Edição de maio de 2013 – Receita fácil, mas impossível

O desempenho educacional do Brasil consegue a proeza de ser, ao mesmo tempo, medíocre (em nível internacional) e desigual (em nível nacional). A mediocridade constata-se nos dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – PISA, ao se comparar desempenho em níveis de renda equivalentes. Para quem acha que a educação das elites brasileiras está a salvo do caos do setor público, é melhor consultar as evidências: os melhores alunos das melhores escolas perdem para seus pares. Internamente, tanto as escalas achatadas da Prova Brasil, quanto os dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD mostram que conseguimos superar a maior parte dos países minimamente organizados do mundo quando o critério é o “salve-se quem puder” educacional.

Conseguimos esses feitos, em primeiro lugar, por sermos uma sociedade que não só convive bem com – como saboreia – a hierarquia social cheia de camadas, na qual sempre podemos achar alguém mais pobre, mais humilde e vulnerável para exercer algum domínio. Relacionada a essa característica está a aversão ao planejamento de longo prazo, a impossibilidade política de implementar ciclos contínuos de qualidade em sistemas públicos de educação, a dificuldade de abandonar o patrimonialismo para adotar a impessoalidade e a imparcialidade no trato da coisa pública e a aversão doentia por buscar referências educacionais de sucesso, como inspiração para estruturamos nossas próprias soluções.

A falta de educação de qualidade no Brasil é endêmica e crônica, agora, que as águas da economia do conhecimento e da necessidade de inovação batem em nossos tornozelos, não temos gente nem para liderar a concepção das reformas que devem ser feitas, muito menos para implementá-las. Enquanto isso, ao redor do mundo, os dirigentes educacionais se reúnem com suas equipes, trocam experiências entre si e com os países que alcançam mais sucesso em educar as próximas gerações para gravitar com sossego na Era do Conhecimento e para viver em sociedade com mais civilidade.

E o que é que essas autoridades educacionais têm feito? Em primeiro lugar, estabelecem currículos cada vez mais ambiciosos e focados, obrigatórios para todas as escolas e todos os alunos. A tendência em almejar e estruturar ambientes acadêmicos com altas expectativas instalou-se em todos os países com verdadeira disposição de mudar de patamar. Aqui no Brasil, estabelecemos a meta de ensinar as primeiras letras aos 8 anos, enquanto os portugueses da mesma idade já estão lendo 110 palavras por minuto e fazendo resumos de livros com mais de 100 páginas.

Depois de especificar detalhadamente o que são as altas expectativas para cada disciplina e série, as administrações escolares que realmente se preocupam com o direito à educação de qualidade de sua população estruturam sistemas de avaliação abrangentes, alinhados com a medição desse direito e com as providências operacionais e pedagógicas que garantirão avanços constantes.

Como os ministros e as suas equipes acreditam que os profissionais da educação são a pedra fundamental de um sistema educacional que desenvolva habilidades, conhecimentos e comportamentos de alto nível em seus alunos, a formação inicial e continuada dos professores e afins é crucial e inteligente. Os professores devem dominar os conteúdos que ensinarão (obviamente…), as diferentes técnicas de como ensinar cada tópico, além de conhecer manejo de classe, planejamento e apresentar comportamento exemplar, pois, afinal, são pro-fes-so-res (outra obviedade desconhecida por aqui).

Sistemas como esses não custam nem tão caro quanto querem fazer o corporativismo docente brasileiro, nem tão barato como estamos acostumados. Recursos materiais são, sim, muito importantes para garantir ambientes estimulantes e acolhedores, materiais didáticos interessantes e em quantidade suficiente, além dos cuidados sociais relacionados às mães, aos pais, à saúde, à alimentação e às políticas para a infância de maneira geral.

Infelizmente, com exceção de poucos municípios, em geral pequenos, que devem se empenhar com reformas como essas, não há no horizonte indicativos de que seguiremos esses passos. São passos de gigante, impossíveis para nossas pernas atrofiadas pelo desleixo educacional passado.

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