Spaces) – Espaços Públicos de Propriedade Privada. Os proprietários têm o poder de decidir o que é ou não é permitido, e seus algoritmos determinam quais tipos de fala se disseminam. As revelações sobre o papel do Facebook e do Google nas eleições presidenciais dos EUA de 2016 são chocantes, em parte porque eles mostram como as empresas não usaram esses poderes e, em vez disso, permitiram que suas plataformas fossem “manipuladas” por atores políticos. Então, em vez de imaginar que o Facebook seja um palanquinho de oradores on-line, imagine-o como um shopping center com guardas de segurança preguiçosos e incompetentes.

Bom, e o KIKO? O que este blog sobre política educacional tem a ver com isso?

Há muita gente querendo vender tecnologia para as escolas, principalmente para as escolas públicas, onde estão não só os grandes orçamentos de compras centralizadas pelos governos federal, estaduais e municipais, mas também os alunos e as famílias mais vulneráveis. A maior parte dessas empresas não quer ajudar as crianças a aprender mais, mas apenas ter acesso às bases de dados que esses milhões de consumidores do futuro podem gerar e como elas poderão conhecê-los para poder influenciá-los agora e sempre.

Eu imagino que em alguns anos, a tecnologia também será um instrumento de opressão dos mais vulneráveis e de exacerbação das desigualdades. Já vimos isso depois da Primavera Árabe: os governos controlam as empresas que controlam a internet e também já criam as suas próprias plataformas. Enquanto as pessoas com nível educacional econômico mais alto vão aprender a se proteger das empresas e governos mal intencionados na internet, as com menos informação e recursos tornar-se-ão presas fáceis. Não só entregando todas as suas informações de graça sem saber como serão usadas, mas sendo altamente influenciadas por eles, além de desaprender a fazer muitas coisas importantes com seus cérebros e corpo.

Assim, gostaria de sugerir dois itens para reflexão sobre internet nas escolas, públicas e privadas: o filme Wall-E (Disney, Pixar) que mostra um robozinho que salva a humanidade dessa armadilha de preguiça de fazer e de pensar, que é a internet, dispositivos e aplicativos, e o próprio livro de Orwell, “1984”. São reflexões profundas a respeito do uso da tecnologia contra os próprios seres humanos e são acessíveis aos jovens (se eles souberem ler e tiverem vocabulário). Há ainda “Black Mirror” e “13 Reasons Why”, mas esses estão na Netflix e consomem muita energia para termos acesso a eles!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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