Edição de setembro de 2013 – Precisamos de bons professores de professores

O Brasil sofre hoje as consequências de ter negligenciado a educação da população durante a maior parte de sua história. Mesmo quando, como retardatários, finalmente resolvemos expandir a oferta pública do direito à educação para todas as crianças e jovens de 4 a 17 anos, fomos negligentes: não definimos padrões de qualidade, nem gastamos o suficiente.

Uma das consequências disso foi a massificação do ensino às custas de reduzir o profissional de educação a um simples proletário, quase sem qualificação, recrutado de camadas sociais que não tinham passado por um sistema educacional de qualidade. Com isso, mesmo que agora quiséssemos adotar padrões de qualidade mais altos, não haveria capital humano suficiente para implementá-los.

É uma situação bastante grave, principalmente neste momento no qual a melhoria da qualidade de vida dos brasileiros depende do aque­cimento de uma economia baseada no conhecimento. Uma verdadeira enrascada. Como sair dela?

Em primeiro lugar, não se pode ter bons professores sem um bom currículo (focado em habilidades cognitivas de ordem mais alta e com conteúdos disciplinares atualizados), que apresente claras definições do que ensinar, por área do conhecimento e em cada etapa escolar. Sobrevivemos até aqui educando uma ínfima parte dos brasileiros com um mínimo de qualidade, mesmo sem um currículo decente, porque ainda estamos vivendo da tradição cultural de elite de gerações passadas, mas o nível de exigência e de conteúdo diminui a cada nova geração.

O principal componente de um sistema educacional de qualidade é o professor. Se esperamos de médicos e de engenheiros qualificação compatível com seu nível de responsabilidade, porque não de professores? Sem que eles dominem o conteúdo e as técnicas de ensino, além das técnicas de manejo de sala de aula, temos apenas arremedos cumprindo uma tabela que não leva nem nossos alunos, nem o País, a lugar algum.

Um artigo clássico do professor Lee Schulman, da Universidade Stanford, publicado em 1987 e jamais traduzido para o português, mudou a forma de se abordar a formação docente em vários países e virou referência para o setor. O artigo, entre outras importantes considerações, diz que as fontes do saber do profissional da educação são: (1) formação acadêmica em disciplinas do conteúdo; (2) materiais e entorno do processo educacional institucionalizado (por exemplo, currículos, apostilas, organizações e finanças escolares, e a estrutura da profissão docente); (3) pesquisas sobre escolaridade, organizações sociais, aprendizado humano, ensino e desenvolvimento, e outros fenômenos sociais e culturais que afetam o que os professores fazem; e (4) sabedoria que deriva da própria prática.

Na formação docente brasileira pós-massificação, esses componentes foram solenemente ignorados, sendo substituídos no decorrer do tempo por: (1) formação acadêmica frágil e desatualizada em relação às respectivas áreas do conhecimento; (2) aversão descabida a tudo o que fosse estruturado ou “manualizado” para as atividades educacionais, incluindo as de gestão; (3) pesquisa educacional de escopo, relevância, qualidade metodológica e atualização bibliográfica limitadas e (4) desprezo cabal pela prática docente em si, por seus registros e pelo potencial de contribuição para o processo de formação docente.

Estamos fazendo tudo diferente do que fizeram os países que passaram a tratar os componentes técnicos da profissão docente com seriedade e respeito. Aparentemente, não há uma tendência de mudança de direção, embora haja o desejo latente de se sair das trevas. O que será que vai fazer o Brasil sair dessa inércia setorial para buscar um novo patamar de formação docente? O título desse artigo traz a resposta.

 

Artigo publicado na edição de setembro de 2013.

2 Respostas

  1. O Governo Federal através do FIES e do PROUNI, incentiva os estudantes de baixa renda à ideia equivocada de que” Universidade é para todos”. Os alunos financiados preferem cursar Administração e Direito.
    Leia, em http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/10/1527421-ajuda-federal-para-universitarios-dispara-no-pais.shtml:

    “Esses programas deveriam trazer incentivos para os cursos de maior interesse para a sociedade e um gigantesco incentivo para os alunos bons irem para a pedagogia” (Claudio de Moura Castro, pesquisador).

    “Tenho a impressão de que a política (do MEC) atual é estritamente de subsídio, o que coloca em questão se esses recursos não seriam melhor empregados na educação básica, por exemplo.” (Simon Schwartzman, Presidente do IETS).

    1. A questão é que os alunos escolhem cursos onde a admissão ou conclusão é mais fácil, por prescindirem de conhecimentos de Matemática e Ciências porque a educação básica é de péssima qualidade e não oferece os conteúdos, essenciais para a vida profissional e pessoal, mas também básicos para cursos como Medicina, Engenharias e Bioquímica, aos alunos em geral, e em particular para os de escolas públicas. Sem a escola básica de qualidade não há ensino superior de qualidade. Há exceções em escolas privadas de excelência, que atendem a famílias que fazem alto esforço educacional nas etapas inciais para garantirem a seus filhos os melhores empregos disponíveis. Para os cursos de Pedagogia começarem a ser interessantes deveria haver, de forma concomitante,: a) mudança radical nas diretrizes curriculares e nos conteúdos dos cursos e b) aumento de prestígio e de salário para os docentes egressos desses cursos. Difícil, né?

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