Mapa do tesouro: encontre o novo currículo de Sobral

Na semana passada, dedicamos o Missão Aluno e o blog a divulgar o relatório completo do Pisa 2015 produzido pelo Inep, explicando EM PORTUGUÊS, PELA PRIMEIRA VEZ, como funciona o exame e trazendo dados detalhados não só sobre o Brasil, mas de uma seleção interessante de países participantes, de forma a permitir comparações mais profundas.

A partir de uma leitura atenta do relatório, para quem ainda não conhecia, pode-se finalmente entender o que o exame mede e o que considera como minimamente aceitável para se viver de maneira funcional no século XXI nas áreas de Ciências, Compreensão de Textos e Matemática, que é o que a OCDE (organizadora da iniciativa) classifica de Nível 2. Os alunos dos países da OCDE apresentam desempenho médio no nível 3, mas também um contingente expressivo de alunos acima do Nível 4, em geral maior que 15% (no Brasil esse número é menor que 1%). Esse mix é o mais importante de ser analisado, o ranking é apenas a ponta do iceberg. Mas aqui no Brasil, como a média de compreensão de textos é abaixo do Nível 2, ou seja, como nossa população é analfabeta funcional, o debate fica apenas na superfície mesmo.

A leitura atenta desse relatório pode permitir um aprofundamento do debate público, que é o que ajuda a formar novas políticas educacionais, porque aumenta o nível de percepção da população em relação às causas do nosso atraso educacional e das possibilidades de solução, já adotadas em outros países.

Vejam essa impressionante tabela que mostra a distribuição dos alunos de alto desempenho no Pisa entre os países participantes – 75% dos talentos acadêmicos que estão sendo produzidos no mundo (entre os 70 países participantes do Pisa) estão nos EUA, China, Japão, Alemanha, Vietnam, Reino Unido, Coreia, França e Rússia!!!

  Número de alunos com desempenho alto Percentagem de alunos com desempenho alto % Acumulado
N %
Estados Unidos 300156 21,7% 21,7%
B-S-J-G (China) 180717 13,1% 34,8%
Japão 174335 12,6% 47,5%
Alemanha 78528 5,7% 53,2%
Viet Nam 72219 5,2% 58,4%
Reino Unido 68247 4,9% 63,3%
Coreia 60335 4,4% 67,7%
França 58691 4,3% 72,0%
Russia 41977 3,0% 75,0%

Mas o que mede o Pisa? Para facilitar, farei a análise apenas para Compreensão de Textos:

Letramento em leitura…
O termo “letramento em leitura” é preferível a “leitura” porque pode informar com maior precisão, a um público não especializado, o que o PISA está medindo. Em geral, entende-se como “leitura” a simples decodificação ou mesmo a leitura em voz alta, enquanto a intenção dessa avaliação é medir algo mais abrangente e mais profundo. O letramento em leitura inclui grande variedade de competências cognitivas, entre as quais estão a decodificação básica, o conhecimento das palavras, da gramática e das estruturas e características linguísticas e textuais mais abrangentes e o conhecimento de mundo. (pg 92 do Relatório)

… refere-se a compreender, usar, refletir sobre…
A palavra “compreender” está de fato conectada com a “compreensão da leitura”, um elemento bem-aceito de leitura. “Usar” diz respeito à noção de aplicação e função – fazer algo com o que lemos. “Refletir sobre” foi adicionado a “compreender” e “usar” para enfatizar a noção de que ler é um processo interativo: os leitores fundamentam-se em seus pensamentos e experiências ao envolver-se com o texto. É claro que cada ato de leitura exige alguma reflexão, embasada em informação externa ao texto. Mesmo em estágios mais iniciais, os leitores apoiam-se em conhecimento simbólico para decodificar um texto e precisam ter noção do vocabulário para construir um significado. Uma vez que desenvolvem suas bases de conhecimento, experiências e crenças, em geral, de modo inconsciente, eles estão sempre testando o que leem ao fazer comparações com o conhecimento externo e, assim, revisar e rever  continuamente sua percepção do texto. (idem pg. 93)

O que são o Nível 3 e 2 do Pisa?

Nível 3 do Pisa
Nesse nível, as tarefas requerem que o leitor localize e, em alguns casos, reconheça a relação entre vários fragmentos de informação que devem satisfazer múltiplas condições. Tarefas interpretativas exigem que o leitor integre várias partes do texto a fim de identificar a ideia principal, entender a relação ou construir o significado de uma palavra ou oração. O leitor deve considerar muitas características textuais ao fazer comparações, diferenciações e categorizações. Em geral, a informação exigida não é relevante, há muita informação concorrente ou o texto apresenta outros obstáculos, tais como ideias contrárias à expectativa ou formuladas de maneira negativa. Tarefas reflexivas nesse nível podem solicitar correlações, comparações e explicações ou exigir que o leitor avalie uma característica do texto. Algumas exigem que o leitor demonstre uma compreensão refinada do texto em relação a conhecimentos do cotidiano. Outras tarefas não requerem uma compreensão detalhada do texto, mas pedem que o leitor explore um conhecimento menos comum.
Nível 2 do Pisa
Nesse nível, algumas tarefas requerem que o leitor localize um ou mais fragmentos de informação, que podem ter de ser inferidos ou satisfazer diversas condições. Outras exigem o reconhecimento da ideia principal em um texto, o entendimento de relações ou a construção de significado dentro de uma parte específica dele quando a informação não é proeminente e o leitor deve fazer inferências de nível baixo. Tarefas nesse nível podem envolver comparação ou contraste com base em uma característica única do texto. Tarefas típicas de reflexão exigem que o leitor faça uma comparação ou diversas correlações entre o texto e o conhecimento externo, explorando sua experiência e atitudes pessoais. (ibidem pgs 101 e 102)

Bem, já está ficando claro que parte da solução estará no novo currículo, SE E SOMENTE SE este documento fizer proposições pedagógicas minimamente desafiadoras. Vamos deixar claro de uma vez por todas: não é que os alunos brasileiros sejam burros. É que eles não são quase nada desafiados por suas escolas, professores e famílias!!

Para resolver esse terrível problema, o Município de Sobral, melhor rede pública de ensino do Brasil, acaba de produzir sua nova documentação curricular desde a educação infantil até o fim do ensino fundamental para Língua Portuguesa e Matemática. Leiam primeiro, ANTES de começar a reclamar porque não tem Ciências e outras disciplinas, ok?

Quando fizemos o de LP, por exemplo, decidimos que colocaríamos o equivalente ao Nível 3 para o 9º ano e o equivalente ao Nível 2 no 6º. Em Ontário, por exemplo, o Nível 3 é proposto no 6º ano. Chegamos lá ainda….

O currículo estará disponível no site da Secretaria Municipal da Educação de Sobral a partir de amanhã, ou, escrevam para mim e peçam pelo email: ilona@exequi.com

Boa leitura e, principalmente ânimo e energia para quem ousar implementá-los.

Uma resposta

  1. Se entendi o relatório, o Brasil tem 1% dos 2,8 milhões de estudantes elegíveis com alto desempenho, ou 28 mil indivíduos. Uma regrinha heurística que uso repetidamente é a de que o Brasil representa 10% dos EUA na área econômica. Considerando que os EUA têm 300 mil estudantes de alto de desempenho, os nossos 28 mil não estão fora da nossa curva.

    Claro que temos um passivo enorme nesta área e que se só nos limitarmos a repetir o que vimos fazendo estamos condenados a ser para sempre um país de renda média. Pior é que outros países (ex. Vietnam) não se conformam (como nós) em ser medíocres e nos ultrapassam. Relativamente vamos (e boa parte da américa do sul) escorregando para as últimas posições de todos os rankings (com as exceções de praxe).

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